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Zeitgeist e a vontade de acreditar

http://ricardobraida.wordpress.com/
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Murilo Ferraz Franco · Jataí, GO
19/1/2009 · 56 · 7
 

Quando me mostraram o Zeitgeist, me disseram que o filme tinha grandes revelações bombásticas e irrefutáveis acerca de muitos aspectos da história humana.

A própria introdução aponta para essa direção e nos faz crer que apresentarão uma verdade irrefutável, que estivemos sendo "enganados" o tempo inteiro e que o objetivo dos "enganadores" (sempre Eles) é "dominar o mundo". E isso é dito literalmente, com todas as letras. Não poderia ser mais conspiratório.

É muito fácil chamar a atenção das pessoas com teorias da conspiração. Parece ser muito natural acreditar em OVNIs, organizações secretas dominadoras do mundo, lendas e superstições. Penso que é necessário olhar para essas coisas com um certo ceticismo pois, como dizia Carl Sagan, que é até citado no filme, eventos extraordinários requerem evidências extraordinárias (Sagan foi um dos principais cientistas defensores da busca de vida alienígena, apesar de não acreditar nos relatos de OVNIs descritos ao longo da história recente).

O filme Zeitgeist é dividido em três partes. A primeira parte, "The Greatest Story Ever Told" ou "A Maior História Já Contada" trata de uma análise do cristianismo. A segunda parte, "All The World's a Stage" ou "O Mundo Inteiro é Um Palco" apresenta uma suposta conspiração nos ataques às torres gêmeas nos estados unidos. A terceira parte, "Don't Mind The Men Behind The Curtain" ou "Não Ligue Para os Homens Detrás da Cortina" foca no sistema bancário mundial, que supostamente tem estado nas mãos de uma elite de famílias burguesas que detém o verdadeiro poder sobre todos os países a eles associados.

Pessoalmente, não consegui passar da segunda parte. Isso porque me incomodou bastante as informações imprecisas apresentadas na primeira parte, que para mim comprometem a credibilidade do filme como um todo. A seguir, farei uma análise da primeira parte, que trata do cristianismo.

De um modo geral, a primeira parte do filme apresenta informações para corroborar uma teoria previamente elaborada (a de que Cristo seria uma colagem de várias outras mitologias e teria origens astrológicas), ocultando, quando conveniente, informações valiosas que poderiam levar o espectador a tirar outras conclusões que não as apresentadas no filme. Para mim, há uma grande confusão quando não fizeram uma separação entre o que é de origem bíblica, o que vem da tradição católica e o que se originou da tradição popular cristã.

No início da primeira parte, é apresentado um resumo da história do deus egípcio Horus. O resumo é o seguinte:


  • Nasceu em 25 de dezembro de uma virgem

  • Uma estrela proclamou sua chegada

  • Três reis vieram adorar o recém nascido "salvador"

  • Começou a ensinar aos 12 anos

  • Aos 30 anos foi "batizado" e começou seu "ministério"

  • Teve 12 discípulos

  • Foi traído

  • Foi crucificado

  • Foi enterrado por três dias

  • Ressuscitou após três dias


Essa descrição parece ser exatamente a de Jesus Cristo. O filme apresenta essas afirmações sem nenhuma referência, como se fosse fato que essa é a história de Horus. Porém, no mínimo, essa história não é um consenso. Na verdade, há bem poucas referência importante que a corrobore tal qual é posta no filme.

Mas, supondo ainda que essa seja mesmo a história de Horus, os autores do filme "misteriosamente" ocultaram alguns detalhes importantes.

  • Em nenhuma parte da bíblia é dito que Jesus nasceu em 25 de dezembro. Essa data foi adotada pela igreja católica, pelo Papa Júlio I, no ano 350 pouco depois de o Imperador Constantino instituir o Cristianismo como religião oficial do império romano, justamente para que os seguidores das religiões pagãs adoradoras do sol pudessem se converter ao cristianismo sem ter que mudar muito os seus costumes. Então, não é de se espantar que a data seja a mesma.

