Carta n°17
Oi Bento
Lá estava eu a escrever uma novela no último e.mail. Mas é que quando comecei a escrever sobre mim e minha família dei-me conta de quão louco é tudo o que se passou conosco (principalmente agora que estou me relacionando com pessoas normais, de São Paulo, e tu, de Minas). Por exemplo: os peões da nossa estância estão dizendo que o vinhedo é amaldiçoado por causa do falecido estancieiro Valentim Ferro que aqui se suicidou (há mais de setenta anos
atrás) não sem antes lançar um anátema sobre os novos donos, isto é, meus avós, e seu futuro vinhedo. Eu não creio... mas tenho medo (risos).
Carta n°18
Bento poeta querido!
Que lindo poema escreveste para mim! Como dizemos por aqui: barbaridade,tche! Sabe, Bento, me consta que o poema que te inspirou é de autoria de John Dohne (sec.XVI) e começa por um verso que também ficou célebre: "No man is an island", e foi oportuno demais tu me lembrares disso... Andava eu um tanto "em-mimesmada" (risos), e até meus filhos se ressentiam disso. O teu poema, que noutro momento me inflaria o ego, fez melhor: lembrou-me que sou parte do todo. Ajudou-me a me ver como parcela inerente deste pampa infinito que me cerca e que é o mundo. E assim, me fundiu com o espírito telúrico de minha irmã, que aqui está disseminada pelas suas cinzas sagradas. Bento, li teu poema e saí a correr pela campina, e quase arranquei minhas roupa (tive vontade) como fazia a Alminha. Não o fiz, há sempre algum olhar indiscreto, pensei, e essa é a diferença entre mim e ela, que era uma força da natureza, toda instinto e paixão, aliados à uma mente portentosa capaz de pensar racionalmente na área mais profunda: a do pensamento filosófico. Assim, pobre de mim (risos), não tirei minhas roupas, mas corri, corri até cair exausta e... chorar, chorar de alívio, de amor, e afinal de integração com minha irmã, verdadeiro espírito desta terra tão amada. Senti, então uma força, Bento, uma grande força para lutar por esta estância, para salvá-la, para salvar o casarão, o vinhedo, o jardim, o pomar, tudo o que meus olhos e meu coração agora abrangiam, graças ao efeito do teu poema... meu poeta mineiro e telúrico!
Quando voltei ao casarão, ele me pareceu mais claro, mais leve, fui logo abraçar e acariciar meus filhos, tanto, que até estranharam. Patrícia, linda adolescente, que perdeu pai e mãe, ficou com os olhos cheios de lágrimas de emoção e agradecimento, e aninhou-se mais em mim e... fomos uma só. Hans e Christiam meus gêmeos adorados, e Pedrinho, menino terno e sério, pequeno futuro gênio das ciências, também chorou, e me pareceu que pela primeira vez. Mas logo as crianças correram para o jardim, e começaram a brincar como quando eram menores. Me lembrou algo, e então, fui procurar um certo poema da amada Alma, dos sonetos Pampianos que ora envio a ti:
Abro a janela... ( de Alma Welt)
Abro a janela que dá para o jardim
E vejo meus irmãos ali brincando.
Ah! Já começaram, e sem mim!
Voltei à infância, e já me atrazando...
Esperem-me, Solange, Rodo, Lúcia!
E vindos da futura geração
O pequeno Hans e seu irmão
Que parecem dois ursinhos de pelúcia.
Estamos todos juntos... como pode?
Ah! Somos crianças novamente!
Pedrinho pede à Pati que o rode
Ao compasso do scherzo de Beethoven
Que o Vati punha alto para a gente
E que os meus ouvidos ainda ouvem...
16/12/2006
Bento, qualquer hora eu te falo dos meus filhos tão lindos!
Olha, anexei uma foto que me fizeram numa galeria em Porto Alegre, há uns meses atrás.
Vamos nos falando
Beijos
Lucia
Carta n°20
Bento querido
Que bom que não me abandonaste! Eu cheguei apensar que te cansaras das minhas lamúrias e te afastaras... Realmente passei por maus bocados e não seria sincera contigo se para impressionar-te deixasse de falar de minhas fraquezas e posasse de pequena deusa germânica ou heroína dos pampas... Mas é que senti o peso da minha solidão, aqui no papel que me coube de esteio deste lar, com a morte do Vati e da Solange, que estes sim, eram fortes. Alma e eu sempre fomos mais fracas, e eu mais do que a Alma, bela, mas afinal frágil criatura, que se quebrou como um fino cristal.
