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MEU FILHO ESTÁ USANDO DROGAS

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Veet · São Paulo, SP
2/5/2010 · 6 · 3
 

-Meu filho está usando drogas. Preciso da sua ajuda. Não sei o que fazer.
No CAPS, pais e mães nos procuram chorosos, assustados e carentes, solicitando nosso apoio e uma solução.
Na prática do cotidiano, acabei me especializando no atendimento a jovens.
Jovens frutos de famílias como a minha, como a sua.
Poderiam ser meus filhos, seu sobrinho, meu vizinho, meu irmão.
Jovens com histórias, muitas histórias, alguns já com um passado pesado, alguns com crimes, chegam algemados e só são soltos para ficar conosco.
Alguns jovens já chegam com o olhar morto. Apagado. Sem esperança. Sem vontade.
Comparecem apenas porque são obrigados pelos juízes e para que possam ser soltos com mais rapidez.
Eu tenho trabalhado ao lado de grandes profissionais, psicólogos, educadores, médicos de todas as formações e grandes psiquiatras.
Nossa equipe é composta por profissionais experientes e com rica formação.
E se você me perguntar se nós temos sucesso no nosso trabalho, eu ainda não sei te responder.
São poucos os jovens que ficam abstinentes e não recaem mais no uso da droga.
E isso me faz pensar, repensar, como vou fazer pra mostrar pra esse jovem que algo tão gostoso e de efeito tão imediato, não vale a pena ser usado?
O jovem quer colorido.
Ele quer todas as cores ao mesmo tempo.
Ele quer o inusitado.
O jovem quer todos os sabores.
Quer alegria sempre. Muitas risadas.
Ele não tem tolerância.
Ele não quer tristeza.
Nem monotonia.
Ele quer prazer seguro e imediato.
Tudo imediato.
E ele não se importa com a morte.
Peço inspiração ao Divino para escrever este texto.
Em alguns momentos, cercada pela tristeza e o desencanto, também busco e não encontro a luz no túnel.
Queria poder ajudar os pais que me procuram e dar soluções prontinhas para que nossos filhos parassem de usar drogas.
Mas infelizmente, não tenho receitas.
Cada caso sempre se mostra como único.
E o que serviu para Raul, não serviu para Maria.
Pedro foi internado e nunca mais voltou a usar.
Rosana parou de usar indo todo dia fazer terapia e participar de oficinas.
Mas Santiago aprendeu a usar outras drogas lá onde ficou internado.
E Júlia começou a traficar dentro do presídio.
Luís chegou pra mim um dia e falou que tinha simplesmente parado porque começou a namorar e a namorada o ajudou.
Antonio ficou sem beber um ano e recaiu agora porque sua mãe morreu.
Vanderlei nunca mais usou desde que sua mãe morreu.
Luís trabalha o dia inteiro, mas toda noite bebe até cair.
Carmem só parou de fumar quando recebeu o diagnóstico de câncer nos pulmões.
Jorge só usa droga no final de semana. E passa a semana inteira contando os minutos pra mais um fim-de-semana.
Cristina vende o corpo pra poder comprar droga.
Laurinha diz que agora vai ter um bebê e não vai mais usar droga. Ela tem treze anos.
Marli ficou sem usar nenhuma droga nos cinco meses de tratamento, enquanto estava protegida pela instituição e vinha para o CAPS diariamente. Assim que teve a liberdade, voltou imediatamente para a turma e para o crack.
Marluce só usa ecstasy quando vai nas raves com a turma: - Só eu não vou usar?
Lino só fuma maconha pra dar risada e falar muita besteira com os amigos e depois comer muito. Agora se sente muito traumatizado porque está muito gordo.
Sara adora beber porque diz que quando bebe consegue mais namorados.
Hugo disse que se não tomar uma bala, não consegue curtir a música.
Já o Fabrício afirma que tudo o que toca e escreve, vem da criatividade que a droga desperta nele: - A droga abre um portal em mim!
Lurdinha diz que é muito nervosa e que a maconha a acalma e a deixa ficar “sussa”.
Ao longo dessa minha experiência, vou colhendo depoimentos de vida, prazer e morte.
Algumas palavras vão marcando minha vivência: tédio, solidão, monotonia, brisa, falta de motivação, fracasso, sucesso, prazer, alegria, relacionamento, dor, amor.
Como descobrir saídas inovadoras e únicas?
Que porta abrir? Qual fechar?
Algum discurso poderá ajudar? Qual poderá soar menos conservador, menos careta?
Qual remédio poderá me auxiliar?
Onde conseguirei buscar ajuda pra que essa família desate o nó da relação?
Todo tratamento precisa ser único.