  • A história dos três reis magos (que é citada por muitas vezes no filme) não tem fundamentação bíblica. Não consta em nenhuma passagem bíblica o número de sábios que foram visitar o menino. Em Mateus 2:1 encontramos "Tendo Jesus nascido em Belém da Judéia, em dias do rei Herodes, eis que vieram uns magos do Oriente a Jerusalém", e esse é o único evangelho que cita o fato. Os três reis magos tem origens na tradição popular e nada tem a ver com o Jesus bíblico e não condiz, portanto com as três estrelas do cinturão de órion.

  • O batismo é uma tradição judaica, criada muito tempo depois do mito de Horus. Ele não poderia, então, ter sido batizado. Mesmo que tenha passado por algum ritual parecido, chamar esse ritual de batismo só pode ter um intuito: confundir, e não esclarecer.


Mesmo eliminando esses tópicos, parece haver ainda muita semelhança nas histórias de Jesus e Horus. Porém, as outras afirmações acerca do Deus egípcios não resistem a uma pesquisa mais rigorosa. Até onde eu consegui apurar, Horus não nasceu de uma virgem, não há relatos de nenhuma estrela que tenha proclamado seu nascimento, Horus teve 4 seguidores, não foi traído nem crucificado, nem esteve enterrado por três dias, nem ressuscitou. Talvez haja referências sérias e amplamente aceitas que corroborem as afirmações do vídeo (que não sejam, é claro, textos conspiratórios da internet ou textos criados a partir do filme), mas o importante é que, pelo menos, não há consenso sobre nenhum dos fatos destacados sobre a suposta história de Horus e, mesmo que existam tais referências, o filme apresenta Horus de uma maneira imprecisa e tendenciosa, a fim de "alinhar" os fatos para a conclusão que querem tomar.

Outros erros grosseiros do filme podem ser apontados na descrição dos outros deuses, como por exemplo Krishna, que não nasceu de uma virgem, mas da princesa Devaki e seu marido Dasudeva e Dionísio, que não nasceu de uma virgem, mas da união de Zeus com uma mortal. Nenhum dos deuses citados no filme parece corroborar a teoria levantada de que compartilham a morte na cruz e ressurreição depois de três dias.

No vídeo, apresentam o peixe como símbolo cristão está relacionado com a era de peixes. O uso do peixe como símbolo do cristianismo começou com a igreja primitiva, e foi adotado porque a igreja primitiva era perseguida, mantendo seus encontros secretos, e precisavam de um símbolo para marcar onde seriam as reuniões secretas de culto. Utilizaram um acrônimo, no grego antigo ICTUS (peixe, no grego), para Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador. Essa é apenas mais uma de muitas explicações possíveis para a adoção do símbolo.

O filme afirma que, em Lucas 22:10, Jesus disse, em resposta aos questionamentos dos discípulos sobre o que fazer quando Jesus tiver partido, que os discípulos procurassem um homem com um cântaro de água. Segundo a interpretação do filme, o homem representaria a era de aquário, que se seguiria à era de peixes, que seria representada por Jesus (ou seja, viria após a partida de Jesus). Na verdade, a pergunta dos discípulos que resultou nessa reposta foi essa: "Eles lhe perguntaram: Onde queres que a preparemos [a páscoa]? Então, lhes explicou Jesus: Ao entrardes na cidade, encontrareis um homem com um cântaro de água; segui-o até à casa em que ele entrar e dizei ao dono da casa: O Mestre manda perguntar-te: Onde é o aposento no qual hei de comer a Páscoa com os meus discípulos?" (Lucas 22:9-11), ou seja, não tem nada a ver com o que os discípulos devem fazer depois da partida de Jesus. E essa, segundo o filme, é a passagem mais reveladora das referências astrológicas. A interpretação dada no filme não faz muito sentido quando se lê a passagem completa.

Minha intenção aqui não é fazer uma defesa da igreja ou do cristianismo. Acredito que muitos outros aspectos do filme poderiam ser contestados por pessoas com maior conhecimendo de mitologia e teologia, já que não sou nenhum especialista nos assuntos. Penso que muitas coisas devem ser esclarecidas no que diz respeito à religião, especialmente do cristianismo primitivo e da formação da igreja, da seleção dos textos canônicos etc. Se há uma manipulação dessa magnitude, onde estão os manipuladores? Quem são "Eles"? Não acho que com mentiras, informações imprecisas e confusões é possível prestar algum esclarecimento, e muito menos, como pretende o vídeo, chegar "à verdade". Um assunto tão delicado deveria ser tratado com mais cuidado, seriedade e responsabilidade e deveria exigir, pelo menos, uma pesquisa mais bem feita.

