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LUIZ GONZAGA É CEM: O ANÃO XAXADO E A TURNÊ DE 53

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Abílio Neto · Abreu e Lima, PE
16/5/2012 · 16 · 14
 

Corria o ano de 1953 e já como Rei do Baião, Luiz Gonzaga fazia um sucesso danado. Teve que provocar uma alteração no seu conjunto pé-de-serra, uma vez que seu sanfoneiro Catamilho só vivia bêbado. Luiz gostava de cerveja, de uísque, de um bom vinho, mas bebia com moderação. Era patrocinado por toda espécie de cachaça, porém detestava gente bêbada. Quem sabe, a perda do irmão mais velho, o Joca, falecido em 1947, vítima de cirrose, tenha provocado essa reação, pois Gonzaga fez de tudo, mas não conseguiu afastá-lo do vício.

Em 1952, numa turnê pelo sertão baiano, Gonzaga conheceu o anão Osvaldo Nunes Pereira e naquela ocasião já pensava em colocá-lo no seu conjunto como tocador de triângulo porque entendia que o fato seria uma coisa inusitada. Mandou o anão ir ensaiando. Um ano depois, a família de Osvaldo havia mudado pra Xonin (nome indígena), distrito de Governador Valadares, em Minas Gerais, mas o motorista de seu Luiz achou o anão, que foi incorporado à comitiva do cantor. A turnê prosseguiu, mas chegando em Itabuna, a capital do cacau, no sul da Bahia, durante um show, Catamilho estava tão bêbado que caiu no palco com zabumba e tudo. Gonzaga, a princípio tentou enrolar o público dizendo que o zabumbeiro tinha ensaiado a queda, mas aí um baiano da plateia falou o seguinte: “oxente, esse cabra tá é bebum!” Como não pôde manter a mentira, Gonzaga ficou irado! O público, no entanto, riu às escâncaras.

Catamilho foi demitido sumariamente, porém o “triangueiro” Zequinha, em solidariedade ao amigo resolveu sair. Saíram os dois e pior pra Gonzaga que naquele momento havia ficado sem seus ritmistas, em que pese a agenda do sanfoneiro registrar compromissos para os dias seguintes, a começar por um em Santo Antonio de Jesus-BA. A turnê do Rei do Baião teve que ser interrompida até a formação de um novo trio. Foi quando Luiz se lembrou de um engraxate do sul do Piauí que chamava a atenção dos fregueses porque fazia malabarismo e percussão com as escovas. Mandou sem demora seu motorista para lá a fim de apanhar o engraxate Juraci Miranda. Motorista de Luiz Gonzaga sofria muito, mas trabalhava contente porque o homem além de ser bem humorado, era espirituoso, contava “causos” e tratava o empregado muito bem.

No Piauí, o engraxate, de imediato, topou a proposta de tocar com Gonzaga. Chegaram cansados da longa viagem, mas seguiram todos no mesmo dia pra Santo Antonio de Jesus com novo conjunto formado e um grande problema: o novo trio não havia ensaiado e, portanto, não poderia se apresentar sem o devido e mínimo ensaio.

Antes de chegarem em Santo Antonio de Jesus, fazia um calor danado no recôncavo baiano, mas seu Luiz sabia da existência de um riacho com cachoeira, às margens da estrada. Foi quando Gonzaga falou pro divulgador Romeu o seguinte: “olha, nós vamos parar na beira desse rio, tomar um banho de cachoeira e ensaiar debaixo daquele pé de pau, pois eu tenho que treinar o conjunto. Você segue com o motorista pra cidade a fim de anunciar o show. Quanto estiver tudo pronto, volte pra apanhar a gente”.

