Sempre ouço as seguintes frases, muitas vezes proferidas por pessoas esclarecidas em outros assuntos:
“O Cinema brasileiro está começando a ficar bom”;
“Cinema brasileiro já está ganhando prêmios”;
“O Cinema brasileiro agora é bom” e a pior de todas, mas não rara:
“Posso te indicar um filme bom, mas é nacional”.
As premiações são parte de um processo e são importantes, mas isto não quer dizer que um filme não seja bom, porque não ganhou os maiores prêmios.
O Cinema brasileiro é literalmente mal visto pela população brasileira.
Assim como em demais segmentos culturais, as estatísticas referentes ao público brasileiro são alarmantes.
Para que se tenha noção de um panorama cultural do país, e para que se possa compará-lo diante de outras nações, visite o banco de dados estatísticos da UNESCO, que infelizmente não está atualizado.
http://stats.uis.unesco.org/unesco/ReportFolders/ReportFolders.aspx
Não podemos nos esquecer de que nosso mercado, estando a serviço do americano, possui uma estimativa de público para filmes brasileiros ainda menor e contraditoriamente, um tempo de permanência de exibição para os filmes brasileiros bem reduzido.
Gostaria de lembrar que durante o mandato do Ex-Presidente Fernando Collor, o Ministério da Cultura foi exterminado e transformado praticamente em Secretaria, desinstitucionalizando e erradicando como doença a Embrafilme, o que nos deixou por vários anos sem a produção de um único longa metragem.
O filme Carlota Joaquina, Princesa do Brazil (1995) de Carla Camurati foi o estandarte desta retomada de produção, que se tornou muito regular nos últimos anos.
Como algumas pessoas ainda conseguem criticar nosso cinema, desconhecendo sua história?
Se um filme é de caráter social, dizem que estão aproveitando das mazelas de nosso povo. Se o filme é uma comédia, preferem torcer o nariz. Aliás era na comédia, na chanchada brasileira, que o Brasil ainda contava com uma indústria cinematográfica e um público fiel, um público de massa.
Só para dar um exemplo qualitativo, cito o caso do José Saramago, primeiro escritor de língua portuguesa a ganhar o prêmio Nobel de Literatura, que nunca havia permitido, embora tivesse recebido muitos pedidos e ofertas de todo o mundo, que suas obras fossem adaptadas para o Cinema, entretanto, acabou permitindo ao Fernando Meirelles que filmasse um de seus livros mais importantes: “O Ensaio sobre a Cegueira”.
Outro diretor brasileiro, Walter Salles, assumiu a responsabilidade de filmar “On the Road” de Jack Kerouac, definitivamente o livro mais importante da contracultura americana dos últimos tempos. Este filme poderia ser filmado naturalmente por americanos: Oliver Stone, Steven Spielberg ou diretores americanos experientes em “road movies” poderiam ter recebido o convite para fazerem este filme.
Como se vê, nossa excelência cinematográfica conseguiu vencer as barreiras geográficas. Estes realizadores não são mais vistos como “cineastas brasileiros”, mas como diretores genuínos e talentosos, integrados ao que posso chamar de Patrimônio do Cinema Mundial.
Portanto, o grande problema é basicamente o de público. O custo médio de um ingresso é inviável para as camadas mais carentes da população. Ir ao cinema torna-se algo extravagante e supérfluo, partindo de um ponto de vista financeiro, preocupação latente na vida destas pessoas.
Em países como a Coréia, por exemplo, cerca de 13 milhões de pessoas chegam a assistir a um único filme coreano, sendo que a população do país está na casa dos 50 milhões. (Fonte: Baptista/Mascarello em Cinema mundial contemporâneo, 2008.)
A Nigéria possui uma capacidade produtiva, ainda que muitas vezes precária, invejável. A França consegue manter cerca de 30% de cinema genuinamente francês em suas salas de exibição.
Hoje os realizadores brasileiros produzem, sendo que em algumas vezes, nem chegam a exibir seus filmes fora dos circuitos de festivais, ficando as produções estagnadas, dependendo exclusivamente de vendas de lotes de DVDs.
