| |
|
|

Vamos por etapas: desde o primeiro momento em que ouvi falar da Casa dos Sete Andares - localizada na periferia de Chapecó - uma das primeiras coisas que passaram pela minha cabeça foi que se tratava de um prédio de sete andares que era chamado de “casa” em função da forma como havia sido construído. Alternativa falsa, não é um prédio de sete andares, nem mesmo A Casa das Sete Mulheres, a Sétima Arte ou a Sétima Maravilha do Mundo... Cheguei a pensar, ainda, que pudesse ser algo parecido com o sétimo andar e meio do filme “Quero Ser John Malkovich”, isto é, sete andares pela metade. Alternativa mais ou menos certa, mas não exata. Outra imagem que passou pela minha mente: as casas mal assombradas do Scooby Doo. Essa nem na trave bateu.
Então, resolvi visitar o local e a primeira coisa que lembrei enquanto observava a construção foi a frase que um amigo do Ceará, Carlos Augusto, havia pronunciado em uma tarde descontraída em um boteco na beira da praia: “no Brasil, a arquitetura pode ser pensada a partir de dois ícones reconhecidamente tupiniquins, Oscar Niemayer e o “puchadinho”. Eu disse: pronto, sei que para os arquitetos isso pode parecer uma afronta, mas como vou falar da “Casa dos Sete Andares” (Casa Rover), essa afronta, na pior hipótese, é minimizada. Com isso quero dizer que a Casa dos Sete Andares, pra mim, naquele momento, atendia ao sonho da classe média (bem) baixa brasileira, uma festa, imagina só: sete puxadinhos. Além disso, com a perfeição com que os puxadinhos se amarravam uns aos outros, cheguei a ter dúvidas sobre qual deles tinha sido feito primeiro. Mais do que isso, a casa parecia se encaixar perfeito nas palavras de Carlos Augusto, afinal de contas, além de ter um monte de puxadinhos, pra fazer inveja a muita gente, me permitia pensar que o acabamento, em especial, pela imponência, tinha um toque à Oscar Niemayer. Eu e minhas teorias furadas.
Depois que fui conversar com o Giovani Rover, responsável pela elaboração do projeto e construção da casa, toda a minha teoria de boteco foi por água abaixo. Que puxadinho e Oscar Nyemaier que nada. Vamos lá, aos poucos vou tentar esclarecer o projeto de Giovani.
A casa é composta de sete níveis – cinco pisos definidos e outros dois intermediários (esses níveis intermediários podem ser considerados uma espécie de meio andar, aí sim parecidos, em tamanho, com os andares do filme “Quero Ser John Malkovich”) –, que têm aproximadamente 16m de altura. É claro que os níveis são menores, mas comportam muito bem uma pessoa de tamanho médio – eu, por minha vez, quase bato com a cabeça no teto.
A casa é um octaedro e foi construída a partir da idéia inicial de integrá-la ao meio ambiente, ou seja, acomodar as peças ao ambiente natural, aproveitando o relevo/desnível do terreno: o projeto foi todo pensado a partir das possibilidades que o terreno oferecia. Outra coisa interessante é que não existe na casa nenhum pau enterrado, alicerce de concreto, sapata, viga, ou qualquer coisa parecida. Aí a pergunta é inevitável:
“Como é que ela permanece de pé?”
Giovani define a base do projeto como raízes flutuantes. Agora sim, parece ter ficado mais complicado ainda de nos aproximarmos dela, mas vamos em frente. Ele buscou uma alternativa para alicerçar a casa, uma alternativa que dialogasse com o próprio espaço, e esse diálogo, mudo talvez, é o que faz com que o trabalho se apresente de forma tão interessante: pedras acomodadas sobre o chão firme e paus, troncos, madeiras sobre elas equilibradas a partir de um sistema de encaixe (uma espécie de macho e fêmea).
Vale lembrar ainda que para atender o projeto inicial – a saber: passar longe de uma loja de materiais para construção e utilizar materiais que pudessem ser reaproveitados – a casa ganha retoques ainda mais excêntricos, afinal de contas, a base do material utilizado na construção é composta de madeira (sobras de uma construção velha), troncos de rio, pedras (sem que nenhuma fosse cortada) e cordas para auxiliar na amarração e vedação da casa. Ah, as janelas são o charme do local (porque não, um dos toques Oscar Niemayer): são compostas por pára-brisas de ônibus e outros tipos de vidro, mantendo a idéia do reaproveitamento – vidros côncavos, convexos, retos, retalhados, etc. Um outro detalhe: toda a estrutura é composta de madeiras e vidros duplos.
Como vocês puderam perceber, a casa tem um pouco disso, do fora do lugar. Em vários momentos cria o desconforto da interrogação, que não permite uma definição aventureira. Por várias vezes as pessoas precisam se abaixar para conseguir passar de um nível ao outro, ou mesmo, caminhando dentro da casa, por vários motivos a pergunta parece inevitável: por que será que isso está posicionado desta forma?
Contudo, independente das interrogações, a casa apresenta suas praticidades. Entrando no primeiro nível, é possível acessar todos os demais – ainda, neste primeiro nível há um fogão à lenha que aquece todos os ambientes, para facilitar a vida nos períodos mais frios do ano. Outra alternativa interessante é que Giovani fez um sistema de entrada direto ao quarto principal da casa, se tu não estás a fim de passar pelos outros cômodos da casa, quer apenas se jogar direto na cama para descansar, vai direto ao que interessa.