O banho segundo Gonzaga serviria pro ensaio do grupo mas também pra tirar a inhaca do anão que, no carro, já vinha com um “cheiro danado de ruim”. Gonzaga era exímio ritmista de zabumba e triângulo e queria que os dois novos ritmistas tocassem do seu gosto e, além disso, que também dançassem o xaxado (segundo Dominguinhos, Gonzaga foi o maior dançador de xaxado que ele viu). Bem, então, todos tiraram a roupa e ensaiaram por quase três horas. Ensaiavam, tomavam banho, ensaiavam e novamente tomavam banho! Palavras de seu Luiz:

“O ensaio foi com todo mundo pelado. Expliquei que Juraci ficava com o zabumba e Osvaldo com o triângulo, e ensinei o ritmo a eles: ‘Olha, vocês vão andando, andando, andando até cansar, mas vão fazendo o passo certo no ritmo. Depois com os instrumentos, andando, andando, andando e tocando, no passo certo do ritmo’.

Em 1952, Gonzaga havia se afastado de Zé Dantas em função de problemas havidos com a parceria entre os dois e Humberto Teixeira tinha se tornado deputado federal, de maneira que Luiz teve de recorrer ao maestro Hervé Cordovil que trabalhava em São Paulo para colocar letra em algumas de suas melodias: “Xaxado”, “Baião da Garoa” e o grande sucesso “A Vida do Viajante”. A primeira e a terceira faziam parte do roteiro musical apresentado naquela excursão e “A Vida do Viajante” ficou famosa justamente a partir daquela turnê, mas outro xaxado também, além de “Xaxado”, ganhou fama naqueles meses de viagens.

Voltando ao banho de cachoeira, os três esqueceram somente de um simples detalhe e assim cometeram uma falha imperdoável perante os costumes dos habitantes daquelas bandas: quem vai tomar banho de cachoeira e se o banheiro é público, na cerca de palha seca que protege a cascata contra os espiões, o sujeito tem que colocar a roupa estendida com metade pro lado de fora, que é justamente pra dar a entender que o local está ocupado.

Nisso entra no enredo uma cabocla baiana do recôncavo que foi se aproximando da cachoeira também pra tomar seu banho, ao mesmo tempo em que ia escutando o som já harmonioso de um trio composto por sanfona, zabumba e triângulo. Imaginou que estivesse havendo uma festa no local e foi pra lá espiar. Mulher é um bicho danado de curioso! Foi se chegando, se chegando, e por entre as palhas, de cócoras, resolveu dar uma “brechada”.

Para seu grande espanto viu três homens nus tocando seus instrumentos e dançando ao mesmo tempo! Mas quando ela olhou pro anão, quase caiu sentada: o anão tinha uma rola tão avantajada que o fazia se assemelhar a um jumento nordestino e, dançando, parecia que tinha uma cobra balançando entre as pernas, presa por uma das extremidades, mas querendo se soltar!

Mulher nordestina daquele tempo era criada pra ver só um homem nu em toda sua vida, justamente pra evitar certo tipo de desejo, pois cabôca nordestina é mulé de um homem só. Assustada, deu um grito tão danado que interrompeu o ensaio e desembestou feito uma égua com sede pelo sertão afora, gritando pelos santos protetores dos baianos: “valei-me meu São Bom Jesus da Lapa, ajudai-me meu Senhor do Bonfim, socorrei-me meu Santo Antônio de Jesus, livrai-me dessa visão do inferno!”, passando como uma bala pelo espantado motorista de Luiz Gonzaga que tinha vindo buscar o trio naquele exato momento.

Na noite de 23 de outubro de 1953, em Santo Antônio de Jesus/BA, Gonzaga estreou o novo conjunto com seus integrantes devidamente batizados: Cacau na zabumba, e no triângulo, o anão Xaxado. Um ano depois Gonzaga mudou o nome do anão pra Salário Mínimo. Numa excursão à região Norte, um recepcionista de um hotel disse que aquele músico era tão pequeno que mais parecia com o salário-mínimo do estado do Maranhão (naquela época o salário mínimo era diferenciado por região). Foi sem dúvida o mais carismático ritmista de Luiz Gonzaga. Deixou de trabalhar com ele porque também se danou a beber. Muito tempo depois, Salário Mínimo voltou a usar o nome artístico que lhe deu o Rei do Baião, Xaxado, e a trabalhar com ele no Forró Asa Branca, na Ilha do Governador/RJ (1972/1975). Cacau, a partir de 1957, passou a trabalhar com Marinês e Abdias formando o conjunto “Marinês e Sua Gente”. Luiz Gonzaga, em entrevista 34 anos depois, confirmou que o anão tinha uma “pra ti vai” fora dos padrões: aproximadamente meio metro!!! E olhe que todos os homens da família de Januário tinham a fama de ter a penca grande.

