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A festa imodesta do quadrinho nacional

Odair Braz Jr.
Jane e Herondy ensinaram Serginho Groisman: há 19 anos ele não se vai do HQ Mix
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Delfin · São Paulo, SP
23/7/2007 · 270 · 7
 

No dia 11 de julho eu saí para comer um pizza de madrugada. Uma vez por ano, é de lei, vários grupos se formam e vão fazer isso. A chance de botar na mesma mesa um bom papo sobre os quadrinhos e, também, sobre um monte de outros assuntos. A tevê estava sintonizada num jogo da Copa do Mundo Sub-20 de futebol, da qual o Brasil foi vergonhosa e exemplarmente desclassificado, quando eu, Sidney Gusman, Marcelo Naranjo, Sam Hart, Rod Reis e Alexandre Linares começamos a papear. Apenas um evento, todos os anos, permite que conversas desse tipo aconteçam: o HQ Mix, a principal premiação de quadrinhos brasileira, que completa, no ano que vem, 20 anos de existência.

É uma festa sem igual e, nesta edição, foi especial por muitos motivos. Certamente o principal foi a afluência de gente de muitas partes do Brasil, das cinco regiões, algo que por si só é pra se comemorar. Afinal, nunca os quadrinhos viveram um momento tão especial em todos os anos em que se publica este tipo de arte no país. Mas, desta vez, a presença maçica das editoras e das pessoas que estão nos bastidores da publicação de HQs no Brasil, bem como de jornalistas da área, zineiros, roteiristas e desenhistas deu ao 19º HQ Mix uma cara de alegria. Foram diversos reencontros, de gente que não se via faz tempo, além de trocas de impressões como não se via há um bom tempo no evento.

Num mercado tão pequeno e com tantas rusgas, apenas a habitual ausência dos editores da Panini e da Devir foi mesmo sentida. A primeira, a maior publicadora de quadrinhos no Brasil. A segunda, uma editora que soube se reinventar após a perda de grandes títulos para a Pixel e começa a trazer ao país grandes e impensáveis títulos de editoras que não tinham chance alguma há apenas um ano. O fato da Panini não aparecer é de algum modo justificável: quase nenhum prêmio ter sido delegado a esta editora que é a mais maciça presença em bancas no Brasil chega a ser um tremendo absurdo. São as distorções do prêmio, que eu comento com mais propriedade em meu blog pessoal.

Apesar disso, houve a festa. E que festa! A apresentação, como é desde a primeira edição, coube ao Serginho Groisman que, neste ano, teve a feliz idéia de trazer a tiracolo a banda que o acompanha no programa Altas Horas. Até arriscou cantar uma versão (sejamos sinceros, bizarra) de Não se vá, clássico popular de Jane e Herondy.

O grande homenageado da premiação foi um quadrinista que a nova geração desconhece, mas que foi um dos caras de ponta dos anos 70 e que, após morar anos e anos na França, hoje vive no Taiti. Seu nome é Sérgio Macedo e é um verdadeiro moleque, o que casa muito com a sua obra exótica e tropical. Ele dançou, falou, fez caras e bocas e ainda levou sua esposa, uma legítima taitiana em trajes típicos, a fazer uma apresentação também típica de dança. Foi difícil não se sentir no Hawaii. Aquele dos filmes do Elvis, não do seriado do Magnum.

Mas também muita gente nova subiu ao palco pela primeira vez. Talvez um movimento de genuína renovação, que começou há poucos anos, esteja realmente amadurecendo. Foi esta a impressão que passou quando o pessoal da Front subiu ao palco, completamente diferente da formação inicial da revista, que era comandada a mão de ferro pelo Kipper. Aliás, foi um dos pontos altos da noite, quando Bira pegou sua gaita na hora dos agradecimentos e tocou, acompanhado da banda, uma versão de Asa Branca em homenagem a Conceição Cahú, artista gráfica morta no ano passado e que participou com sua última obra justamente na edição premiada da Front, vencedora do prêmio de melhor revista mix nacional.

Mas as homenagens foram falhas: outros artistas de renome se foram, como Joacy James e Ely Barbosa, mas nada de se mostrar o trabalho deles no telão. No caso de Barbosa, um crime capital, visto que ele, na década de 70 e no começo da de 80, foi o único criador infanto-juvenil a fazer frente a Maurício de Sousa – ainda hoje seus trabalhos podem ser vistos em diversos produtos do Baú da Felicidade, por conta da interessante relação entre Barbosa e Sílvio Santos.

