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A pendenga de Caetano

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Rodrigo Ortega · Belo Horizonte, MG
14/6/2006 · 59 · 5
 

Se todo crítico de arte é um artista frustrado, Caetano Veloso inverte a regra: suas idéias costumam ser mais bem recebidas em forma de música do que em seus verborrágicos discursos. É moda na imprensa brasileira rechaçar ou ignorar as extensas declarações do doce-bárbaro. A imagem que se tem é de que ele sempre viaja errado, desenvolvendo longas teses sobre temas como a beleza de Osama Bin Laden ou o futuro do neo-concretismo. Por isso me surpreende a lucidez desconcertante do comentário tecido por Caê em seu livro "Verdade Tropical" (Cia. das Letras, 1997), no seguinte trecho, que me permito transcrever:

"Um dos meus escrúpulos mais recentes tem sido, desde esses tempos referidos como heróicos, o de submeter todas as minhas pretensões à pergunta: em que medida a oportunidade que se me ofereceu de brilhar como grande figura na história recente da MPB se deve à queda de nível de exigência promovida pela mesma onda de ostensiva massificação que eu contribuí para criar?".

A pergunta do cantor baiano resume surpreendentemente bem a pendenga que se instalou na música brasileira desde a passagem do anticiclone tropicalista por estas bandas. Não tanto por assumir a criação de uma "onda de ostensiva massificação" na tal "MPB", mas por transparecer uma hesitação de consciência em relação a isso.

Críticos mais severos, com razoável facilidade, identificariam no comentário de Caetano seu indisfarçável pedantismo. É bem provável, por exemplo, que o jornalista Álvaro Pereira Júnior ("Escuta Aqui", da Folha de S. Paulo) encontrasse no trecho ainda mais razões para o genial achincalhamento da "MPB" que ele promove habitualmente.

Citando o crítico americano Greil Marcus, Álvaro elogiou certa vez Roberto Carlos, por não ser um artista que "pisca" para ele. Ou seja, não é um músico que gosta de parecer "simples e despojado", mas depois faz questão de piscar, para deixar claro: "Na verdade, sou um grande intelectual cheio de projetos artísticos". Com certeza, ele incluiria Caetano e várias gerações posteriores de músicos brasileiros no rol dos "artistas que piscam".

Outro comentário relevante do jornalista diz respeito à falta de tradição de cultura pop no Brasil. Para ele, esse tipo de cultura deve explorar o fértil terreno que existe entre os fenômenos extremamente populares e aqueles reconhecidos como de alta cultura. Mas nosso país costuma ter apenas os dois extremos, com a agravante de a "alta cultura" ser uma farsa, "uma liga pretensiosa de formas musicais populares com verniz erudito".

O problema se apresenta, em termos práticos, na transformação da produção industrial de música popular brasileira, desde os anos 70, em sinônimo de arranjos cafonas e plastificados, tentando traduzir com incompetência e atraso as novidades do pop mundial, com letras invariavelmente pretensiosas e inevitavelmente entediantes.

Essa tem sido a história da MPB ditada pelos pós-tropicalistas, desde o "revolucionário" Clube da Esquina até o "gênio" Zeca Baleiro. Determinados artistas são endeusados, até que se descubra o blefe de sua genialidade ou a moda agonizante que eles copiam morra de vez, deixando os antigos fãs cheios de vergonha interna por terem caído em tal engodo. Ou, no pior caso, eles continuam enganando e djavaneando por décadas..

O reconhecimento atual dos "não piscantes" Roberto Carlos, Jorge Ben e Paulinho da Viola, como no livro de Pedro Alexandre Sanches "Tropicalismo - Decadência bonita do samba" (Ed. Boitempo, 2000), indica o esgotamento do malfadado ciclo e a tentativa de sair desse mato sem cachorro onde Caetano nos abandonou. Apesar de certo charme no saudosismo e prazer em reabilitar artistas injustiçados, é impossível apagar e reescrever trinta e cinco anos de produção cultural. Corre-se o risco de, em nome da renovação, ficarmos na mesma ou piorar as coisas ainda mais, vide atuais sambistas-rock malas.

Compreender o significado e a importância da revolução que comandaram Caê, Gil, Mutantes, Duprat e seus asseclas, destruindo genialmente os conceitos que anteriormente guiavam a música brasileira, talvez seja um caminho mais razoável para saber de onde, exatamente, surgiu esse escrúpulo de Caetano que trava há tanto tempo a tão potencialmente criativa produção musical do país.

Nesse sentido, nem a autocrítica de Caetano, nem o radicalismo de Álvaro Pereira Júnior, nem os rigorosos estudos de Pedro Alexandre Sanches e nem mesmo louváveis e isolados esforços práticos como os de Chico Science, nos levam ainda a uma conclusão satisfatória ou saída definitiva para resolver a enorme pendenga que herdamos de Caetano.

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Rodrigo Teixeira
 

Rodrigo, meu charáaa... adorei! Eu já penso nisso faz um bom tempo. E cada vez mais chego a conclusão - quando os escandalos envolvendo o PT não surtiram efeito nos bons de bola da MPB (todos ficaram na encolha, não se posicionaram realmente e fortemente) e escutei o último disco do Chico Buarque tive a certeza, de q é preciso reciclar. Chega de endeusar, de escutar as mesmas músicas, de ouvir a mesma lenga-lenga destes caras que dominam a cena musical do país desde os anos 60. Tá na hora de ter tesão por outros artistas, ter outros ídolos, ter outra estética, ter outra onda para surfar... sem esquecer do valor q estes caras tiveram, mas chega! Q venham os novos tudo: críticos, músicos, médicos, engenheiros, loucos e caretas...

Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 14/6/2006 19:39
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Rodrigo James
 

xará, muito bom o seu texto, mas me leva novamente aos mesmos pontos de sempre:
1. qualidade? o que é isso? quem diz o que é qualidade? caetano ou o seu zé da esquina? quantas qualidades existem? eu, por exemplo, acho que Clube da Esquina é muito mais valioso musicalmente do que toda a Tropicália. E aí?
2. caetano às vezes tem razão. às vezes.
3. por último, só uma dúvida: foi impressão minha ou vc realmente disse que o último sopro de criatividade na mpb - ou como queiram chamar a música.....popular......brasileira - foi a tropicália?
abs,
james

Rodrigo James · Belo Horizonte, MG 19/6/2006 16:46
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Rodrigo Ortega
 

pois eh james, essa questão da qualidade coça muito na minha cabeça. pra mim, quem diz o q é qualidade é o ouvinte. mas isso não nos impede de trocar impressões, senão eu não escreveria aqui e ali.
mas eu não disse q o último sopro de criatividade da mpb foi a tropicália, e sim q ela foi um sopro de criatividade e depois um muro para a mudança e a criatividade. mas claro q existiram coisas criativas, e outras q eu nem conheço.
mas olha só a definição de tropicália no allmusic.com: "But tropicalia lasted for only a few years -- the style expanded and is better known today as musica popular Brasileira (MPB)".

Rodrigo Ortega · Belo Horizonte, MG 2/9/2006 10:31
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paulokauim
 

ou não

paulokauim · Brasília, DF 26/10/2006 23:21
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Rodrigo Ortega
 

paulo,
desculpe mas seu comentário não será considerado. você deveria ter percebido que só rodrigos podem opinar aqui.
obrigado.

Rodrigo Ortega · Belo Horizonte, MG 27/10/2006 09:24
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