Nessa turnê de 1953 em que apareceu esse anão roludo, Luiz Gonzaga cantava uma música que viria tornar-se um dos seus grandes e inesquecíveis sucessos: “A Vida do Viajante”, lançada em disco de 78 RPM em novembro/53, dele e Hervé Cordovil. E o xaxado que também apresentava pelo Brasil afora, era um dos mais significativos do seu repertório: “Vamos Xaxear”, de Luiz Gonzaga e Geraldo Nascimento, gravado em agosto de 1952.

Para ouvir “A Vida do Viajante” com um solo de sanfona irresistível do Rei do Baião, basta clicar aqui.

Para escutar “Vamos Xaxear”, um xaxado que em cuja gravação estão presentes todos os ingredientes que dão sabor a esse ritmo gostoso, é só clicar aqui.

Sobre a obra

Pedaços dessa história eu escutei pela primeira vez no começo da década de sessenta de um amigo caruaruense chamado Amaury Oliveira cujo pai foi motorista de caminhão na década de cinqüenta e conheceu pelas estradas do Nordeste o motorista de Luiz Gonzaga que a narrou. Foram fontes orais porque hoje pai e filho não mais pertencem ao mundo dos vivos. Fiquei muito contente quando no livro “A Saga de Luiz Gonzaga” eu encontrei 90% das informações que confirmam a existência dos fatos, embora contendo equívocos de tempo, distância e dados geográficos. Também não gostei da forma como Domenique Dreyfus contou a história. Pesquisei mais e agora a conto do meu jeito. Se alguém duvidar de mim, eu só inventei 1% da narrativa, uma vez que a baiana, a cena de espanto e as palavras ditas por ela, tudo isso foi criação minha com o fim de torná-la mais gostosa de se ler. Assim, trago aos leitores do Overmundo fatos reais e engraçados sobre a vida desse imenso artista que foi o nosso Luiz Gonzaga.

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Autoria
Abílio Neto - pesquisador musical
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Abílio Neto
 

No primeiro parágrafo existe um engano meu: Catamilho era zabumbeiro e não sanfoneiro. Peço desculpas, mas não vou retirar a matéria do ar para fazer a devida correção.

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 16/5/2012 06:29
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Jorge Macedo
 

O Mestre Abílio Neto é sempre insuperável em suas narrativas e pesquisas musicais. Desta vez ele foi brilhante. A sua revelação a respeito sobre os atributos físicos dos pertencentes a clã do velho Januário e da descrição do descomunal membro "prá mim não chega" do anão mestre no triângulo, batizado por Mestre Lua com o nome de salário mínimo, causa inveja em muitos homens e coloca "água na boca" de outros e/outras. Parabéns!!!

Jorge Macedo · Recife, PE 16/5/2012 07:06
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Quincas Macedo
 

Mestre Abílio faz a gente conhecer a história de "Lua", nos pormenores, como se estivesse lendo um romance. É literatura!!!!!!!!!!

Quincas Macedo · São Paulo, SP 16/5/2012 07:28
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Abílio Neto
 

Obrigado, caros amigos Jorge Macedo e Quincas Macedo. Valeu pelo incentivo! Agora que vai ter muito leitor com inveja desse anão, ah, isso vai!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 16/5/2012 08:07
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Dadá Malheiros
 

‎;Abílio Neto! Impressionante como você descreve os episódios vividos neste período pelo Rei do Baião. Mesmo à distância e sem saber se ainda vive, tenho medo desse ANÃO!

