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Corpos Feridos, Corações Rotos

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Maxwell Santos · Vitória, ES
2/12/2011 · 0 · 0
 

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Os sertanejos não têm culpa de nada, além do mau gosto. Fazem a música que o Brasil quer, a que eles gostam, o som dos “anos Collor”. A música ingênua e melancólica do próspero interior de São Paulo, de Minas e de Goiás se urbaniza e se eletrifica, enche estádios, voa de jatinhos e vende milhões de discos. As estrelas da MPB dificilmente conseguem que seus discos toquem no rádio, seus shows perdem público, muitos direcionam sua carreira para o exterior. As gravadoras só pensam em sertanejos, eles são as grandes estrelas dos programas populares de televisão. A vida na Warner estava insuportável.

Nelson Motta, Noites Tropicais. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2000.







Sábado, 16 de julho de 1997. Luciana almoçava na cozinha com Cleide, a doméstica, uma mineirinha cabocla baixinha, de cabelo preto e fala mansa. O rádio sintonizado na Tropical FM[Nota de fim], que tocava a música Não vivo sem você, de Luiz Carlos e Elias Muniz, interpretada por Gian e Giovani.

- Cleide, cá entre nós, como é que você aguenta ouvir uma música de tão mau gosto. São as mesmas histórias do homem que perdeu a mulher amada e que quer recuperar o amor perdido. Os refrões grudam que nem chiclete no ouvido da gente: “O nosso amor é lindo/Te amo e você me ama/Não deixe apagar a chama/A gente tem que se entender /O nosso amor é lindo/Te amo e você me ama/Não deixe apagar a chama/Não vivo sem você”. Dá até gastura na gente – disse Luciana.

- Luciana, cada um tem o seu gosto e eu tenho o meu, dá licença? Se você não gosta, não posso fazer nada – respondeu Cleide.

- Como dizia Carlos Imperial, existe o meu gosto e o mau gosto – respondeu Luciana.

Nesse momento, entrou Judith, a mãe de Luciana, professora de Geografia da rede pública estadual, uma loirona alta, que vestia uma bata indiana e estava toda enfeitada de brincos e pulseiras coloridas e que da sala ouvia a conversa dela com a empregada. Ela repreendeu Luciana:

- Luciana, a Cleide tem razão quando diz que cada um tem seu gosto musical. Você deveria ser mais tolerante com as pessoas.

- Ah, mãe, eu tento, mas não consigo. É muito lixo musical que toca nessas rádios. Nessa cidade se a gente botasse todas as rádios FM numa peneira só sobrariam três. Gostava muito da Capital[Nota de fim], que só tocava música maneira, mas acabou e fiquei supertriste – protestou Luciana.

- Eu e seu pai decidimos descontar de sua mesada o valor do rádio da Cleide que você quebrou. Assim, vai aprender dar valor e respeitar as coisas dos outros – asseverou Judith.

- Que droga! - gritou Luciana, saindo da cozinha.

Certa vez, Luciana, dotada de um temperamento histérico, atirou o radio da Cleide pela janela, no momento que estava tocando a música Pão de mel, de Zezé di Camargo e Luciano, cujos versos dizem: Você é minha luz, estrada meu caminho/Sem você não sei andar sozinho/Sou tão dependente de você/Chama que alimenta o fogo da paixão/Chuva que molhou meu coração/Sou tão dependente de você/Vem meu céu, meu pão de mel/Meu bem querer/Vem meu céu, meu pão de mel/Meu bem querer/Ai, ai, ai, ai, ai, esse amor/É bom demais/Ai, ai, ai, ai, ai, esse amor/Marcou demais/Ai, ai, ai, ai, ai, esse amor/Ficou em mim/Ai, ai, ai, ai, ai, esse amor/Não vai ter fim.

Cleide, que trabalhava com a família desde 1992, ficou muito sentida.

– Seu Alcides, eu peço demissão - asseverou.

Alcides, o pai de Luciana e que era contador, pôs panos quentes:

- Não deixe a casa, pois nós temos muito apreço por você. Releve as frescuras da Luciana, pois ainda tá na adolescência, só tem tamanho e zero de juízo. Vou te dar o Motoradio que eu usava pra ouvir futebol na Rádio Tupi.

