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Amilcar de Castro e a Arte da Dobra que Não Deixa Sobra

foto: Umberto Cerri
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fernando ciscozappa · Belo Horizonte, MG
13/4/2008 · 137 · 13
 

Amostra do texto

“O inventado é um todo sem resto.”
(Amilcar de Castro – 1920/2002)

São muitas as entradas para se conhecer a obra de um artista como Amilcar, em todas elas teremos coisas em comum e incomuns, entretanto, um ponto de referência se sobressai em todas: “o que interessa não é a figura, a referência ao mundo objetivo, mas a sua relação viva e orgânica com o espaço”.

Amilcar foi o artista e, ao mesmo tempo, confundiu-se com sua matéria de trabalho, este outro incorporado como extensão do próprio corpo: iron man.

Suas obras revelam uma identidade cunhada pelo desenho e pelo fascínio das dimensionalidades. O desenho foi a preparação para o encontro com a tridimensionalidade, uma descoberta espacial e foi, concomitantemente, o encontro consigo mesmo.

A dobra de Amilcar de Castro não permitia a presença do erro, pois o que evocava, mesmo com a participação do erro, era obra inaugural, im-pre-vista. O gesto que resultava no im-pre-visto absorvia/absolvia, pelas mãos do justo e do não desperdício, o que poderia ser equívoco e o transformava em elemento constitutivo do processo criativo. O erro virava, dentro de sua poética escultórica, anagrama do ferro.

Torcer é também desejar que algo aconteça, no caso de Amilcar, algo de bom e duplamente justo: no sentido da justeza e da correção, posto que nada sobra no justo movimento de sua dobra. Dobrar a ferro e fogo é re-significar o perene, construir uma nova permanência no espaço: solitária e majestosa – e no tempo: tornar-se uma evidência ferruginosa. A dobra duplicou e continua a duplicar o que é poético em Amilcar. Seu olhar antecedia o gesto, modificava poeticamente a matéria e possibilitava o imprevisto. O desenho que anunciava o corte e a torção expunha a tensão, o calor, a fissura a que a matéria seria submetida. Sua dobra era um contínuo ato de agregar leveza ao peso na essência da obra.

A ferrugem aparece como rugas e anuncia a mudança/processo previsto da própria escultura. É incorporada como elemento caprichoso do tempo que cuida de registrar na obra sua história, história que, na lentidão de suas obras e na firmeza de seus traços, preencherá de olhares e gestos afetivos a memória. É a mancha do tempo anunciando o passar indelével de uma paisagem ao mesmo tempo espacial e temporal.

Amilcar encarou o trabalho duro e soube, também, que não seria mole o encontro com um outro (ele mesmo) no resultado da obra. Sabia e afirmava que suas obras eram a mesma e única obra, que nasceu do corte e da dobra, desde a primeira. Sua última obra é extra-semelhante e não idêntica à primeira. Escultura é Corte e Dobra, Torção e Adição. Depois é o existir autônomo, porém dependente, da obra. Dependente porque a ferrugem que come o ferro deglute volitivamente a transformação permanente da obra, que se resignifica na permanência e nos deslocamentos, na subjetividade do olhar de hoje e de amanhã. O corte e a dobra do ferro, ou só a dobra, forma(m) uma estrutura que é exibida como imagem de um mundo vivo, que quer continuar vivo, exposto ao ar, alimento que gera vida. O viver da obra traz consigo sua contradição, pois esse oxigênio que sopra vida, que penetra a obra é o mesmo que anuncia vagarosamente seu fim. Amilcar sabia disso desde o início, que dessa natureza dúbia sairia um jogo entre a vida e a morte, que dessa dureza sairia a leveza que faz com que a gente continue a vê-lo vivo e vibrante na profundidade da sua obra, e que a ferrugem é, agora, o símbolo do suor de suas mãos estóicas.