Desta forma, acabam eles próprios sem uma justificativa para o próprio esforço produtivo. Felizmente, existe uma cultura entre cineastas brasileiros, onde muitos fazem cinema por “teimosia”, por terem coragem de encarar a realidade social do país e é claro, por vontade, necessidade de se fazer filmes, acreditando que são indispensáveis para a reflexão de nossa própria história.
Nosso Cinema sempre ganhou prêmios, sempre foi bem criticado internacionalmente. Conseguimos através do processo do Cinema Novo, criar uma nova forma de pensar a estética cinematográfica, de reconstruir a realidade e de gerar polêmica.
Influenciamos em grande parte o neo-realismo italiano e por exemplo, o novo cinema alemão.
Falta-nos um processo de democratização de ferramental cinematográfico, agora facilitado pelas novas formas digitais de captação, mas ainda muito elitizadas. Se faz também necessária uma nova forma de escoamento da produção, hoje possibilitada também pela Internet, políticas públicas culturais mais eficazes, dentre outras coisas.
Não tenho grandes pretensões com este texto, a não ser de buscar instigar a platéia de cinema adormecida ou não do Overmundo. Irei me arriscar em sugerir três possíveis caminhos para maior conscientização e fidelização de público no Brasil:
a) O trabalho permanente de exibição e debates sobre filmes nas escolas, inserindo os filmes nacionais em projetos educativos como o “Escola Aberta” da UNESCO e Pontos de Cultura do MinC, levando os jovens para assistirem aos filmes, livrando-os da violência familiar e das ruas e possibilitando uma forma de entretenimento gratuito.
b) A promoção de um número maior de oficinas, colaborando para a aprendizagem e capacitação de adolescentes e adultos à prática áudio-visual. Afinal, se o cinema no país é feito pelo beneficiamento de leis municipais, estaduais e federais de incentivo à cultura, nada mais justo do que proporcionar ao público comum, mas interessado, uma oportunidade de prática áudio-visual.
c) A divulgação dos Cineclubes brasileiros. Estas entidades atualmente estão em fase de organização pelo “Movimento de Acesso ao Cinema Brasileiro” do Ministério da Cultura. Deste movimento nasceu a Programadora Brasil, entidade governamental responsável pela catalogação, organização e fornecimento de acervo aos cineclubes brasileiros. Para que estes esforços valham a pena, os cineclubistas e seus freqüentadores devem convidar amplamente o público, favorecendo troca de conhecimentos entre a crítica cinematográfica, novos realizadores e o espectador em geral.
Com isto, acho que conseguiremos caminhar lentamente por terra firme, até conseguirmos novamente uma fatia satisfatória de um público consciente, criticamente formado, que valorize e tenha orgulho de nosso cinema, atividade que ainda hoje não garante a seus profissionais uma rentabilidade e um tipo de segurança satisfatória.
Ao invés de esperar que o público vá ao cinema, deve-se buscar atingir o público. Estando perto dele e conhecendo-o melhor, os gestores culturais terão condições favoráveis para atuarem junto dos realizadores, que poderão fazer ainda melhores produtos culturais.
Para refletir:
Quantos filmes nacionais você assistiu este ano? Quais foram eles? Você já conhece todos os cineclubes de sua cidade?
Caso seu município seja menor e não possua um cineclube, não seria este o momento ideal para criá-lo?
Comente sobre os cineclubes com seus amigos, os convide, seja um freqüentador destes importantes espaços culturais. O cinema brasileiro é feito para você e como diz um ditado popular:
"O que não é visto, não é desejado."
Excelente matéria, Drigo! A questão do Cinema no Brasil está qualidade das produções e quantidade de divulgação. Quanto mais Festivais de Cinema e Incentivo à Cultura no País, mais público teremos. Brasileiro gosta de Cinema. Foi-se o tempo em que se aceitava qualquer "enlatado" americano. Precisamos de mais salas populares, com preços mais acessíveis, tornar o Cinema mais acessível à todas as classes. Heis a questão!
crispinga · Nova Friburgo, RJ 20/9/2008 12:55
Rodrigo- Parabens!!!
Chegou a hora de discutir o cinema brasileiro.