O que mais me impressiona, porém, é a repercussão que o filme teve, mesmo carregado de informações falsas, facilmente verificáveis como tal. O filme que se dá o objetivo de "libertar as pessoas pela verdade" acaba confundindo através de mentiras mal costuradas. Parece haver uma vontade irresistível, uma necessidade das pessoas de acreditar em teorias conspiratórias, e essa necessidade parece ser tão forte que quando tais teorias são apresentadas, não parece necessário checar nenhuma das informações: a verdade foi revelada.

Penso que é importante questionar, mas antes de confiar é preciso desconfiar. Querer acreditar não deve significar acreditar cegamente, mas questionar sempre. Não deveria a verdade (se existir) resistir aos questionamentos?

Algumas referências interessantes:

A Tretalogia de Zeitgeist: o efeito 'red pill'
Zeitgeist: Dan Brown vestiu as cuecas de Michael Moore
The Leading Religion Writer in Canada ... Does He Know What He's Talking About? [eng]
Is there any validity to the Zeitgeist movie? [eng]
Zeitgeist -- perspectivas
Natal: Por quê 25 de dezembro?
Wikipedia: O primeiro Concílio de Nicéia
Wikipedia: Horus [eng]
Wikipedia: Krishna [eng]
Wikipedia: Dionysus [eng]
Wikipedia: Ichthys [eng]

Sobre a obra

Análise da primeira parte do filme Zeitgeist.

informações

Autoria
Murilo Ferraz Franco
Ficha técnica
Autor: Murilo Ferraz Franco.
Originalmente publicado em http://muriloferraz.blogspot.com/
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peninha

Confesso que quando assisti pela primeira vez Zeitgeist fiquei meio que deslumbrado com as possiveis revelações que traz.
Depois, já li e já escutei reportagens sobre as revelações. Confesso que as religiosas pouco me prenderam a atenção, pois me confesso discrente de todas, as oficiais e as reveladoras.
Acho a Biblia e seus acessorios Evangelhos e Escritos Sagrados uma literatura para menos exigentes e crédulos de primeira hora.
Mas as partes seguintes do filme-documentário me passaram mais possibilidades do que a primeira.
Que exista uma grande conspiração, una e dirigida por uma mente, ou mentes perfeitamente concertadas, é dificil supor, pra não dizer improvável, mas que a teoria mantenedora traz elementos plausiveis, e os fatos convergem para tal, isto sim faz sentido pra mim.
Não que seja seguida como se pretende no filme, mas, no todo faz sentido.
E na falta de coisa melhor, prefiro colocar minhas barbas de molho.
Ainda não dei este assunto como resolvido e talvez nunca dê...
Mas se ele fascina e provoca artigos tão bem trabalhados como o seu, vale a pena persegui-lo.

peninha · Butão , WW 21/1/2009 09:40
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peninha

Só pra terminar: o titulo do seu artigo é a resposta pra tudo -
A vontade de acreditar
Parabens.

peninha · Butão , WW 21/1/2009 09:47
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Murilo Ferraz Franco

peninha, obrigado pelo comentário.

Acho que se os autores do filme tiveram o mesmo critério para a seleção dos "fatos" para a segunda e terceira partes, tudo não passa de uma montagem para corroborar a "conspiração".

Fatos comprovados que não se encaixam na conspiração são ignorados e especulações que a corroboram são tomados como verdade.

Acho que essas conspirações acabam por funcionar como uma boa propaganda americana, porque os americanos "podem tudo", inclusive armar uma mega conspiração para derrubar um de seus maiores símbolos e entrar em uma guerra, enquanto que os muçulmanos "entocados nas cavernas" seriam incapazes de realizar um plano de ataque como aquele.

Lembrando que os EUA foram incapazes de plantar simples armas no Iraque para justificar a invasão. Onde estavam os talentosos conspiradores nessa hora? Quero dizer, como já disse o Marcos do Bitaites no seu texto sobre o filme, que os americanos não conseguiriam orquestrar tal conspiração, não porque não queiram, mas porque são incompetentes.