Aprendemos sim com a experiência e precisamos enxergar aquele jovem como uma nova semente. Única! Com todas as possibilidades que já conhecemos envolvidas e mais todo o mistério da vida. A vida é sempre um mistério único..
Cada semente se desenvolverá de um jeito. Mesmo sob as mesmas condições.
Precisamos descobrir novas formas de cultivo.
Não adianta você, pai ou mãe, querer promover para seu filho aquilo que seu vizinho promoveu e deu certo. Ou aquilo que viu na TV. Ou aquilo que leu no livro.
Toda experiência que acumulou, lhe servirá como base.
Mas você precisa fortalecer seu coração. E sua coragem.
Porque seu filho poderá cair e recair muitas vezes.
E você não poderá recuar e perder a vontade.
Os adultos precisam continuar e perseverar na busca de caminhos inovadores para apoiar o jovem que está tão envolvido pela mentira do prazer ilusório que a droga oferece.
Precisamos investigar.
Ir fundo no problema.
Entender como começou.
Que portas e janelas foram abertas?
Quais as carências que a droga está encobrindo?
Que tristezas estão encobertas? Quais traumas? Por que meu filho está tão desmotivado? Por que ele sente tanto medo de enfrentar um compromisso? Por que ele está tão preguiçoso? Por que ele está tão agitado? Por que ele se refugia no silêncio toda vez que eu quero conversar? Por que eu quero conversar apenas quando ele está em silêncio? Quando foi que meu diálogo aberto e sincero com meu filho acabou? Quando foi que eu deixei de enxergar a realidade e passei a disfarçar, porque não tinha tempo para atuar?
Precisamos encarar a nossa família sem medo.
Enfrentar uma análise profunda.
Deixar sangrar a ferida. Expor a ferida. Sentir a dor.
Descobrir aonde faltou o pilar, onde exageramos, onde nos omitimos.
Onde não colocamos os limites?
Onde coibimos a criatividade? Onde usurpamos a liberdade do nosso filho? Quando os manipulamos cruelmente com os títeres invisíveis escondidos na afirmação “sou seu pai, sou sua mãe e sei o que é melhor pra você”?
Precisamos olhar o passado. Apenas para entender.
Nada de querer buscar culpados.
Vamos deixar de lado essa nossa necessidade de emitir sempre um julgamento sobre certo e errado e quem errou mais ou menos.
Muitos pais apenas se enchem de culpa e passam a mimar seus filhos mais ainda e, portanto, errar ainda mais.
Para lidar com um problema tão complexo como a droga, precisamos maturidade. Precisamos desenvolver a paciência. A sabedoria. A persistência. Ter foco.Muita compreensão. E muita, muita, muita amorosidade.
Precisamos nos colocar no lugar do outro e entender o seu prazer.
Precisamos entender. E entender não é julgar.
O prazer do seu filho pode ser diferente do seu.
Cansei de ouvir jovens que dão muita risada de suas mães que os criticam por usar maconha, mas que fazem dietas intermináveis usando anfetaminas, engordando e emagrecendo a vida inteira, num efeito sanfona interminável.
Jovens que não entendem como seus pais, compulsivos sexuais, podem lhes dar lição de moral só porque estão cheirando uma carreirinha.
- Meu pai enganou a minha mãe a vida inteira. Ele mente que está trabalhando e está trepando com todas as mulheres que conhece.
- Minha mãe vai ela mesma comprar a erva pra mim. Porque ela diz que está me protegendo. Assim pelo menos eu fumo em casa.
-Minha mãe nunca teve muito tempo pra mim. Ela trabalha muito.
-Eu cuido do meu irmão mais novo pra minha mãe trabalhar. Meu irmão me dá muito trabalho. Tenho que fumar pra poder agüentar aquele choro.
- Meu pai gosta mais do meu irmão. Ele nunca teve muita paciência comigo mesmo. Comigo ele só grita.
-Eu estou estudando o que meu pai quis. Mas eu não quero ser que nem ele não.
-Minha mãe é muito frustrada. Não dá certo com ninguém.Quem é ela pra me criticar?
-Meu pai me apresentou a droga. Ele sempre fumou comigo. Ele diz que assim não faz mal.
-Minha mãe fumou cigarro a vida inteira. E meu pai bebe. Não vejo diferença entre as drogas que eles usam e a minha.
- Eu fumo porque eu gosto da brisa. Minha vida é mesmo um tédio.
- Minha mãe é muito careta. Ela pega muito no meu pé. Agora ela quer que eu arrume a casa e lave minhas cuecas! Mas eu não me importo em usar tudo sujo mesmo. Lavar pra que?
-Não dá pra ir numa festa e não usar nada. Não tem graça! Todo mundo usa e você vai ficar fora? Sem turma?
-Eu descobri o crack dançando na matinée do domingo.Agora não consigo mais parar. Esses são apenas alguns desabafos, algumas afirmações.