É sempre triste quando gente boa se vai, mas existem aqueles que podem ser reconhecidos a tempo, como o piauiense Renato Canini, provavelmente o maior desenhista nacional a trabalhar com o material Disney. Sua originalidade e inventividade levaram os organizadores do HQ MIx a fazer o troféu deste ano estampando seu personagem mais bacana: Kactus Kid, um caubói à italiana bem à brasileira. Novamente, algo a que os novos só tem acesso nas pouquíssimas gibitecas e acervos públicos de quadrinhos no Brasil.

[E vale um adendo: também é, sempre, de uma falha crassa da organização não apresentar o homenageado impresso no troféu. Mas deixa que, este ano, eu faço isso para vocês: clique neste link e agradeça ao site Porta Curtas pela gentileza. Agora, de volta ao texto.]

Este lado bom do HQ Mix, o do resgate, agora é somado ao incentivo à pesquisa e estudo das HQs, graças à premiação de trabalhos acadêmicos sobre o assunto. Também o lançamento de cada vez mais livros teóricos sobre quadrinhos faz com que se tenha uma melhor compreensão de um mercado que, hoje, tem pouco mais de cem anos de idade. Algo bem modesto em relação ao resto da imprensa escrita nacional. E não por isso menos importante.

O HQ Mix hoje tem uma comissão que trabalha anualmente pelo prêmio. Mas os cabeças do projeto, Jal e Gual, continuam firmes por ali, cada vez tentando deixar o processo de escolha mais transparente (hoje, a votação é auditada, por exemplo) e a entrega dos prêmios, mais legal. Afinal, tem que ser uma festa, não um simpósio.

E foi assim: prêmios para cá, prêmios para lá, e isso literalmente, porque o palco do anfiteatro do Sesc Pompéia, local tradicional do evento, separou a platéia em dois cantos. Tanto que a maioria das pessoas não sabia pra que lado olhar quando eram premiadas. O que, na verdade, era bem divertido de se ver de fora.

E isso foi o mais bacana: ver de fora absolutamente tudo. Estar lá, num meio que me é familiar, olhando com os olhos alheios de quem volta após uma longa ausência, foi renovador. Para alguns, eu era o jornalista. Para outros, o vilão de gibi criado em comunidades de orkut. Para mais alguns, o ex-companheiro de trabalho. Para muitos, o amigo que nunca abandonou nem suas perspectivas nem aquilo em que acredita. E foi com alguns deles que pude dividir, neste ano, a tal mesa na madrugada. Uma mesa que respeitava as diferenças em sua heterogeneidade: Gusman e Naranjo, como eu, são jornalistas da área de quadrinhos, sendo que o Sidney faz muito mais coisas, inclusive tendo sido editor na Conrad; Linares é um dos homens fortes da Conrad e um apaixonado por HQs; Rod Reis faz, hoje em dia, cores para grandes títulos da DC Comics; Sam Hart é desenhista, colorista, roteirista e já trabalhou junto com John Higgins, o colorista de Watchmen (considerada a obra seminal dos quadrinhos de heróis); e, enfim, eu, que sou jornalista e recentemente comecei a trabalhar na Pixel Media. O que une estas pessoas é a paixão pelos quadrinhos e a amizade, acima de qualquer fronteira editorial. É como a banda toca: bom papo até que, finalmente, chega à mesa o pretexto de nos reunirmos.

Afinal, pelo menos alguma coisa no Brasil tem que acabar em pizza e não indignar ninguém, não é mesmo?

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Milena Azevedo
 

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Milena Azevedo · Natal, RN 23/7/2007 20:03
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Delfin
 

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Delfin · São Paulo, SP 23/7/2007 20:48
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crispinga
 

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crispinga · Nova Friburgo, RJ 23/7/2007 21:38
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Delfin · São Paulo, SP 23/7/2007 22:06
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Mi [de Camila] Cortielha · Belo Horizonte, MG 24/7/2007 00:15
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Marcelo V. · São Paulo, SP 25/7/2007 01:49
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Delfin · São Paulo, SP 25/7/2007 05:38
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