Não seria mais plausível acreditar na incompetência da segurança do sistema aéreo americano e na displicência dos governantes, que ignoram relatórios apenas pela preguiça de lê-los?

Não! os americanos são os todos-poderosos-dominadores-do-mundo e tudo podem.

Murilo Ferraz Franco · Jataí, GO 21/1/2009 09:58
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O NOVO POETA.(W.Marques).

um ótimo texto.votado.

O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca, SP 21/1/2009 10:31
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peninha

Amigo Murilo,
Se vc olhar 500 anos atras, vai ver que o mundo que "existia", ou seja, o dito civilizado, o europeu - visto que Asia e Africa eram simples colonias ou menos e as Americas não existiam - era dividido entre umas poucas familias que erigiam monarcas consanguineos em seus reinos e controlavam praticamente tudo. Até as guerras era conluios perpetrados por uma ou outra facção destas familias.
Com o rompimento deste "acordo", que durou uns 500 anos, nas duas grandes guerras, outro acordo o substituiu. No fundo, mais em retorica do que propriamente em rompimento, pois as potencias, à exceção da Norte-americana eram as mesmas.
De forma que o fato novo foi o nascimento desta hegemonia estadunidense (me recuso falar americana) .
E seus acordos de alem-mar, refeitos.
E seus poucos escrupulos, e sua enorme ganancia sem fronteiras, de cor, credo e decencia.
E eles as fizeram suas, sua biblia, seu regulamento.
E agora, com o surgimento de forças emergentes, começam a se sentir incomodados e a espernear.
Os episódios em solo estadunidense, espanhol, iraquiano e afegão não estão isolados do contexto. São afirmações desta hegemonia.
São fatos ungidos e provocados para se mostrar que ainda são o que são.
O papelucho que a ONU tenta e não consegue fazer é sinal deste ainda claro dominio.
Espera-se que seja rompido mais uma vez, nos proximos 50 anos, mas a que custo?
Eu já estou com mais de 50 e não tenho expectativa de ver isto acontecer. Voce, quem sabe..
Continue.

peninha · Butão , WW 21/1/2009 10:31
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Murilo Ferraz Franco

Obrigado pelo comentário, W. Marques.

Peninha, não entendi seu ponto de vista nesse comentário.

É inegável que os EUA exercem grande poder no mundo atualmente. Nem por isso devemos assumir que automaticamente todas as teorias da conspiração se tornem verdadeiras. Principalmente sob a incompetente administração do governo Bush, que eu realmente não acredito ser capaz de orquestrar um ataque como o de 11 de setembro.

Como dizia Carl Sagan, fatos extraordinários requerem evidências extraordinárias. Não é o que se encontra geralmente nas descrições de teorias da conspiração.

Murilo Ferraz Franco · Jataí, GO 21/1/2009 11:00
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Enuma Elish

Depende do que voce define como extraordinario. E a propria definição do que é extraordinário é algo que você aprende pela sociedade. Muitos comportamentos e crenças de outras nações poriam ser ditos "extrardináreos" para o nosso ponto de vista. Cuidado ao se agarre a frase de outro pensador e usar como argumento, pois nem sempre pode ser aplicada a todas as areas.

Agora, oque temos que fazer é ver os fatos, muitas vezes não temos acesso a eles, como é o caso com muito do que é dito no Zeitgeist, porem não precisamos ir muito longe, basta ver como a população é tratada pelo sistema social regente e sua principal fonte de informação sobre o mundo, a mídia. Algo é evidente, alguma coisa está errada, seja essa manipulação deliberada por uma elite, ou algo que se desenvolveu naturalmente pelas leis capitalistas regentes, no final realmente não importa pois oque importa é que temos que mudar, tem de haver mudança nos valores que sutentamos, temos que nos expandir desse casulo egoista e individualista que o capitalismo sustenta, o mundo é uma extenção de nossos corpos.

Estude os livros de Jiddu Krishinamurti e me de seu reply W. Marques .

Enuma Elish · Rio de Janeiro, RJ 26/3/2009 01:40
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