Jovens que desabafam conosco suas interrogações perante a vida e sua confusão pelas ações dúbias dos adultos à sua volta.
Precisamos nos conscientizar que mesmo sem querer, nós, os chamados adultos, somos sim ainda os exemplos dos mais jovens.
Se o mundo está em crise, se as bombas explodem no exterior e no interior de cada um de nós diariamente, como minimizar esse efeito maligno de destruição no interior confuso e tão tenro, desse nosso jovem em formação?
Precisamos fazer um exercício e abolir o julgamento, abolir o pré-conceito.
Você é você. Você não é o seu filho. Não queira fazer do seu filho um mini-você.
Comece o tratamento de seu filho, iniciando o seu próprio tratamento.
Nossos filhos são seres totalmente plenos e únicos. Assim como nós o somos.
E o que é que nós já sabemos sobre a excelência da nossa individualidade?
Estamos nos sentindo felizes? Realizados? Seguros? Serenos? Conscientes? Equilibrados?
O que estamos fazendo por nós mesmos?
A escolha dos nossos filhos é a escolha deles. Não a nossa.
Comecemos o tratamento do nosso filho, procurando o melhor tratamento pra nós mesmos!
Não vamos conversar com nossos filhos, mostrando nossos dogmas, nossos valores, nossas marcas adquiridas pela vida. Nossas fórmulas, nossas conquistas e nossos medos!
Vamos conversar com nossos filhos pra conhecer os valores deles. Os desejos e aspirações deles.
Vamos nos abrir para o diálogo.
Vamos ouvir!
Ouvir não é julgar.
Vamos compreender.
Não vamos excluir.
Vamos abrir as portas.
Vamos abrir as possibilidades.
Vamos pensar juntos.
A vontade de compreender autêntica, a aceitação natural do fato tal como ele é, sem aumentar, sem diminuir, sem vaticinar um fim horrível e fatal, já abre uma ponte de diálogo muito franco entre o adulto e o jovem.
De todos os tratamentos que acompanhei e promovi, todos os que deram mais certo foram os que envolveram o tratamento no CAPS, a ajuda psiquiátrica mais o carinho, a atenção, a dedicação total de toda a equipe junto com a família.
Um tratamento não acontece apenas no ambulatório.
Nem apenas na família.
Precisamos aliar a decisão de parar com o uso da droga ao tratamento no ambulatório e o tratamento da família.
Para tratar o jovem, tratamos a família inteira.
Se você é jovem e está lendo este texto, primeira coisa que você precisa aprender é que precisa de fato tomar uma decisão.
Você precisa fazer sua escolha.
Você. Só você! Você é dono da sua escolha. E será feliz ou sofrerá por causa dela.
Pesquise sobre a droga que você usa.
Pesquise fundo.
Veja o que ela faz no seu cérebro.
Veja o que ela faz com o seu corpo em geral.
Olhe a sua volta.
Aprenda com os exemplos ao seu redor.
Podemos sim aprender com o erro alheio.
A vida é curta. Não temos tempo pra errar tanto!
Você precisa tomar a decisão sobre a sua liberdade.
A escolha primeira é sempre sua.
Você quer a liberdade de poder escolher? De poder ir e vir? De poder se desenvolver e ser de fato tudo o que quiser ser?
Se você quer tudo isso, você está escolhendo a vida.
Porque a droga, de fato, é uma prisão.
Ela lhe prende com algemas douradas e invisíveis.
Ela lhe prende tão sutilmente que você por vezes não reconhece que está preso.
A droga lhe dá um prazer maravilhoso. Você fica feliz imediatamente. Mas ela lhe aprisiona em redes e laços tão sutis que nem você mesmo perceberá.
Você dirá que pode parar quando quiser.
Você dirá que tem o controle sobre o uso.
Você dirá que é melhor morrer assim feliz e curtindo, do que viver uma vida monótona e sem cor.
Mas se você decidir parar com a droga, você terá ainda muito tempo de descobrir a cor da vida. E fazer sim a diferença!
Não existe saída para quem quer se esconder no descaso da inconsciência.
Você precisa dar o primeiro passo.
Escolha: a vida ou a droga?
Bem, se sua resposta for a vida, começaremos aqui o nosso trabalho.
Procure uma equipe do CAPS.
Lá você abrirá a primeira porta.
Junto com você e a sua família, iremos descobrir outras portas. Outras saídas.
O mais importante agora é você entender, você pai, você filho:
- Sim! Você pode! Se quiser de fato, você pode deixar a droga!
E, se quiser, nós estaremos com você, parceiros nesse caminho.
Vamos nessa?
O QUE É O CAPS
http://portal.saude.gov.br/portal/saude/visualizar_texto.cfm?idtxt=29797&janela=1
http://www.sermelhor.com/artigo.php?artigo=28&secao=espaco
http://saudementales.files.wordpress.com/2007/06/caps.pdf

