Puxei a cortina para o lado procurando buscar algo lá fora. A chuva caia ruidosamente sobre as pedras antigas da rua, a enxurrada quase tomava toda a calçada. Havia um silêncio intrigante no ar, misto de indagações e confusões arroladas da mente. Onde estavam os gatos, os cães, os carros que passavam sempre acelerados? Perscrutei atenciosamente e nada encontrei. Pus-me então a analisar a volta. Abri um pouco mais a vidraça e caminhei meu olhar até a rua lateral. Corri meus olhos mais ou menos trezentos metros acima, até a porta de uma empresa de peças automotivas. A claridade da noite iluminava a caçamba de lixo urbano, meus olhos se depararam com algo parecendo ser o tronco de uma grande múmia que emergia do lado de fora. Senti um calafrio na espinha e quando elevei meus olhos um pouco mais acima da caçamba, notei que escondido atrás desta, estava um homem barbudo, desgrenhado, cabeludo e seminu, apenas vestido com um velho terno preto amarrotado. Descobriu-me olhando curiosa e encarou-me desafiador. A iluminação rota da estreita rua não permitia que tivesse uma visão clara dos acontecimentos. A chuva aumentara e caia pesadamente no solo. O vento forte sacudia as lagrimas dos anjos, caídas do céu. O frio aumentara consideravelmente, ajeitei minha blusa, encolhendo-me toda e procurando-me aquecer um pouco. Dei uma olhadela para dentro da sala escura, o ressonar da cadela soava alto. Busquei o celular no bolso para ver as horas. Exatamente meia noite! Horário dos mistérios, das aberturas no túnel do tempo, das linhas cruzadas, dos gatos pretos, dos choros, das tristezas e desamparos. Uma neblina densa pairou no ar, enquanto a chuva foi se acalmando devagar. Atentei minha curiosidade novamente para a rua lateral. O mesmo homem barbudo lá estava. Logo abaixo um tronco todo enrolado com ataduras encosta-se a caçamba de lixo. Comecei a imaginar o que poderia ter acontecido. Aquele homem nefasto teria matado e trucidado alguém?Provavelmente se livrara de alguns membros do corpo e sem saber o que fazer com o tronco, enrolara em um lençol. Mas porque continuava ali, semi escondido e me encarando tão desafiadoramente? Não! Decididamente não seria uma testemunha de tamanha brutalidade! Precisava me esconder, sair do foco da cena. Puxei estouvadamente a cortina, sentei junto à cadela e fiquei em silêncio por um quarto de hora. Agora a chuva caia mansamente, o vento acalmara. Senti uma lufada do vento que invadira a sala, levantei-me do transe macabro e dirigi-me ao quarto para dormir. Não deveria mais pensar neste episódio, amanhã seria outro dia.
O sol despontou radiante, a chuva lavara todas as preocupações e incertezas. A cadela fazia festa, pulando e latindo. Os pássaros cantavam alegremente. Pulei imediatamente da cama, ao lembrar-se da noite anterior. Corri até a sala, escancarei as cortinas, abri a vidraça num ímpeto de ansiedade e procurei a caçamba de lixo que me assustara. Não pude deixar de soltar uma sonora gargalhada, que ecoou até do lado de fora, ao notar que em cima da dita lixeira, tinha um grande saco de lixo preto que ,ao clima da chuva e da pouca iluminação me iludira, trazendo-me a visão de um homem barbudo macabro. E a múmia? Era a logomarca da prefeitura, pintada em branco do lado de fora da caçamba de lixo. Ironia do destino mesclada com muita imaginação fértil.
Sorri aliviada!
As buzinas dos carros cortaram o silêncio, e o peixeiro e o pamonheiro anunciavam seus produtos aos quatro ventos.
Exatamente meia noite! Horário dos mistérios, das aberturas no túnel do tempo, das linhas cruzadas, dos gatos pretos, dos choros, das tristezas e desamparos...
Fascinante este texto. Muito bem escrita a prosa, de imaginação que te transporta pra dentro da "ilusão" que a mente os olhos nos prega na alma. Ao ler este texto fui levado direto ao encontro de Edgar Allan Poe... repito prosa muito bem elaborada, de uma sensibilidade tocante. Abraços do Amigo David Beat.
David Beat · Duque de Caxias, RJ 4/5/2012 10:16Uma vertente interessante, que se encaixa bem diante do que te propões! Parabéns.
Erode Lino Leite · Campo Grande, MS 4/5/2012 10:28Parabéns! belo texto, isso serve pra não julgarmos, pois o medo nos prega peças, bjus bjus.
elindsant · São Paulo, SP 4/5/2012 14:54
Quantas vezes me assustei com o mancebo no canto do quarto. Eu sou grato pelas ilusões.
Parabéns!!
Marisa,
Valeu!! texto e argumento interessantes. Impossivel não lembrar dessa música, aqui
De ilusão também se vive ( e talvez também se 'morra' um pouquinho... ) muito provavelmente vc envelheceu alguns anos nessa noite !
Excelente texto, muito bem sacado !
Um beijo !
É... esse é um horário mágico. Próprio para os feiticeiros, os fantasmas, as bruxas, os seres das trevas... e os poetas.
jailton · Mesquita, RJ 6/5/2012 02:46
Uau. Pensei que a múmia estava de volta.
Legal.
Parabéns
Gteixeira
Oi, Marisa, bom dia!
"Ilusionismo" é o texto através do qual estou sendo apresentado a você e este primeiro contato me impressionou. Um belíssimo texto, de frases curtas e bem amarradas, dando ao enredo uma fluência muito interessante. E a história é boa, é cativante, é fluida, demonstrando que seu criador (criadora, neste caso) sabe exatamente o que faz. Parabéns, querida.
Ufa!!! Depois da tempestade...
Parabéns Marisa pelo belo e criativo texto.
Voce é excelente contista e escritora, parabéns.
kfarias · Águas de Lindóia, SP 7/5/2012 04:30
Marisa,vou falar do seu belo texto apenas como ele a mim se apresentou.Nossa! lembrei dos meusbons tempos onde me perdia na leitura em busca de mistérios.Sua forma de escrever me devolveu a certeza de que ainda existem escritores de verdade.
Obrigada por dividir conosco seus overmanos.
Parabéns escritora pela bela obra. Mais que bela nos faz (ou me fez) viajar. Lindo! Beijo no beijo.
Ilia Noronha Poesia · Manaus, AM 8/5/2012 08:03
http://overmundo.com.br/banco/futuro-em-branco
Talvez agrade aos amigos. =)
Mas afinal o que é que é Real e o que deixa de ser Real?
Voltando. Saúde e Paz.
Parabéns belo texto! Sucesso e Paz! ;) Curti!! rsrs
Léia Alves Moreira Pierucci · Diamantina, MG 28/5/2012 17:07
Parabéns pela composição!
"ILUSIONISMO" transcende linha tênue da realidade... vai muito além...
At + 1 abrç overmano.
ilusionismos
é um dos ismos
ilusionismos
consumismos
é um dos ismos
inconsumismos
Marisa, leio-te pela primeira vez, que prosa envolvente e bem elaborada.Uma excelente dose de imaginação fértil é capaz de levar o poeta à extremos.
Adorei... votei! Bjs!
Parece mentira, mas uma situação dessas pode levar uma pessoa a morte , se ela sofre do coração; pode acontecer uma parada cardíaca em meio a uma taquicardía. Parabéns, gostei muito. Um texto bem escrito e muito realista, pois situações como essa costuma acontecer com pessoas que temem as coisas do além...
Votado
Beijos
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