Gilberto Gil, famoso cantor e compositor baiano, nascido em Salvador em 26/06/1942, um dos três maiores nomes da música brasileira, lançou em 1979 a música "Realce" que eu sempre imaginei que tivesse sido destinada à baitolagem. E acho que foi mesmo porque num dos shows do cantor que assisti, quando ele cantou essa música, a viadagem presente, que não era pouca, foi ao delírio acompanhando o músico assim: "realce, realce, quanto mais purpurina melhor"... Sem contar que nesse disco de 1979 está presente “Superhomem, a canção” que bem poderia se chamar “canção macho e fêmea”. Esse disco é fundamental na sua carreira. Chegava ao fim a década do desbunde para os tropicalistas, se bem que em 1977, Caetano Veloso, parceiro de Gil no exílio, mais realista, já dizia que “cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”.
Voltando para a música “Realce”, Gilberto Gil quando entrevistado sobre o porquê dessa música, saiu-se com esta:
“Realce é de uma época em que eu me introduzira no campo da meditação, entendida como uma arte mais formal e rigorosa de pensar-se e refletir-se, e estava interessado em possíveis traduções da filosofia oriental para o idioma da canção, tendo resultado num dos concentrados das meditações que eu então fazia e sido resultado de um processo profundo e ruminante, um longo trabalho de elaboração e meditação, sendo ela mesma uma canção sobre o “wu wei”, termo chinês que significa “ação da não-ação”, ou, a impotência que se torna potência, ou, o esgotamento dos contrários nas suas polaridades (um pólo se esgota e inicia o que está contido no seu oposto) etc. É nesse sentido uma canção ambiciosa e carregada de significados embutidos que vão sendo descobertos, como, na cebola, as camadas por debaixo das camadas”.
Puxa, assim não há cuca que aguente! Gil tem curso superior, é de uma inteligência suprema, é considerado um homem esotérico cultíssimo, mas juro que eu não entendi o teor desta sua declaração. Ele conseguiu dar um nó nos meus três neurônios. Já cantava Gordurinha na década de cinquenta que “baiano burro nasce morto”, mas eu não sou baiano, apenas admiro a Bahia.
Três anos depois, em 1982, há exatos 30 anos, Gil gravou "Drão" e, musicalmente, se redimiu para muitos porque a música tem uma letra belíssima. Mas quem danado era Drão? Apelido de alguma amante bem rústica? Um sapatão? A própria letra da música me foi dando algumas respostas:
"Drão,
o amor da gente é como um grão,
uma semente de ilusão,
tem que morrer pra germinar,
plantar nalgum lugar,
ressuscitar no chão
nossa semeadura!
Quem poderá fazer
aquele amor morrer?
Nossa caminha dura!
Dura caminhada
pela estrada escura.
Drão,
não pense na separação,
não despedace o coração,
o verdadeiro amor é vão,
estende-se, infinito,
imenso monolito,
nossa arquitetura.
Quem poderá fazer
aquele amor morrer?
Nossa caminha dura!
Cama de tatame
pela vida afora...
Drão,
os meninos são todos sãos,
os pecados são todos meus,
Deus sabe a minha confissão,
não há o que perdoar
por isso mesmo é que há
de haver mais compaixão!
Quem poderá fazer
aquele amor morrer,
se o amor é como um grão:
morre, nasce trigo,
vive, e morre pão!
Drão".
Fui guardando as interrogações na cabeça até que há uns cinco anos fui pesquisar para esclarecer a mim mesmo a real motivação dessa música. O resultado dessa pesquisa foi surpreendente.
Na verdade, "Drão" é uma história de amor, ou melhor, de uma separação. Contando-a, eu me transformo, sem querer, em advogado do nosso ex-ministro da Cultura, para lhe salvar da burrice de gente como a minha pessoa que não entende, às vezes, um poeta tão profundo, capaz de compor “Se Eu Quiser Falar Com Deus” (Luar - 1981), a qual Elis Regina interpretou como se fosse uma evangélica norte-americana! Ou então, o “Testamento do Padre Cícero”, uma joia rara que poucos conhecem.
Vamos aos fatos. A terceira mulher de Gil se chamava Sandra, apelidada desde menina de Sandrão, depois Drão. O porquê do apelido eu não sei. Será que ela era grande e gorda? O que sei é que os dois foram casados por 17 anos e tiveram três filhos: Pedro (músico, morto em acidente), Maria e Preta, a famosa Preta Gil, a menina que se anima movida por qualquer combustível. Hoje, aos 57 anos, Sandra mora no Rio de Janeiro e ainda se lembra com carinho da canção que marcou o fim do seu casamento.
