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A magia libertária do Teatro Mágico

Paulo Trarbach
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andre stangl · São Paulo, SP
26/7/2011 · 19 · 0
 

A história da trupe do Teatro Mágico é um belo exemplo do poder transformador dos sonhos coletivos. Junte a promessa do imponderável, a alegria do desejo, a vertigem do simples e eis a magia que une essa trupe e seus fãs na busca de uma nova trilha para a relação entre arte e sociedade. Mais que a tentativa de reinvenção de um modelo de negócio, esses “doidos” ousam tentar reinventar a vida. A trupe, na estrada e nas redes desde 2003, se prepara para dar mais um importante passo: em breve vão lançar o terceiro CD, “A Sociedade do Espetáculo”. A referência ao clássico livro de Guy Debord no título cabeçudo se justifica, pois a trupe do TM é conhecida por suas posições políticas, sendo uma das mais emblemáticas defensoras das bandeiras da cultura livre.

Em muitos aspectos, a trajetória do TM lembra a de outros fenômenos populares, como o tecnobrega, o pagode ou o funk, gêneros desprezados pela crítica especializada, que começaram através da relação direta com seus públicos em shows e cresceram com a ajuda do boca a boca decorrente de boas performances. A diferença é que, no caso desses fenômenos populares, a principal difusão se dá através dos camelôs, que comercializam versões piratas de shows, algo que se popularizou com as facilidades dos CDs graváveis em meados dos anos 90. Já o público do TM difunde as músicas e a agenda dos shows do grupo usando as redes. Além disso, o TM gera um outro tipo de envolvimento, no plano dos sentimentos e dos ideais.

Nos fenômenos massivos da arte e da cultura, de forma nem sempre explícita, podemos dizer que também existem reivindicações político/identitárias, ao afirma-se e reconhecer-se enquanto grupo, com um ethos e uma estética própria. As tribos do punk, do funk, do pagode, do reggae, do rap, entre outras, no entanto, flertam com um certo tipo de estética massiva. Nessas tribos todos consomem um estilo específico de som, de roupas, etc. A galera que curte a trupe do TM, por outro lado, parece ter uma pegada mais pós-massiva, reflexo da forma como podem interagir e consumir. Aqui busca-se o nicho, sem a necessidade de uma massificação estética.

O TM começa em 2003 como um projeto de Fernando Anitelli, jovem compositor criado em Osasco-SP, em um ambiente familiar que já tinha a música em seu horizonte. Não sendo pequeno o papel do pai, o Seu Odácio, na consolidação desse sonho coletivo. Segundo Gustavo Anitelli, irmão de Fernando e produtor/articulador do TM, que me concedeu a entrevista que serve de base para esse texto, a música está na história da família Anitelli desde os avós e, nos anos 90, até seu pai tentou alguma coisa. Mas, pelo visto, o grande talento de Seu Odácio seria apoiar e promover o projeto dos filhos. Foi dele a iniciativa de divulgar o projeto, dando e vendendo CDRs nos shows e disponibilizando as músicas na rede, na época, através do emule. Tem um vídeo onde ele conta como foi essa história, quase como um “2 Filhos de Francisco” na era das redes.

Fernando já tinha passado por uma experiência mais convencional de banda com gravadora, com todos os clássicos contratempos que isso implica, ou seja, a estratégia era empacotá-los como um produto palatável, seguindo as tendências e modas do mercado da música. Ou então ficar quieto até cumprir o contrato. Depois dessa etapa, Fernando viajou e foi buscar o seu sonho... Reza a lenda que um livro caiu em suas mãos e, de suas páginas, surgiu o nome Teatro Mágico. O livro em questão fez a cabeça de uma geração. “O Lobo da Estepe”, de Hermann Hesse, é desses livros que, quando batem, nada fica como era antes. O personagem de Harry Haller, um alter-ego de Hesse, representa o modelo mental da Europa dos anos 20, aquele clima do novo filme do Woody Allen, da geração perdida, da crise do racionalismo, da descoberta do inconsciente e, por fim, do mergulho no absurdo da existência. No livro, o Teatro Mágico é algo com uma TAZ, uma zona temporária autônoma. O que na linguagem dos hackers é o sentimento de vertigem e liberdade da própria rede.

Originalmente, o TM seria um CD solo do Fernando, conta Gustavo. Mas o projeto começa a ganhar uma forma mais complexa na concepção do show, um mega sarau, com múltiplas linguagens, teatro, circo, poesia e música. Algo que só seria possível de viabilizar se fosse um sonho compartilhado, um projeto coletivo, mais próximo do modelo de uma companhia teatral, sem músicos contratados, como uma trupe. A proposta do show é proporcionar ao público um tipo de imersão que só a mistura de linguagens pode oferecer. No início, era mais teatro que circo, com alguma poesia, pois ainda não existia estrutura para trapezistas e acrobacias. Com o tempo, o projeto foi incorporando mais elementos da linguagem circense. Por outro lado, com o crescimento do projeto, não tinha mais sentido encará-lo como um trabalho solo do Fernando. Como outro reflexo da cultura das redes, o TM começa a experimentar um modelo colaborativo, ainda híbrido, que possivelmente deve gerar alguma tensão entre os componentes, pois, como toda inovação, desconcerta e é inominável. Aqui o risco permanente é ceder aos modelos convencionais de estruturação, que muitas vezes são necessários para a sustentação de projetos complexos como o da trupe.

