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Valério Fiel da Costa · São Paulo (SP) · 17/5/2007 15:47 · 90 votos · 2 comentários ·  
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overponto
michelangelo
Inventa que o azul do céu azul foi posto por algo capaz de

pigmentar as coisas. Imagina algo pintando aquilo com grandes

gestos... não faz mal ter braços. Tem braços. Aquela outra coisa;

mira as núvens na composição celeste sobre sua cabeça e

prossegue o seu quadro particular de criaturas pintoras até

construir um teto, um chão e paredes que chamará de galeria. Tira

o resto do dia para apreciar alguns quadros, esculturas, e móbiles.

Extrai lições do silêncio e de seu diálogo com o marulho das coisas

e imagina um instrumento fixo no solo, tangido pelo vento, de

proporções gigantescas, mas invisível aos seus olhos. Gesticula no ar

em busca de cordas tensas. Imagina ter alcançado uma. Toca. Ouve

um som secreto. Se desapega dele e prossegue pisando um chão

movediço sabendo que não tem fundo. Um frio corre o corpo. Ouve

vozes saindo daquele buraco. Não entende as palavras. Sem

entender, inventa tratar-se de lingua morta. Anima-a para

entende-la. Entende. E, ao ver os passos vacilantes da língua

ressuscitada, sente um cheiro acre e doce. Distrai-se. Esquece.



Inventa que o azul do céu azul foi posto por algo capaz de

pigmentar as coisas. Fecha os olhos e, muito seriamente, percebe

que se trata de Alguém. Diante desse Alguém se prostra; está nú,

esconde-se. Comunica a um segundo, a um terceiro, a um

sem-número, que descobriu o Motor Oculto da Natureza, que

sentiu o seu poder, que tem medo. Afirma que ao prostrar-se pôde

estar com esse motor sem que fosse ferido. Experimenta o poder e

temor que sua primazia ao Deus inspira nos demais. Compreende

que compartilha do poder desse Deus. É o seu porta-voz de direito.

Percebe olhos ávidos por respostas para outros tantos enigmas.

Procura encaminhar tais respostas estudando o rastro

fosforescente que a lembrança do arrebatamento anterior tinha

deixado em sua mente. Cria parâmetros de discernimento; ensina,

os que não viram o Deus pintar o céu, a reconhecer Sua marca nas

coisas. Intui que Esta está em todas as coisas do mundo e aprende a

enxergá-la e aprende a ensinar a enxergá-la. Aprende a ler na vida

as marcas da cólera do Artífice e a entender suas razões. Intui que

algo foi feito de errado e oferece alegremente, em sacrifício, pela

sua redenção, a própria carne.

tags: São Paulo SP musica valerio-fiel-da-costa religiao literatura belem
 
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Autoria   Valério Fiel da Costa
Contato  

fieldacosta@yahoo.com.br

Data   17/5/2007
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Valério, só uma dica: coloca espaço entre as linhas para facilitar a leitura. Quando é texto corrido assim é só colocar o cursor no início de cada linha e dar dois enter...
Abraços.
Cida Almeida · Goiânia (GO) · 15/5/2007 11:03 
1 pessoa achou útil
Sua opinião: Útil   

cida, obrigado pela dica. Na verdade os dois blocos deveriam ser lidos rapidamente, com uma respirada ofegante no meio. Por isso mantive o caráter de tijolo das partes. Mas sua sugestão é boa, facilita a leitura, e conservada a proporção, o efeito acaba sendo o mesmo. Incorporei.
Valério Fiel da Costa · São Paulo (SP) · 15/5/2007 15:09 
1 pessoa achou útil
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