Minas Gerais é terra-mundo, é casa-vida. Aqui, entre montanhas minerais, Amilcar construiu, a partir de seu olhar construtivo, uma geometria de formas inaugurais, uma geologia do gesto duro, uma filosofia da sustentabilidade da dobra, ecológica no uso, econômica na representação. Nesses gestos impressos na folha branca, na tela, na madeira, no mármore, no cobre, na matéria pesada do ferro (principalmente), que carrega no próprio signo verbal a propagação das sensações de peso, massa e densidade, Amilcar revela sua contraface estrutural: leveza e equilíbrio. Através da mão que desenha “o espaço na medida do sonho”.

A tecnologia trouxe a produção de uma lâmina de ferro (aço sac 41: um tipo de aço que rapidamente se faz oxidar uma camada externa, de tamanho determinado, conforme a qualidade e/ou fabricante, como forma de impedir a oxidação das suas camadas inferiores), foi a vitória da arte (tékhne) sobre a morte, que anuncia no alvorecer do século 21 a eterna idade das obras de Amilcar de Castro.

Amilcar, o poeta do espaço, fez da obra seu signo escrito no tempo e na matéria página da vida. Ele dobra o ferro, vira obra; ele desdobra a obra em palavras, vira poesia. Sua poesia dialoga com sua obra, expondo as veias abertas de sua intenção maior: esculpir como quem sonha, dobrar como quem brinca, cortar como quem separa e junta vazios, desenhar como quem faz poesia. Através de suas esculturas, fez uma inversão seminal que traz, ad infinitum, a permanência da obra na estrutura da matéria: o ferro. Matéria que permanece velada pela contradição, uma permanência que se inscreve na modificação edificada pelo tempo e pelo espaço. Alcançou uma continuidade anteriormente intransponível entre o risco – o desenho que marca no papel a obra – e a materialidade exigida pelo real, a obra em si mesma.

Amilcar de Castro foi autor de uma obra memorável. Seu risco, seu corte, sua dobra sustentável são a manifestação mais pura de um ser vivo e pensante, que pulsa na origem do que é mineral.

Fernando de Castro Fernandes
Sociólogo, Diretor da Escola Jasmim – Centro de Arte e Educação

Texto produzido para a exposição Amilcar de Castro na Casa Fiat de Cultura
Belo Horizonte, Março de 2008

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Saramar
 

Que maravilhosa lição!
Aprendi muito com este seu texto ilustrativo e inspirador sobre o grande artista.
Obrigada.

beijos

Saramar · Goiânia, GO 10/4/2008 14:41
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danlima
 

fernando, eis que você reaparece com este texto sobre amilcar de castro, texto de uma densidade poética tão grande quanto a poesia que extrapola das obras do escultor. Quando você fala no peso do ferro, do material bruto usado para criar a poesia da forma, a dobra, a expressão material do risco sosbre o papel que o artista inventa, meu raciocínio leva-me ao nosso oficio de escrever, de transformar em obra física, tocável, palpável, o poema escrito no papel, na tela, na parede, no muro, o poema parte de um todo, o poema-tudo, a leveza da idéia, do conceito, porém não aprisionado em sua morada mas expandindo e extrapolando a beleza que contém. Você conbsegue transmitir, em seu texto, toda esta grandeza da criação da beleza, do torcer, do retorcer, do dobrar, e da perenidade da obra de arte que já traz, em seu própri9o bojo, a condição de toda arte, assim como de toda a vida humana: a humana condição de um dia perecer, porém não sem antes florecer sua beleza no planeta. Meus parabéns, poeta das palavras e das artes.

danlima · Brasília, DF 12/4/2008 19:09
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Marco Bastos
 

Conheci as obras de Amilcar através de peças expostas aqui em Salvador no museu Costa Pinto. Sou engenheiro mecânico e admirei tratar o ferro o aço, da maneira como ele trata - como se fora papel. O conceito estético da forma na leveza do aço. A impossibilidade do refazer para acertar (faça perfeito na primeira vez) é sempre um desafio e a mágica da geometria dos cortes, criando a obra de arte.
Parabéns pelo seu texto e aqui cheguei pelo conceito: "a arte da dobra que não deixa sobra" frase que enquanto só leitura, que se desfez ao ver a primeira fotografia, me fez pensar no origami. Texto que ultrapassa a análise das formas para alcançar a intimidade dos materiais: "não se oxida aquilo que oxidado já está." - tal qual vacina - e daí voa para as correlações filosóficas que inserem a peça de arte nos contextos de vida.
Parabéns.
voto.

