Tudo contido apertadinho na ante-sala de uma sexta, o último dia útil da semana. Útil: os demais seriam de descanso e cerveja e conversas amenas com os amigos em mesas de bar. O ônibus seguia atravessando sinais, reais e imaginários, saltando obstáculos, desviando-se das criaturas que povoam as ruas de qualquer sexta-feira: bêbados, bonecas de cera, mulheres de esquina, homens de esquina, ladrões e jovens donos de possantes veículos flex, bi-combustível, aero-espaciais e tantos outros resultado de experiências extravagantes, mas cuja venda era garantida.
Éramos, sonolentos e distantes, cerca de quatro ou cinco no ônibus. Não nos olhávamos, quando muito espiávamos com o canto dos pensamentos uns aos outros, certa desconfiança, que agora reputo ao simples desejo em atribuir características fantásticas a seres cujo rosto desconhecemos. Éramos poucos ali, recostados a bancos de plástico duros e enquanto voávamos juntos na mesma cápsula, singrando mares de petróleo, alguns dormitando, outros alertas, pensávamos, sem exceção, naquilo que nos aguardava em casa: mulheres, homens, mães, filhos; televisão, computadores, rádios a pilha, garrafas de aguardente, cerveja, refrigerantes. Os coqueiros no quintal de casa preenchiam basicamente os meus pensamentos. Sem eles, não sei o que seria de mim, de modo que seguia grudado neles, seus mil braços de centopéia.
Antes, pouco antes de chegar à rua, àquela única rua pisada que poderia distinguir entre mil e tantas outras, antes de lhe palmilhar as pedras, antes do que veio depois, em casa, briga, sangue e morte – um homem, cabelos brancos caindo-lhe até a cintura, abordou-me na esquina. Um homem estranho, muito branco, olhos da cor do mais noturno asfalto, disse-me, confessou-me estar preocupado com o rumo da vida de todos. Citou-me os outros que me acompanharam durante toda a viagem de ônibus, relatou-me casos curiosos, pediu-me ajuda.
Parei. O homem detinha minha mão entre as suas. Sentia-me esbraseado, cortante, a boca seca exigindo-me um copo d’água. O homem olhava-me duro, mas igualmente assustado. Ao redor, apenas latidos e sons noturnos, gritos atravessando a vizinhança, dona Carmélia a debater os furúnculos do marido no meio da noite. Ninguém mais.
Aos poucos, o homem branco afrouxou as mãos, deixando-me escapulir pra casa, em cuja porta a mulher já aguardava. Naquela noite, brigamos como nunca, nos enroscamos pelo chão, ela era forte, eu também não deixava por menos. Muito tempo depois, fizemos qualquer coisa parecida com sexo. Era bom, rolávamos novamente pelo chão sujo do quarto. Adormecemos abraçados. Não houve, não ali, naquele instante, briga, sangue e morte.