Há dois dias esteve aqui, novamente o nefasto Benotti, e como um furacão praticamente interditou o casarão e a estância toda com seus homens, e organizou o interrogatório geral. Começou pelo Galdério, e fez uma verdadeira inquisição, apertando e torturando mentalmente cada um de nós. Nada lhe escapava. Era uma verruma entrando até nos pensamentos mais íntimos de cada um. Ah! Bento, eu precisaria ser uma escritora como a Alma para descrever esses interrogatórios, suas entrelinhas e expressões fisionômicas. Galdério, Matilde e a doutora Jensen foram dignos e até heróicos em seus depoimentos. Algum dia vou tentar transcrevê-los tal qual me foi dado ouvir de primeira ou de segunda mão, pois logo o delegado percebendo a força que nos dávamos uns aos outros passou a interrogar reservadamente, a portas fechadas, inclusive para melhor torturar. E logo vi que ele me visava, esperava a hora de me atingir, de me tocar e fazer sofrer nem que fosse só mentalmente. Sim, pois suas mãos se crispavam no ar, em direção à minha cabeça e aos meus ombros, e eu via que ele gostaria de me agarrar. Ele olhava meu corpo, meus seios, através da roupa e me despia com os olhos, obscenamente. Eu... me senti nua, violentada, em farrapos. Ah! Bento, não sabes o poder de um homem diabólico como esse! E, no entanto, que poderia eu dizer? Que sei eu? Não compreendo o que se passou com Alma, pelo menos no nível das circunstâncias de sua morte, embora me pareça conhecer sua alma doce e cristalina como as águas daquele poço. Que sei eu do que aconteceu? Eu nem estava aqui na estância, ai de mim! Quisera estar com ela, lutar e morrer com ela...
Saí tão abalada, como se tivesse culpa da morte da nossa sagrada Alma, só por não estar aqui para defendê-la, cuidar dela, encerrá-la no útero da minha alma para sempre, a doce Alminha criança eterna da Natureza, princesinha poeta que não poderia te sido deixada tão só neste mundo. Ai! Patricia chorava, e Pedrinho queria esmurrar o delegado.
Meus gêmeos Hans e Christian estavam mais calados do que nunca e Rôdo foi o único que gritou com o delegado e se exaltou, quase agredindo-o por revide (o que o delegado bem gostaria para poder prendê-lo por desacato) eu ouvi e senti, atrás da porta.
O Grande Inquisidor afinal retirou-se prometendo voltar. Seus homens ostentavam armas, carabinas e pistolas e o acompanharam olhando para trás, num jogo de cena ensaiado para parecer que tinham visitado um covil de bandidos. Estamos todos chocados e perplexos. As vísceras da nossa casa estão sendo colocadas à mostra, para parecerem sujas... Durante os interrogatórios o delegado fazia questão de descrever o que ele acredita ter acontecido, chocando-nos com a visão da Alma sendo violada, em detalhes, lutando, sendo... estuprada de todas as maneiras como se... e ele tivesse presenciado isso, e até... como se ele o tivesse feito! É um sádico e estamos nas suas mãos.
Depois, naquela noite, ao dormir tive um horrível pesadelo, em que eu era a Alma sendo estuprada e acordei em pânico, suada, e até cheia de dores. Olhei-me e... talvez somaticamente, estava sangrando!
Fui para o quarto da doutora, entrei sob suas cobertas e aconcheguei-me a ela que me abraçou, e dormimos assim, abraçadas, graças ao Bom Deus que afinal nos deu uma à outra. Quando acordamos, para minha vergonha, havia mais a Patrícia e os gêmeos, todos embolados na grande cama maternal da doutora. Só faltavam o Pedrinho, forte guri, e o Rôdo. Ah! Bento, tive a visão de toda a dimensão de minha... de nossa carência. Eu é que deveria tê-los acolhido na minha cama....
Bem, Bento, por ora fico por aqui, que desabafei contigo, poeta de longe, que mal poderá entender, talvez, uma família como esta, um pampa cruel como este, do frio, solitário e eterno minuano...
Mas reza por nós aos teus orixás
Um beijo sofrido
da Lu
Mais algumas cartas de Lucia Welt ao poeta mineiro Claudio Bento. Ao longo desta pungente correspondência eletrônica o mistério da trágica morte da Alma vai aumentando, o que é o motivo para eu postar aqui estas cartas que, embora íntimas, têm, a meu ver, valor histórico pelas revelações surpreendentes que contêm sobre a celebrada Musa do Pampa.
Lendo hj sobre essa correspondencia fui reler os sonetos de Alma...mas acho que Lucia tem razão há alguma coisa além da morte, há algo que realmente tragico aconteceu antes na Fazenda....e Alma talvez tenha sentido isso, ela tinha certeza que seria breve sua passagem
abs Guilherme
Sim, cara amiga Cintia. A alternativa ao suicídio da Alma é tão escabrosa, que a pobre Lucia parece preferir não acreditar na teoria desse delegado, tanto mais que ele não se comportou nada bem. Na verdade esse delegado comportou-se na investigação como um crápula e no final francamente um bandido. E isso está contado por Lucia numa carta de sua correspondência com o poeta mineiro, que me foi dada a ler. É uma carta estarrecedora, e Lucia, traumatisada, pareceu obliterar, dessa carta em diante, os fatos ocorridos na investigação e com ela mesma. Se você quiser posso lhe enviar por e.mail, confidencialmente, essa carta (também e.mail), pois você é uma poeta e pessoa de alto nível, e uma admiradora da Alma, que se emociona e se solidariza com sua tragédia. Me envie uma resposta sobre isso e eu enviarei a carta, em confiança, já que a Lucia me autorisou a fazê-lo.
abraços
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