Ela costuma ouvir diariamente a "sua" música no rádio do carro. É que uma emissora carioca parece estar programada para tocá-la todos os dias, às 11h. A ouvinte especial está sempre sintonizada. Eu falei em surpreendente porque no disco de 1981, Gil fez uma música chamada Flora que é o nome da sua atual mulher e que já naquela época era a sua musa, mas no disco de 1982, parece que ele teve uma recaída e ofereceu essa música (Drão) pra ex-amada. Sei não, mas tem mulher que é cega...
Foi Drão quem falou:
- "Nos separamos de comum acordo. O amor tinha se transformado em outra coisa. E a música fala exatamente dessa mudança, de um tipo de amor que vive, morre e renasce de outra maneira. Nosso amor nunca morreu, até hoje somos muito amigos. Com o passar do tempo a música foi me emocionando mais, fui refletindo sobre a letra. A poesia é um deslumbre, está ali nossa história, a cama de tatame, que adorávamos. No começo do casamento moramos um tempo com Dedé e Caetano, em Salvador, e dormíamos em tatame. Durante o exílio, em Londres, tivemos de dormir em cama normal. Mas, no Brasil, só tirei o tatame quando engravidei da Preta e o médico me proibiu, pela dificuldade em me levantar. A primeira vez em que ouvi Drão depois que Pedro, nosso filho, morreu (num acidente de carro em 1990, aos 19 anos) foi quando me emocionei mais. Com a morte dele a música passou a me tocar profundamente, acho que por causa da parte "os meninos são todos sãos". Mas é uma música que ficou sendo de todos, mexe com todo mundo. Soube que a Preta, nossa filha, chora muito quando ouve Drão. Eu não sabia disso, e percebi que a separação deve ter sido marcante para meus filhos também. As pessoas me dizem que é a melhor música do Gil".
Então, meus três ou quatro leitores, é isso aí. Dizem que Dominguinhos e Anastácia também fizeram "Sanfona Sentida" quando o romance deles chegou ao fim. A confirmar.
Para mim, os 10 melhores discos da carreira do grande astro Gilberto Gil são estes:
Louvação, de 1967
Gilberto Gil, de 1969
Expresso 2222, de 1972
Refazenda, de 1975
Realce, de 1979
Um Banda Um, de 1982
Raça Humana, de 1984
O Eterno Deus Um Dança, de 1989
Parabolicamará, de 1992
As Canções de “Eu, Tu, Eles”, de 2000.
Finalizando, para todos nós fica o exemplo dos poetas e músicos: quando o amor acaba, nada de brigas e nem de baixarias. Eles fazem uma música ou uma poesia, porque com toda certeza sabem amar mais e melhor do que nós outros, os despossuídos de tais talentos! Por hoje, fiquem com "Drão", pois “essa é pra tocar no rádio” do YouTube. Viva os 70 anos do grande mestre Gilberto Gil, o homem que compôs com muita ironia “A Mão da Limpeza” que aqui neste vídeo a canta junto com Chico Buarque. Ele foi também o nosso melhor ministro da Cultura!
Drão: um pouco da vida de Gilberto Gil contada em uma música. Homenagem aos seus 70 anos de vida!
Quanto ao título do disco de 1989, leia-se "O Eterno Deus Mu Dança".
Abílio Neto · Recife, PE 19/8/2012 21:51
Bela história Abílio Neto! Mais uma vez você sendo a nossa rica fonte de aprendizado e informação.
"O amor é o maior dos dons" - Tanto que quando acaba... Mas o amor nunca acabará! Ficam-se as marcas, os furtos das sementes germinadas, as ilusões, as lembranças... Sandrão marcou legal a vida do Gilberto Gil. Bravo mestre!
Na época do lançamento de Drão, tocávamos a música todos os finais de semana em um Barzinho com a Banda Som e Art com: Jura Figueiredo, Laércio Costa, Edilton Barbosa, Carlos Cruz, Valentin e Dadá Malheiros. Bons tempos. Obrigado pela recordação. (Dadá Malheiros) seu admirador e fã.
Obrigado, querido mestre Dadá Malheiros. Abração!
Abílio Neto · Recife, PE 20/8/2012 08:32Caro Abílio, acho que cheguei a comentar a história dessa canção há algum tempo no Musicaria. O engraçado dessa canção é que há detalhes da intimidade do casal como por exemplo, a cama de tatame. De fato existia um tatame nas dependências da casa onde, vez por outra, eles prevaricavam.
Bruno Negromonte · Olinda, PE 20/8/2012 18:54Para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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