– Obrigada, seu Alcides – agradeceu Cleide.

Na varanda do apartamento, as irmãs de Luciana, Carolinie e Marcella, com 12 e 10 anos, respectivamente ensaiavam as coreografias das Spice Girls. Luciana fechou a cara.

– O que foi, Lu? Porque essa cara feia? – perguntou Carolinie.

– Você ainda pergunta, Carol? Eu odeio esse quinteto inglês de retardadas. The Cranberries é cinquenta vezes melhor que essas inglesas fabricadas em laboratório – respondeu Luciana, de forma áspera.

– Sua chata! Implica com a gente, com a Cleide. Desse jeito, não há quem te ature!- disse Marcella.

- Não tem mesmo não! Daqui a um ano, vocês vão enjoar delas e aí, terão que caçar outro ídolo – afirmou Luciana.

Luciana deu um sorriso forçado e vencida pelo cansaço, voltou para o seu quarto, ligou o mini system, colocou o CD do Cranberries, na faixa Ode To My Family, jogou-se na cama e relaxou.

***

Domingo, 16 de julho de 1997. Para Luciana, o domingo era o dia mais chato da semana.

“Se pudesse mudar o curso do tempo, faria o sábado virar segunda-feira. Domingo é muito palha”, pensava.

Ela não tinha mais paciência para assistir televisão, principalmente, Gugu e Faustão, muito menos para as atrações que iam lá cantar, sempre os grupos de pagode(Só pra contrariar, Raça Negra, Molejo), axé(Companhia do Pagode e É o Tchan) e duplas sertanejas(Leandro e Leonardo, Zezé di Camargo e Luciano, Gian e Giovani).

A guerra da audiência aos domingos tinha chegado a um nível insuportável que só faltava mostrar a avó nua, tamanhas eram as bizarrices mostradas, do Latininho e o sushi erótico do roliço à banheira com mulheres sensuais tentando deter os homens que queriam pegar os sabonetes e homens-lobo com o louro apresentador. Para os produtores e diretores do Domingo Legal e do Domingão do Faustão, os fins justificavam os meios, sejam eles morais ou amorais. Afinal, televisão é uma empresa comercial que visa o lucro, logo, bons índices de audiência atraem anunciantes.

Seu tédio só se aliviava quando assistia filmes cult, como Pulp Fiction – Tempo de Violência, de Quentin Tarantino e Ata-me, de Pedro Almodóvar, que ela pegava na locadora e os assistia no horário dos programas de auditório.

Entretanto, o único programa que fazia Luciana mudar de humor era o Sai de Baixo. Ela e seus pais borravam-se de rir das armações de Caco Antibes, o genro boa-vida do Vavá, principalmente quando ele brigava com a sua esposa desprovida de intelecto, Magda(Cala a boca, Magda!) e os apelidos que punha na sogra, Cassandra, uma aristocrata decadente. Seu início era o prenúncio do fim do domingo e início da segunda-feira.

Sobre a obra

Corpos Feridos, Corações Rotos é um e-book(livro eletrônico) juvenil que tem como pano de fundo os anos 90, a sua cultura pop e os modismos da época, que relata a história de Luciana, menina de temperamento forte e de beleza exuberante que gosta de paquerar os meninos da escola.

De repente, ela se envolve com Renan, dito crânio da matemática e medalhista na matéria, colocando-o dentro de um jogo de sedução, com carícias, beijos e uma transa. O desfecho será trágico para ambos, que deixará corpos feridos e corações rotos.

Também relata a alegria do primeiro amor entre Lucas e Mariana. A princípio, Lucas paquera Luciana, que o esnoba e ainda ajuda Mariana a lutar por ele, sugerindo que ela mude o visual.

A obra visa por em crise a sociedade pós-moderna, marcada pela ausência de freio moral, a busca pelo prazer sem medir as conseqüências e o desprezo pela vida humana que está no nascedouro. Personifica a Geração Y em Luciana, marcada pelo individualismo e imediatismo dos jovens

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Autoria
Maxwell dos Santos
Ficha técnica
Maxwell dos Santos
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