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Antes Arte do que Tarde

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Tati Magalhães · Maceió, AL
31/3/2006 · 105 · 3
 

Walter Salles já participou. Bertolucci os homenageou em Os sonhadores. João Batista de Andrade os utilizou como forma de divulgação para seu documentário Greve! e o premiado O Homem que virou suco. Bom, a pretensão dos garotos e garotas de Maceió não chega a tanto, mas é bem verdade que, desde a criação do cineclube Antes Arte do que Tarde, há dois anos, depois de décadas sem uma entidade do gênero na cidade, eles já aprenderam bem mais sobre como destrinchar um filme, analisar seu roteiro, direção de arte e fotografia... – o que pode contribuir para o fomento da produção da sétima arte em Alagoas.

Tudo começou com uma Oficina de Iniciação Cineclubista, durante o III Festival Universitário de Cultura e Arte (Fuca), na Universidade Federal de Alagoas, em novembro de 2003. A atividade foi coordenada pelo cineasta e atual diretor de Relações Institucionais da Associação dos Documentaristas Brasileiros (ABD), Hermano Figueredo. Naquela ocasião, a paixão pelo cinema e a desconstrução da linguagem cinematográfica foram os pontos de partida para a participação. Mas, conhecendo melhor o movimento cineclubista, os envolvidos se depararam com questões maiores, como a inacessibilidade da maioria da população ao cinema e o pouco espaço que lhe é dado enquanto arte e reflexão social. Embora permaneçam um pouco incertos quanto ao papel que devem cumprir (formação de público crítico?), deram um passo adiante na busca pela democratização do cinema e na utilização de filmes como ferramenta de debates.

Atualmente, o grupo está mudando de local de exibição: deixa o Espaço Cultural da Ufal, no Centro de Maceió, e passa para o Campus A.C Simões, no Tabuleiro dos Martins que, como toda universidade construída durante a ditadura, fica na saída da cidade. “Buscamos ainda firmar uma parceria com a reitoria para que o projeto atinja os estudantes universitários”, explica Ivan Freitas, estudante de letras e um dos fundadores do cineclube. Em fevereiro, exibiram no auditório da instituição algumas produções do polêmico Dogma 95, assinado por Lars Von Trier e Thomas Vintenberg, mas esbarraram na burocracia para agendar o ciclo do Expressionismo Alemão para março. É que a Pró-Reitoria de Extensão indicou que a marcação do auditório deveria ser feita mensalmente. Quando voltaram lá, outro grupo (só que político) havia conseguido agendar, por três meses (!) a exibição de filmes no mesmo horário e local onde os garotos haviam planejado (e divulgado). Algo um tanto estranho de se entender, mas não tanto se somarmos a conjuntura política complicada de uma eleição de DCE e o fato de que o público universitário vinha crescendo no espaço recém-direcionado. O acontecimento, claro, deixou-os meio abalados e em fase de rediscussão das metas e estratégias.

Mas voltemos ao histórico: os contatos com outros cineclubes – especialmente o pernambucano Barravento e o cearense Casa Amarela - também são mais uma forma de ir articulando o movimento no país, e pode ajudar a construir um circuito alternativo exibidor. Mas, para isso, o cineclube alagoano vai ter que concluir seu processo de registro, que anda emperrado desde sua criação. Outra novidade é a parceria com o Sesc, em finalização. Enquanto na Ufal, a proposta é realizar debates – característica essencial de um cineclube – lá a idéia é centrar fogo nas produções brasileiras, especialmente curtas e documentários. Ou seja, é ampliar o público que vê na arte cinematográfica algo mais que efeitos especiais. “Na Ufal, realizamos ciclos de diretores, o que ajuda a compreender melhor sua obra. Já no Sesc, a proposta é também divulgar o que se produz local e nacionalmente”, conta Bruno Jaborandy Maya, estudante de jornalismo e também fundador do cineclube.

Nunca é tarde para a arte

O nome surgiu por acaso. Em um momento de articulação do movimento cineclubista, em Rio Claro-SP, um dos apaixonados por cinema leu seu texto, que terminava com a frase que batizou o grupo alagoano. E a idéia é bem essa: um filme nunca se encerra quando acaba, assim como não começa quando se exibe. É preciso estar atento às elipses, decifrar as metáforas, conhecer a história do diretor, construir referências. Entrar e sair da história permite aos participantes, de certa forma, se sentir embebido por ela. E, mergulhado na trama das cenas, recontar o roteiro usando como pano de fundo um outro cenário, o da realidade. Afinal, a trajetória histórica dos cineclubes os apresenta como espaço de contestação, seja ela social, política ou artística.

