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Carnaval e o Paradoxo Sócio-Econômico Brasileiro

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Rodrigo Lab · São Paulo, SP
22/2/2012 · 0 · 0
 

Esse ano, mais uma vez, ignorei o Carnaval. Não que tenha algo contra a alegria e o clima festivo típicos da época; não que tenha problema algum em ver o povo se divertir, de forma saudável ou não. Cada um que se divirta como queira, com a condição de que não infrinja os direitos alheios.

É que o Carnaval sempre me causou uma certa indigestão. O que me embrulha o estômago é a demonstração pública, ultra-televisionada, da estranhíssima relação vigente entre governantes e governados, milionários e miseráveis de ignorância compatível e poder econômico inversamente proporcional. O Carnaval, pra mim, é símbolo latente do paradoxo sócio-econômico brasileiro.

O Brasil ocupa a posição de sexta maior economia do mundo: nosso PIB recentemente ultrapassou o do Reino Unido em US$37 bilhões. Infelizmente isso não quer dizer, nem de longe, que somos um país rico, ou que o brasileiro tem uma qualidade de vida no mínimo razoável. Mas poderia.

Quando digo "o brasileiro," me refiro aos 51% da população com renda mensal assustadoramente abaixo de $900 Reais, cerca de 57 milhões de pessoas. Como se vive com menos de $900 Reais por mês no Brasil? Pergunte a seu Zé quando ele for buscar o seu lixo amanhã. Pergunte a dona Carmen enquanto ela faz a faxina semana que vem. Eles são "o brasileiro." Você e eu somos a minoria que abstrai, apesar do nosso nível de abstração não ser tão grande a ponto de vivermos por trás de portas blindadas e cercas elétricas. Mas estamos trabalhando pra chegar lá.

Outro dia li numa Super Interessante que "No atual ritmo de crescimento e distribuição de renda, o Brasil vai levar 304 anos para atingir o mesmo nível de distribuição de renda dos países ricos." Na mesma reportagem, Olavo Egydio Setúbal, ex-presidente do Banco Itaú, resume: "A distribuição de renda gerou dois países: o Brasil Rico e o Brasil Pobre. O primeiro não quer pagar para que o segundo atinja um nível maior de desenvolvimento. E os ricos são difíceis de tributar." E agora?

Se o povo um dia acorda desse transe, boa sorte aos ricos. Nós da classe média continuaremos a assistir sem fazer porra nenhuma, como sempre. Se muito, vamos nos preocupar em fazer o possível para manter o nosso nível de vida meia-boca, naquela velha ilusão de que uma roupinha da moda, um carrinho bacana, a última versão de alguma engenhoca inútil da Apple, e tá tudo bem. Como agora.

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