Dadá Malheiros · Paulista, PE 16/5/2012 10:26
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Abílio Neto
 

Ah, Dadá Malheiros, sem dúvidas! Um cabra com uma arma desse calibre faz medo mesmo. Risos!!!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 16/5/2012 10:54
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alcanu
 

Esse Anão não é um xaxado...
é um Inchado !
Um beijo !

alcanu · São Paulo, SP 17/5/2012 09:53
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Rodrigo Dias Pereira
 

Parabéns Mestre Abílio! Narrativa deliciosa, no ritmo do humor e do baião. Quando virará livro?

Rodrigo Dias Pereira · Florianópolis, SC 1/6/2012 03:55
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Zezito de Oliveira
 

Abilio e demais colegas,

Parabéns pelo texto e que venham outros sobre a vida e a obra do inesquecivel Gonzagão.
Uma boa pedida para quem puder se deslocar até Aracaju, nos dias 05 e 06 de junho. Está AQUI

Abraço a todos (as),

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 1/6/2012 05:20
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Abílio Neto
 

Quero agradecer a Alcanu, Rodrigo Dias Pereira e Zezito de Oliveira. Ainda hei de trazer outras histórias engraçadas de Luiz Gonzaga neste ano do seu centenário. Valeu!

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 1/6/2012 11:07
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Kixaba
 

Muito bom o artigo. Essas passagens da vida do Mestre Lua ajudam-nos a melhor entender o Reino Maravilhoso do Baião.

Kixaba · Recife, PE 2/6/2012 13:50
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Abílio Neto
 

Uma das boas coisas que a internet criou foi a possibilidade de postagem de músicas para realçar artigos, crônicas, divulgações etc. Se eu não tivesse condições de divulgar um arquivo musical sobre aquilo que escrevo, eu já teria desistido de fazer isso há muito tempo. Eu alcancei uma nova ERA (a da informática) e sou grato a ela pelas ferramentas que me disponibilizou. Mas hoje eu recebi um verdadeiro PÉ NA BUNDA do hospedeiro de música 4shared. Ele suspeita que eu faça pirataria de música quando o que eu faço é DIVULGAÇÃO. A denúncia partiu de alguém que defende os direitos autorais de ELBA RAMALHO. Vejam os termos devidamente traduzidos:

“Nós recebemos uma notificação de que certos materiais que você postou no site 4Shared, conforme descrito abaixo infringem direitos autorais de alguém:

Elba Ramalho - No Som da Sanfona.htm

O acesso a este material foi temporariamente desativado e o material será removido. Esta é a terceira instância de reclamação por violação de direitos autorais associado à sua conta 4shared. De acordo com os Termos de Uso 4shared, sua conta está agora TERMINADA. Você está permanentemente proibido de utilizar os serviços do 4shared. Você não será capaz de abrir uma nova conta 4shared, se você tentar registrar com o mesmo nome ou endereço de email ou de um endereço IP associado com a conta cancelada. 4shared também vai proibir o registro de uma nova conta, se tiver suspeitas fundadas de que a pessoa tentando se registrar é você.”

Beleza, isso. Um incentivo da porra para mim! Escrevi um artigo sobre Elba Ramalho no Overmundo em 07/10/2011 falando sobre a carreira dela e felicitando-a pelos seus 60 anos de idade. A música que coloquei para realçar o artigo foi a última composição de Jackson do Pandeiro (parceria com Kaká do Asfalto). Veja bem, a gravação foi digitalizada por mim. Eu divulguei apenas uma música de um LP que me pertence. O LP que trouxe a música NO SOM DA SANFONA foi remasterizado, mas foi esgotado rapidamente.

Até a sua retirada do ar, a postagem dessa música contava com mais de 2.300 visualizações.

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 2/6/2012 14:27
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Andre Pessego
 

Fico-lhe, Abílio, agradecido. Tomei o seu texto como o um presente, não diria uma achado, embora quase o tenha sido, por pura admiração que tenho pelo seu conhecido e reconhecido trabalho....... abraços
andre

Andre Pessego · São Paulo, SP 3/6/2012 03:58
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Abílio Neto
 

Grato, prezado André Pessego. Fico feliz quando alguém gosta do que eu publico. Meus agradecimentos também ao Kixaba.

Abílio Neto · Abreu e Lima, PE 3/6/2012 15:15
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