Tanto é verdade que, durante a ditadura brasileira, muitos cineclubes tiveram suas sedes invadidas. Segundo Hermano Figueredo, o grande número de cineclubes no País nas décadas passadas foi responsável por um movimento de contestação e resistência ao regime militar. Embora em um período próximo à anistia, o filme Greve!, de João Batista de Andrade, foi lançado pelo movimento cineclubista, ainda durante a greve dos metalúrgicos (1979). O filme, que retratava os acontecimentos da greve do ABC, cujas imagens a imprensa estava proibida de veicular, teve várias cópias apreendidas e seu autor ganhou um processo, desativado logo após a abertura política.

Agora, após um período de refluxo e desativação de diversos cineclubes, o movimento volta a se reorganizar; e as entidades, a se expandir. Aqui em Alagoas, além do Antes Arte do que Tarde, outros grupos também manifestam intenção em criar cineclubes. Entretanto, apesar de o movimento cineclubista não ter sido atuante aqui no Estado, algumas experiências nesse sentido foram realizadas nas décadas de 50 e 60, quando alunos da antiga Faculdade de Filosofia se reuniam na sede da antiga União Estadual dos Estudantes (Uesa), no Centro de Maceió. Segundo o crítico de cinema Elinaldo Barros, ele mesmo fez parte de um cineclube, juntamente com figuras como o ex-deputado, já falecido, José Bernardes, o crítico de artes Imanoel Caldas, o crítico de cinema e hoje professor da USP, Gildo Marçal e o professor da Ufal, Radjalma Cavalcante, dentre outros.

Programação

Os filmes que exibidos pelo cineclube Antes Arte do que Tarde são decididos pelos próprios membros, e vão desde clássicos do cinema, como O Encouraçado Potekim, de Sergei Eisenstein, até produções mais recentes, como o polêmico Nove canções, de Michael Winterbotton. Por lá também passaram os cineastas alagoanos, como Hermano e o seu Mirante-mercado.

A dinâmica de exibição é simples: são definidos ciclos, que podem ser de diretores, temas, países, épocas ou escolas cinematográficas. A sessão é aberta ao público, e após a exibição, o grupo discute as impressões de cada um sobre o que foi visto. Como cada pessoa assiste e absorve a mensagem de um filme a partir de suas próprias referências, a visão do outro acaba enriquecendo a discussão e lançando um outro olhar sobre a obra. Ou seja, é um aprendizado coletivo. O processo de organização também não é nem um pouco complexo.

“Uma pessoa fica responsável pela locação ou empréstimo do filme, assim como a reprodução de material escrito sobre ele, como ficha técnica, sinopse, prêmios e crítica”, explica Felipe Abreu Machado, estudante universitário e também membro do Cineclube. O material é distribuído para os espectadores e comentado ao final da película. Segundo Ivan Freitas, o universo abordado vai muito além do que é colocado no papel entregue ao público participante; discute-se o roteiro, contexto, a conjuntura na qual o filme se insere, além das questões técnicas, a cena que mais marcou e por quê. Se o ciclo for sobre um diretor, falamos sobre sua filmografia e fazemos paralelos entre o que foi exibido.

“O que impera, em Alagoas e em todo o País, é a exibição em salas localizadas nos Shopping Centers, com o valor do ingresso acima do poder aquisitivo da grande parte do povo e apresentando filmes de apelo comercial”, lamenta Bruno. Participando do cineclube desde sua primeira exibição, com o filme O cangaceiro, dirigido e roteirizado por Lima Barreto, com diálogos de Raquel de Queiroz, Bruno Maya acredita nos cineclubes como forma de democratizar a cultura e formar um público crítico. Não é um projeto ousado, nem ambicioso. É apenas o embrião de algo que pode ser bem maior do que se pretende. Porque a arte vem antes. E nunca é tarde para perceber isso.

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Aboiador
 

Fico impressionado coma sua capacidade laboral, Tati. Tantos textos, tantos temas e a mesma competência.

Aboiador · Maceió, AL 29/3/2006 14:29
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Sóstenes Lima
 

Eu já disse a mesma coisa a ela. O Golbery, que freqüenta o meu blog, também. Haja talento e competência. Parabéns de novo. E eu que queria ser cineasta...

Sóstenes Lima · Maceió, AL 3/4/2006 11:21
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Tati Magalhães
 

Agradeço os elogios e a participação de vocês...

Tati Magalhães · Maceió, AL 3/4/2006 13:53
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