Quarta-feira, 25 de abril de 2007. Aproveito que não haverá aula na universidade para iniciar o levantamento de informações de uma pauta que caiu em minhas mãos. Tema: Discutir a relação entre museus e turismo em Sergipe, dando um maior enfoque à capital Aracaju.
Por onde começar? Procuro a lista telefônica a fim de confirmar os números para contato que me foram passados. Folheio até a seção Museus nas páginas amarelas e encontro apenas um nome listado para a cidade de Aracaju. Ligo para o número e o telefone toca sem resposta. Havia tentado entrar em contato com o Memorial de Sergipe, mantido pela Universidade Tiradentes (Unit).
Decido, então, concentrar-me no Museu do Homem Sergipano (Muhse), que, por sua vez, é vinculado à Universidade Federal de Sergipe (UFS). Entro em contato para saber se minha fonte, a professora Terezinha Oliva, poderia me atender naquele momento. Resolvida minha dúvida, saio de casa às pressas: são quase 16h e o museu fecharia dentro de uma hora.
O ônibus que pego está impossibilitado de entrar na avenida que me deixaria próximo ao museu. Professores da rede estadual de ensino estão fazendo uma marcha pelas principais ruas da capital sergipana, tentando alertar a sociedade sobre a precária infra-estrutura de que dispõem e os baixos níveis salariais. Dessa forma, tenho que caminhar por quase 20 minutos até finalmente avistar o Museu do Homem Sergipano (Muhse).
Museu do Homem Sergipano
O Museu de Antropologia, como foi denominado inicialmente, surgiu em 1978 como órgão suplementar da Pró-Reitoria de Extensão e Assuntos Comunitários (Proex) da Universidade Federal de Sergipe (UFS). A idéia da criação de um espaço museal partiu dos professores do antigo Departamento de Psicologia, Sociologia e Antropologia (DPS) da universidade. “Esses professores desejaram expandir para o público as pesquisas que realizavam. Isso num momento especial, porque foi quando o povo xocó estava lutando para ser reconhecido como índio”, lembra Terezinha Oliva, diretora do Muhse desde novembro de 2004. Foi somente no ano de 1996 que o museu passou a ocupar prédio próprio, localizado à Rua Estância, 228. Até então, funcionava como um museu ambulante, pois somente realizava exposições de textos, documentos e fotografias, ou seja, produções que podiam circular.
Oliva define como frágil a relação entre museus e turismo em Aracaju. “A gente ouve falar muito que o turismo seria uma das vocações de Sergipe, que tem crescido a divulgação do estado fora daqui, mas os museus ainda participam muito pouco ou quase nada desse movimento”, define a professora.
Segundo dados encontrados no site do Muhse, em 2005 o museu recebeu um total de 10.571 mil visitantes. Terezinha Oliva estima que, em 2006, este número subiu para 16 mil, sendo grande parte do público oriundo de escolas, por conta do projeto Museu Escola. “Público para museu tem que ser acostumado, educado. Como a gente não tem o costume de ter essa educação na família, então a escola tem que fazer isso”, argumenta.
Pergunto à professora o porquê de não ter gente de fora do estado visitando os nossos museus. Em suas palavras, “primeiro porque os guias não têm incluído os museus em seus roteiros, salvo, às vezes, São Cristóvão e Laranjeiras, porque eles já levam os turistas para lá. Mas, em Aracaju, o turismo tem sido principalmente de sol e praia”.
O que está sendo feito
Naquele mesmo dia 25 começava a oficina “Museus e Turismo”, de onde surgiu toda a idéia para esta matéria. Ministrada por Tânia Omena, presidente da Associação Brasileira de Bacharéis em Turismo do Rio de Janeiro e professora efetiva da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), a oficina teria a duração de três dias.
A proposta de Omena era trazer para o campo da museologia o turismo como uma forma de sustentação e, para que isso aconteça, é preciso saber operacionalizar com a dinâmica do mercado. Na visão da turismóloga, “para buscar o mercado de turistas de viagem formal, você tem que aprender a negociar e a trabalhar com os operadores de turismo e aqueles que estão na atividade de recepcionar o turista”.