Marco Bastos · Salvador, BA 13/4/2008 16:19
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clara arruda
 

Sou apaixonada por contos.

clara arruda · Rio de Janeiro, RJ 13/4/2008 20:07
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Elio Cândido de Oliveira
 

VOTADO PARABENS.
http://www.overmundo.com.br/banco/seu-sorriso-alem-do-horizonte
Em votação...
Visite ..

Elio Cândido de Oliveira · Ibiá, MG 13/4/2008 21:46
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fernando ciscozappa
 

oi dan!
o risco é a nossa condição.
diria, indo mais longe, a condição humana, no sentido de hanna arendt, para a construção de um ser libre...
tanto o risco do amilcar
quanto o risco do poeta, se inscrevem, indubitavelmente,
na superfície do inesperado, mesmo que para tanto o artista/poeta
se esmerem em medir, calcular, lançar-se ao plano e à dimensionalidades... pois o inesperado é justamente a junção do todo, que é mais do que o artista e o poeta... é o espaço construído e problemático do fazer humano...
e, também, como você bem diz, essa outra condição humana: vivemos buscando a permanência de alguma materialidade para que quando já não formos matéria... o perecível, este fundo extenso e fugaz (ou o trauma da presença, como afirma rodrigo naves) alcance as glórias do tempo através da história...
se é que ainda haverá história! (apenas uma provocação... rsrs)
abraços mui ternos, meu caríssimo dan!

fernando ciscozappa · Belo Horizonte, MG 14/4/2008 08:21
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fernando ciscozappa
 

marcos, "não se oxida o que oxidado está!"... lembrou-me uma frase do amilcar se referindo ao alumínio (e acho que também ao acrílico): amilcar diz, quando perguntado sobre sua opinião sobre o alumínio - "prefiro o ferro, alumínio não tem caráter, não envelhece".
e, também, tenho essa mesma impressão e estou refletindo muito sobre isso: a relação entre amilcar e a arte japonesa.
não só em relação à dobradura, mas também aos traços/linhas (veja os desenhos de amilcar).
obrigado pelo seu belo comentário.
abraços ternos!

fernando ciscozappa · Belo Horizonte, MG 14/4/2008 08:28
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Regina Lyra
 

Fernando,
Belo presente me trouxeste ao conhecer um pouco através do seu texto a obra de Amílcar de Castro.
A diversidade brasileira e suas genialidades...
Beijos e votos,
Regina

Regina Lyra · João Pessoa, PB 15/4/2008 14:14
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Sapo Cururu
 



Meu, muito bom! Salve a arte das torções!

Sapo Cururu · São Paulo, SP 17/4/2008 21:36
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Cintia Thome
 

Conheci Amilcar, esplendorosa arte, não há quem não veja algo dele e não defina: Amilcar... Também em suas peças tinha a impressão de algo com a arte japonesa, bela colaboração Fernando.

Cintia Thome · São Paulo, SP 18/4/2008 15:56
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Andre Pessego
 

Tinha visto em edição,
]sabe que me lembrou este artigo. A máquina a vapor. a conceituação da formula da potência elétrica - a mistura entre tantas materias, formas e estados,
um abraço
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 30/5/2008 21:13
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Compulsão Diária
 

Cheguei depois de seu postado. Parabéns. Amilcar sem a montahas minerais não teria arriscado em aço cortem. conheço a obra e seu texto é excelente.
Parabéns

Compulsão Diária · São Paulo, SP 10/7/2008 17:08
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anamineira
 

Conheci a obra de Amilcar de Castro em Dom Sivério.
Estão expostas em vários locais.
Foram doadas por um amigo que coleciona várias obras do Amilcar.
Um grande acervo.
Abraços,


anamineira · Alvinópolis, MG 2/11/2008 21:10
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