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Uma história - quase - mágica2 - conto
arlindo fernandez · Campo Grande (MS) · 4/11/2006 01:04 · 82 votos · 2 comentários ·  
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overponto
Uma história,quase,mágica

Nasci para conquistar um mundo de coisa alguma, passei minha infância trocando de emprego e, antes de completar os 12, já era guardião de uma plantação de melancias. Dizia seu Trosso, o meu patrão, as melancias precisam ser vigiadas porque existem muitos chupins naquela roça ao lado. Vivendo e aprendendo. Nunca pensei que um chupim tivesse a capacidade técnica de furar a casca dura de uma melancia! Pois não tinha. Porém, os pássaros tinham o trabalho de avisar o verdadeiro ladrão de melancias.
Sentado, dias após dia debaixo de um jatobá, percebi que as formigas faziam procissão na beirada da tarde e que o verdadeiro ladrão era um tal de João Rola-flor. Um poeta e sábio, não sabia escrever nem o nome, mas tinha a habilidade de tecer barbante com orvalho – Rola-flor foi meu primeiro mestre.
Fiz sociedade com João Rola-flor e fomos rumo à fronteira do Paraguai. Na bagagem levei duas melancias e, meu sócio, uma sacola com dinheiro novinho – que ele mesmo havia feito na máquina de tirar cópias. Homem santo e de bom coração, comprou um chevrolete 51, caindo aos pedaços, somente pra ajudar a Igreja de Encarnacion. Depois, seguimos caminho para o Chaco, passamos por uma dezena de vilarejos, onde a indigência e os cachorros eram atrações principais.
João Rola-flor tinha planejado tudo em sua mente brilhante: usando o dinheiro novinho da sacola, poderíamos comprar cachorros e, assim, ajudar aquele povo sem versos. Pagávamos a mercadoria com uma nota de 50, novinha. Tinha troco de 20, porque o custo do cachorro era 30 - eu era o contador, mas não entendia porque comprar cachorros... Rola-flor dizia: somos anjos e ajudamos estas pobres criaturas. Cuide bem desses trocos!
Assim fomos até Fortín Florida, lotamos o velho chevrolete com cachorros magros, com fome e sede - foi uma época difícil em minha vida. O dinheiro novinho da sacola havia acabado, então restavam os trocos dos cachorros. Eu e João comíamos um pedaço de sopa paraguaia por dia. Os cachorros queriam comer e beber; o velho chevrolete tinha fome de óleo diesel e tinha também dois homens da polícia querendo prender meu sócio - tudo tinha, até dor de barriga por ter comido jatobá com água de chuva.
A justiça podia até ser inconexa e condenar um homem por ter feito seu próprio dinheiro, mas nunca mediria o grau de bondade anexado àquele coração. Fugimos de volta pra casa, era outono e o dinheiro que era o troco dos cachorros foi investido em comida para 48 cachorros.
Recordo-me, com ternura, do vilarejo onde abandonamos os cachorros e também o velho chevrolete. Talvez, muito talvez, aquele lugarejo ganhou o nome de “Jaguaron” devido a este episódio.
Voltei a vigiar a plantação de melancias tão pobre quanto antes, mas aprendi a ler pedras e quase tive um filho com aquele pé de jatobá. João Rola-flor virou um santo beberrão e vivia de benzimentos pra espinhela caída, dor de dente, enxaqueca de mulher e doenças da alma.
Fim


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Maravilha, Arlindo..cruzei com um poeta e um menino certa feita...
Depois disso meu cachorro sumiu!!
Ahahaha!!!
Rangel Castilho · Anastácio (MS) · 1/11/2006 13:13 
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Sua opinião: Útil   

Salve salve
Rangel,
Eu gosto muito de cachorros ...
af
arlindo fernandez · Campo Grande (MS) · 1/11/2006 13:28 
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