O TM foi crescendo de forma intuitiva, fazendo o que era possível, por isso o uso das redes foi um processo natural. Como todos os jovens dessa geração, a trupe também usa as ferramentas que tem para juntar a galera que quer curtir um som: orkut, msn e e-mails foram gerando feedbacks de shows e alimentando o boca a boca. Com isso se estabeleceu uma rotina de contato direto com o público. Inicialmente, o pouco dinheiro que entrava era reinvestido para fazer mais shows. “Comendo pelas beiradas”, priorizaram o entorno de São Paulo, fazendo shows no ABC e em outras cidades. Sem preconceitos, buscando dialogar com o público esquecido pela cultura hype dos centros urbanos.

Em alguns shows, distribuíam CDS de graça, em outros, vendiam a preços acessíveis, R$ 5. Os cds e dvds são licenciados em creative commons. Em busca de uma plataforma para disponibilizar suas músicas, começaram a usar sistemas como o Palco mp3 e o da Trama Virtual, que com o tempo se demonstrou uma solução interessante, gerando visibilidade e renda para o projeto. (Apesar de não ser muito claro o tipo de licenciamento dessas plataformas). O sistema da Trama permite fazer um ranking de músicas ouvidas e baixadas, com isso, as bandas podem ser remuneradas proporcionalmente através de cotas de publicidade. Esse modelo é chamado de download remunerado. Um aspecto interessante desse modelo é que ele permite aos fãs uma forma de estimular e apoiar suas bandas preferidas. No caso do TM, a solidariedade do público é impressionante, fazendo com que várias músicas do TM fiquem entre as primeiras colocações. Esse público também ajuda nas turnês, sugerindo locais e colaborando com a logística, numa espécie de pré-crowdsourcing. A trupe até fez uma música colaborativa usando o twitter, veja aqui.

Atualmente a sustentabilidade da trupe vem principalmente dos shows, mas também comercializam produtos como CDs, DVDs, camisetas, etc., no site e nos shows. O projeto envolve uma equipe de mais ou menos 30 profissionais entre músicos, artistas, técnicos. O TM já recebeu apoio de empresas (como Itaú Cultural) e as vezes capta recursos com apoio da Lei Rouanet. Estima-se 300 mil cds vendidos. Na comunidade do orkut já são mais de 100 mil membros, no canal do youtube seu video mais visto tem 67.749 exibições, no Twitter, o perfil é seguido por mais de 72 mil seguidores e a fan page do Facebook já tem mais de 56 mil fãs. Apesar das críticas ao sistema os músicos são vinculados a entidades de classe, como a Ordem dos Músicos. Para gerir tudo isso o projeto tem duas empresas formais, uma cuida da comercialização de produtos e outra da produção. Com isso podem participar de editais e comercializar cds e dvds.

Nesse meio tempo, o cenário político no Brasil foi mudando, entra Lula e, na área da cultura, surge o MinC do Gil trazendo a pauta da cultura livre, da descentralização e da conexão entre centro e periferia. Os caminhos se cruzam. Gustavo, que estudava sociologia na USP, começou a participar de eventos e debates sobre cultura livre e digital, os links foram naturais. Hoje a trupe faz parte do movimento Música Pra Baixar (MPB) que luta pela democratização da cultura, através do acesso livre e do direito à banda larga. Nesse contexto, a pirataria e a troca de arquivos na rede são formas de hackear o sistema da indústria cultural.

Todos os discos do TM são disponibilizados nas redes, podem ser pirateados, remixados e até comercializados por camelôs numa boa, sem grilos. Para eles, tudo isso faz parte de um horizonte maior e são indícios de mudança profundas em nossa sociedade. Por isso batem de frente com o esquema dos jabás e conchavos da grande mídia. Seu público “tá ligado” e apoia sua independência, só não ousem parar de tocar... E esse talvez seja seu principal laço e lastro, seu único compromisso é com o público e sua liberdade é o diálogo. Boa parte do seu público é a perifa de classe média, sem medo de ser feliz. Essa relação direta do TM com o seu público é, sem dúvida, uma grande lição para todos os artistas que estão perdendo o sono, com medo de morrerem de fome e não serem amados. Como diz o mago Paulo Coelho, lute por seus sonhos e seus sonhos lutarão por você. Se você achou isso piegas, atenção: o primeiro passo da revolução é perder o medo do ridículo, saber rir de si mesmo. Esse é o caminho, meu chapa. O TM é uma pedra colorida e rodopiante no telhado de vidro da arte sem sumo. A mensagem é clara, como diziam os Saltimbancos: “Todos juntos somos fortes/Somos flecha e somos arco/Todos nós no mesmo barco/Não há nada pra temer”.

Site da trupe - http://oteatromagico.mus.br/

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