Meu primeiro amor não tem nome. Apareceu da primeira vez numa manhã de sol de Terça-feira santa de expediente regular, caminhando apressadamente sob a marquise do meu terceiro andar. Não era ela quem andava tão lentamente, despejando suas pétalas pelo colorido mosaico do passeio público, mas tão somente o tempo que se agitava rápido demais sem notá-la. Minha amada primeira conseguia sorrir entre os paralelepípedos e os miseráveis como se a vida não fosse mais que brincadeira. Eu assistia aos passos lentos em desespero, aflito ao me entregar à vergonha de minha timidez. Não que eu seja tímido. Eu simplesmente não poderia jamais ferir a aquarela de beleza com meu existir soturno. Ela desapareceu na esquina entre os automóveis indiferentes e os olhares vulgares e meu mundo desapareceu ante meus olhos. E a tarde passou irremediavelmente lenta desde então.
Na manhã seguinte, ela apareceu com os cabelos soltos desenhando redemoinhos esperançosos em que as horas se perdiam. Eu estava na mesma marquise com o copo de café pela metade, aquecendo o nariz na fumaça do cigarro. Ela andava sorrindo, tão incrivelmente bela naquele dia tão inesperadamente sem graça. Foram poucos minutos e ela se foi.
Nas duas semanas seguintes ela não apareceu, e meu tempo não passou. Essas semanas não existiram, simplesmente.
Quando chegou a tarde de uma Quinta-feira sem paixão, eu, já esquecido do meu amor primeiro, bebi um trago seco de um vinho seco. Os bares se abriam implacavelmente para receber os desesperados, e eu me assentei entre os velhos restos de garrafas para assistir novamente sua andança pelas coisas. O olhar do meu amor era perdido, tão sorrateiro que eu me perdia junto dele. A coragem não tomou minhas pernas, e eu continuei me embriagando.
Nas sextas seguintes eu não me deparei com ela. Ela ainda estava em todo lugar, mas distante dos meus olhos. Juntei as forças em uma busca infrutífera, e me resignei novamente ao terceiro andar.
Hoje ela está caminhando sob meus pés. Remexe os cabelos longos, a boca se mexendo em palavras mudas, em canções surdas. Eu assisto a ela da marquise do terceiro andar, quero estar junto dela, quero conhecê-la, abraçá-la, beijá-la. Mas a falta de coragem usa o elevador estragado para não descer os degraus.
Amanhã, tirá-la-ei para dançar sob as sirenes da cidade. Amanhã eu me apresento como o homem que sempre a amou, desde uma primeira manhã de sol de Terça-feira santa de expediente regular.
Belo, Simpatia!
Que prazer ler tão belos versos. Um encontro/desencontro, quem sabe um confronto, desfizesse a magia. Mas quem sabe, um dia ela te diga que anda por ali, para ver alguém na marquise, do terceiro andar... Rangel Castilho · Anastácio (MS) · 29/12/2006 14:17
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Exmo. Mmo. Ilmo. Sr. Rangel,
tomara que sim. Tomara que sim. Muito obrigado pelo comentário, e que 2007 venha com todo o ânimo e felicidade possíveis para todos nós. Te desejo tudo o que possa existir de bom nesse ano que começa,
E vamos quebrar tudo! Abraços, zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte (MG) · 29/12/2006 14:30
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Amanhã, tirá-la-ei para dançar sob as sirenes da cidade.
Um homem que se encanta a tal ponto, é anjo/ santo
ou é tonto. Ou ainda, ( talvês os tres juntos tenham produzido
este encantamento).
Amei.
Abraços. Sebastião Firmiano · São Paulo (SP) · 29/12/2006 17:14
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Assim como Moisés avistou Canaã, Após ter guiado seu povo até lá,
e ele próprio não conseguiu pisar a terra prometida.
Assim também os poetas falam, incentivam e guiam seu povo até o amor, sem que eles mesmos, na maioria das vezes cheguem
ao amor sonhado. Talvês porque, o poeta ama sempre o inascecivel
o impossivel, ( a mulher inascecivel é a mãe ) . Freud explica.O eterno retorno ( talvêz a terra) que também é mãe.
Se não assim, melhor ainda: Projetamos tal amada e ai ela se torna
melhor ( porque feita deacordo com nosso projeto).
Baudelaire dizia:
Quem olha de fora por uma janela aberta pode ver muita coisa.
Mas, quem olha de fora para dentro, e a janela esta fechada,
Pode ver muito mais.
Assim é o amor , meu mestre.
Abraços fracos. (mas é o que minha força permite). Sebastião Firmiano · São Paulo (SP) · 31/12/2006 15:34
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Sebastião Firmiano · São Paulo (SP) · 31/12/2006 15:35
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Meu amigo filósofo, bela definição sobre o amor. Ainda que me torne, às vezes, bastante "Metafísica do amor" de Schopenhauer, ou mesmo Freud. Mesmo assim, sua filosofia é fantástica, homem apaixonado! hehehe zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte (MG) · 2/1/2007 13:20
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Olá, de espera em espera vamos dando vida aos dias, criando saudades e fazendo o "amor " acontecer ,sentimentos finos que dão emoção a este seus conto... a espera das acontecências é a melhor parte da vida... ah, este século tão urgente mata esta expectativa de um talvez amanhã... Abraços . Obrigado pela visista. analuizadapenha · Natal (RN) · 28/2/2007 19:45
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Um amor para se reviver nesta Semana Santa. Tacilda Aquino · Goiânia (GO) · 2/4/2007 19:37
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Ana Luiza Penha, perdão pela demora. Estive em um ostracismo daqueles... Amanhã é véspera de feriado, e ela passeará pelos meus mais contentes soluços embriagados.
E você, o que vai querer fazer "para amanhã"? zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte (MG) · 3/4/2007 10:05
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Tacilda, para reviver um grande amor é preciso muito fígado, muitíssimo... ahahaha
Beijos, zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte (MG) · 3/4/2007 10:06
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Muito bom, Felipe. Meus aplausos.
Carlos Magno. carlos magno · Rio de Janeiro (RJ) · 7/5/2007 20:51
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Muito obrigado, Magnão. zepereiranoticias.blogspot.com · Belo Horizonte (MG) · 8/5/2007 10:58
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Que envolvente.Amor pleno, encanto, triste, desilusão Uau!
Mas a falta de coragem usa o elevador estragado para não descer os degraus.
Que palavras!
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 12/7/2007 22:15
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Cintia,
são seus olhos, coração.
Obrigado. Ah, e não se esqueça que hoje é "Sexta-Feira 13".
Beijos,
PS> Adorei seus textos! Li, votei mas não comentei. Estou, no momento, perdido em trabalho.
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