LISTA DOS CAPS NO ESTADO DE SÃO PAULO
http://portal.saude.sp.gov.br/resources/profissional/acesso_rapido/gtae/saude_mental/caps.pdf

Sobre a obra

Imagine você ter que sair correndo no meio da noite, pra ir buscar seu filho que desapareceu na rave.É muito sério. Teu coração dispara. Você fica frio e sente medo. A droga é um vilão que faz parte do nosso cotidiano. Precisamos ficar conscientes.É o mínimo. Meu texto´pode ser uma luz. Mas é também meu grito de socorro!

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informações

Autoria
Ana Veet Maya
Ficha técnica
Ana Veet Maya é arte-educadora e trabalha com oficinas terapêuticas no CAPS
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Doroni Hilgenberg
 

Nossa, que texto triste e reflexivo.
Tantos questionamentos...
lições, exemplos, cumplicidade, amor e companheirismo, ajudam nesta luta para salvar um ser humano. No entanto, o caminho é longo, dificil e tortuoso.
A droga mata e faz matar.
bjs

Doroni Hilgenberg · Manaus, AM 4/5/2010 19:41
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alcanu
 

Só mesmo quem tem filhos vai 'curtir' esse texto !
relê-lo tantas vezes quanto necessário e aprender que não há nada a ser apreendido ou aprendido...
Livre arbítrio implica nesse excesso, nessa overdose de liberdade que a gente dá e talvez nem teve, eu, careta há muitos anos, já experimentei maconha, cheirava benzina, minha experiência mais forte com drogas, babaquice de querer entrar pra uma turma que só aceitava aqueles que se drogavam... só que eu, careta era + louco do que eles chapados, vai entender...
tem gente que só fica louco com droga, ou pinga, ou whiskie, a loucura tá na gente, porra !
mas um dia a casa cai e um câncer ou outra parada mais amena, um acidente em decorrência de...
a perda de alguém bestamente numa overdose,
lembre-se, Veet, na vida o que a gente não aprende pelo Amor, aprende pela Dor ! e tá cheio de masoquistas em potencial por aí !
num adianta falar, sério, deixe que se fodam !
desculpa, mas a gente já tem a nossa vida pra se preocupar e não é nada fácil...
Orientar é uma coisa, fazer a cabeça, creia em mim, é impossível !
Faça o que pode !
Joana D'Arc já morreu !
Seja Veet !
Ame, dê exemplo !
quem quiser que siga a gente, caralho !
Sejamos caretas espertos !
Um beijo, careta !
Assinado, maluco careta !
Uêba !

alcanu · São Paulo, SP 8/5/2010 11:04
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Cláudia Campello
 

li com atençao e comovida o seu texto, Veet.
é como vc diz...
ja fiz inumeras materias a respeito e sempre fico
p da vida com o sistema, com a inercia e com a estupidez de pais e autoridades.
... parabens pelo seu trabalho.
é registrando e apontando caminhos q ajudamos nossos
jovens.

bjssssssss;

Cláudia Campello · Várzea Grande, MT 8/5/2010 21:03
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