Não dá para esquecer que o projeto apresenta um certo luxo. Agora, me refiro a uma bela idéia para suportar os dias quentes de verão. A casa tem uma piscina natural com três metros e meio de diâmetro. Ela foi feita como se fosse uma taipa para contensão de terra e possui um sistema de limpeza por gravidade que decanta a sujeira de uma forma natural.
Resumindo, dá para dizer que a casa é grande e imponente, mas pode passar despercebida. Uma combinação do rústico e do requinte sem deixar o conforto de lado. Mas vale lembrar que deu muito trabalho, afinal de contas, o projeto foi pensado para ser concluído em quatro meses, no entanto, levou dois anos e meio para ficar pronto – e o mais interessante é que não apresentava nenhum desenho no papel, todo ele montado na cabeça deste que pode ser pensado como uma espécie de arquiteto sem o vício da formação acadêmica.
Durante sua construção as pessoas da comunidade, onde a casa está inserida, em um bairro de Chapecó (e mais uma meia dúzia de olho gordo), não acreditavam que a casa pudesse permanecer de pé, a ponto de Giovani ter que trocar freqüentemente de ajudante. Mas isso foi uma coisa que nunca o incomodou, e ele mesmo afirma: “a casa é boa, bonita e durável”, e, ainda segundo ele, se for feita uma manutenção adequada, vai permanecer de pé por muito tempo. A casa hoje é habitada pelo irmão do Giovani, Oscar, uma espécie de mecenas do projeto.
Giovani não tem formação acadêmica, se considera simplesmente um adaptador dos elementos da natureza com o mundo em constante mutação. Seu mais novo projeto, em andamento, está localizado no morro da Represa, em Florianópolis. Sem prazo para ficar pronto, é na capital do estado que Giovani está colocando em prática algumas experiências anteriores e articulando várias outras. Aguardem, de repente demora pra ficar pronto, mas a idéia promete.
tags: Chapecó SC cultura-e-sociedade casa-dos-sete-andares casa oscar-niemayer arquitetura
|
|
 |
comentários  |
postar novo comentário |
 |
| |
 |
Tem foto, Demétrio? Fiquei curiosa pra ver isso!
beijo pra vc
Natacha Maranhão · Teresina (PI) · 13/9/2006 15:18
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
Demetrio, realmente a foto mostra-se muito necessária! Também rolavam uns intertítulos para facilitar a leitura, mas isso é frescuragem minha...
Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte (MG) · 14/9/2006 01:41
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
É uma irresponsabilidade editorial Demetrio você escrever um texto desse e não colocar uma foto! Hhehehe. Mas muito bom mesmo, além da história, a temática da arquitetura que não a vi muias vezes, talvez nenhuma.
Agora fico pensando. Arquitetur e engenharia é algo um pouco mais complicado de se pensar criativamente e não-academicamente que outras linguagens. É capaz do CREA bater lá já já.
Parabéns pelo texto.
Pedro Rocha - Grupo TR.E.M.A. · Fortaleza (CE) · 14/9/2006 11:17
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
Olá Naty, Mi Cortielha, Pedro, grato pelas sugestões e comentários...
com certeza uma foto se faz necessária, eu tinha salvo no meu computador umas vinte fotos do lugar, mas uma pane fez com que esse material fosse p o espaço. Já entrei em contato com o Oscar, o responsável pela Casa Rover, estou no aguardo,
abs
Demetrio Panarotto · Florianópolis (SC) · 14/9/2006 11:56
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
CARA. . .NESTA CASA, ' A CASA DO OSCAR', COMO A GENTE CHAMAVA, PASSEI POR EXPERIÊNCIAS VERDADEIRAMENTE SURREAIS. . . LEMBRO DE UMA VEZ QUE SOUBE QUE IA ROLAR MAIS UM FESTA LÁ, E COMO O 'INGRESSO' ERA A BEBIDA QUE SE IA BEBER, NA HORA BOTEI UMA GARRAFA DE VINHO NA MOCHILA. . .DETALHE FOI CHEGAR ATRASADA NA AULA DE PÓS, COM O BARULHO DE UMA GARRAFA BALANÇANDO NA MOCHILA. . .JÁ QUE A CARONA PRA FESTA EU IA ARRANJAR DEPOIS DA AULA E IR DIRETO. . .VALEU DEMÉTRIO POR ME FAZER LEMBRAR. . .SAUDADES. . .
mitieli · Chapecó (SC) · 20/9/2006 15:06
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
PS.: TENHO 'INVEJA' DO TAMANHO DOS TEUS TEXTOS. . .MEU TRABALHO NÃO ME PERMITE ESCREVER NEM UM TERÇO. . .
mitieli · Chapecó (SC) · 20/9/2006 15:07
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
|
fiquei tão curioso que ate marquei com o Roberto para ir lá conhecer, mas to curioso para ver a foto.
Abração
samicler · Chapecó (SC) · 20/9/2006 16:39
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
Valeu Mitieli!! Samicler, vale apena ir lá conferir,
abs
Demetrio Panarotto · Florianópolis (SC) · 20/9/2006 16:50
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
pow... curioso, fascinante... queria ver de perto como ela se mantem de pé, rs.
Alana · Guarujá (SP) · 20/9/2006 19:40
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
 |
Maravilha a descrição da Casa Röver. Não sei ao certo como o Oscar a chama... É necessário um outro texto para descrever a decoração interna. Quem se aventura?
Fabinca · Chapecó (SC) · 17/12/2006 13:49
Dê sua opinião! Você achou esse comentário útil?
Sua opinião:
|
|
|
|
| |
Adicione seu comentário: para comentar é preciso estar logado no site. Faça primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
|
|
 |
|
 |
|
|