Pergunto para Terezinha Oliva se ela me indica outra pessoa para falar sobre museus. Ela me dá o nome de Verônica Nunes.
Na universidade...
Verônica Nunes é professora do Departamento de História (DHI) da UFS e coordenadora do curso de Museologia, atuando na organização de propostas de trabalho e orientando a elaboração de programas do novo bacharelado. Na tentativa de agendar uma entrevista, ligo para a professora de meu celular, mas o pouco crédito que eu tinha esgota e a conversa é interrompida sem nenhuma definição. Só depois de recorrer ao telefone do DHI que marco com a professora na semana seguinte.
Na sala em que atende os graduandos do curso de História, a professora logo avisa que não tem um estudo recente sobre quem visita os museus de Sergipe. Porém, falando como uma profissional que trabalha com museus desde a época de estudante universitária, a hoje mestra afirma: “É preciso que os profissionais de turismo percebam as potencialidades dos museus”.
No entanto, Nunes admite que os museus dificilmente concorrerão economicamente com as praias, mas eles representam mais um atrativo para trazer turistas. “Tem que se pensar numa proposta turística, mas que os patrimônios e os museus possam estar inseridos nela”, defende a professora.
O outro lado
Se o que aqui se propõe é fazer jornalismo, cabe ao estudante que vos fala buscar o outro lado da história, representado por Irma Barbosa, presidente do Sindicato dos Guias de Turismo de Sergipe (Singtur/SE). Para ela, “existe uma excelente procura pelos museus das cidades históricas de São Cristóvão e Laranjeiras. Acontece que, nas datas festivas em que há um grande número de turistas em nosso estado, os referidos museus fecham suas portas. Os turistas acabam ficando decepcionados”.
Barbosa sugere que o Museu do Homem Sergipano e o Memorial de Sergipe poderiam fazer um boletim informativo para divulgação. “Durante nosso ‘city tour’, às vezes é difícil incluir no roteiro os museus, pois os turistas querem ir para o litoral sul logo depois”. Ela complementa dizendo que os museus deveriam trabalhar mais as informações com os guias.
Políticas públicas, parcerias privadas
Nenhum órgão público relacionado a Turismo investe no Museu do Homem Sergipano (Muhse) porque, segundo a diretora do museu, “legalmente, nenhum órgão estadual ou municipal pode investir num órgão federal”. As parcerias que ocorrem são pontuais, quando se deseja realizar eventos de objetivo comum, mas nada é destinado à aquisição de peças, por exemplo. Porém, de acordo com Terezinha Oliva, a universidade tem comprado algumas peças. “Pouca, mas tem comprado”, admite.
Nada exclui, no entanto, a possibilidade do firmamento de parcerias público-privadas para o investimento no Muhse. “A gente já tentou ir ao encontro do setor particular, mas é meio difícil. Ainda não há essa cultura de investimento em museus por parte de instituições privadas”, lembra Terezinha Oliva.
De acordo com Verônica Nunes, o que falta são políticas públicas. “Deve-se pensar o turismo e inserir os museus dentro dele”, aponta a professora.
Carlos, parabéns pela iniciativa de discutir o tema.
Quem trabalh ou já trabalhou em equipamento públicos conhece esse tipo de dificuldade.
O próximo passo seria aproveitar o espaço do Guia do Overmundo para divulgar o Museu e seus atrativos, se é que você já não o fez.
Tenho uma sugestão de edição, se der tempo: coloque as citações em itálico, pois como o texto é longo, ajuda a dar mais fôlego na leitura (descansa um pouco visualmente).
Abraços e quando tiver tempo, dê uma olhada nas minhas colaborações
Carlos, seja então bem-vindo ao Overmundo.
Está votado. Abraços
Parabéns pelo texto, Carlos.
Sugiro fazer um post para o Guia.
Abraço!
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