1- de 1.961 a 1.980 meu pai o Mazzaropi produziu com recursos próprios 24 filmes dos quais 18 estão entre os filmes mais assistidos do cinema nacional. 06 são recordista de publico e o filmes Jeca Macumbeiro é o maior recordista de publico e renda da historia do cinema nacional colocou em 4 semanas de lançamento 16.800.000 pessoas pagantes em 4 semanas de exibição, igualando ao maior recordista mundial de publico, que é o filmes O Tubarão no Brasil colocou 16.600.000 nas mesmas 4 semanas todos em 1.975.
Em nossos cardez, (PAM FILMES)- (Controle de exibição -Praça-Publico e renda - o filmes Casinha Pequenina colocou de seu lançamento 1.963 á 1.983 - quando a Pam Filmes fechou, 93.867.000 de pessoas - equivalente a toda a população do Pais). sem contar os outros filmes que atinguram neste periodo 178.779.300-) .
Em Julho de 1.981 - um mes da morte de Mazzaropi no cardez da Pam Filmes existiam cadastrados 11.648 salas de exibição no Brasil, sendo que apenas 48 cinemas tinha mais de uma sala, com média de 800 lugares. Havia naquela época cinemas com salas entre 500 e 3.000 - caso do Penharama-SP.
Bom, tudo isto pra contar um pouco da minha história, é claro do nosso saudoso Amácio Mazzaropi-.
Hoje ninguem sabe ao certo quantas salas existem; extima-se em torno de 1.500 salas entre 150 e 500 lugares.
Nada foi feito pelo poderpublico nestes 27 anos sem Mazzaropi para preservar sua história; algumas ações feitas ainda são muito pouco, eu André Luiz Mazzaropi, Hotel Fazenda Mazzaropi em Taubaté-SP, Santiago, Carlos Garcia, Hebe, Ratinho e o Rau Gil, ainda fazenmos algumas ações.
Para revertermos esta falta de cinema (salas de exibição) no Brasil é preciso fazer o b;a;ba - levar o cinema nas escolas de ensino fundamental exibindo em seus patios filmes nacional de todos os tempos da Vera Cruz aos Dois Filho de Francisco e outros muitos bom filmes quem vem vindo por ai.
Eu tenho um projeto cultural que levo pelo Brasil a fora a Mostra de Cinema Mazzaropi onde exibo em média 10 filmes do Mazzaropi alias sempre os 04 que participei como O Filho do Jeca. Mais ainda é muito pouco.
Tenho certeza que estamos iniciando um nova e bela faze do Cinema Brasileiro com tantos lançamento.
Em 2.009 estarei produzindo meu 01 filme como produtor - O Filho do Jeca.
abraços a todos
André Luiz Mazzaropi
alt@vivax.com.br
Pertinente e de bom conteúdo. Lembrando que o período em que a cultura foi mais perseguida, esculhambada, censurada e vilipendiada no Brasil foi no período da Ditadura Militar. Voto com alegria quando se fala de cinema brasileiro.
Diacui Pataxo · Ilhéus, BA 20/9/2008 15:15
Drigo, parabéns pelo teu texto. Sempre e bom lembrar da qualidade do cinema brasileiro.
não é questão de público. é de distribuição. excelente, drigo
Compulsão Diária · São Paulo, SP 21/9/2008 17:08
Que bom que vocês gostaram da análise e da forma como abordei o tema.
Salve André Luiz. Obrigado pelas estatísticas mais "precisas" e atualizadas. Seu pai é um patrimônio da História nacional. Se nada foi feito para preservar de forma decente a memória deste grande homem, você está colocando as mãos na massa e fazendo a coisa acontecer. Isto prova sua atitude transformadora com relação à memória de nosso Cinema. Precisamos de mais pessoas como você! Ainda sobre o projeto, não deixem de vir à Minas. Quando vierem, me avisem.
Diacui, bem lembrado. Com certeza nossa cultura sofreu bastante com a Ditadura Militar. Aos interessados pelo processo de censura, existe um grande site dedicado à memória da censura no cinema brasileiro: http://www.memoriacinebr.com.br/
"Compulsão" rs. Que bom que gostou. Como tentei explicar, não quis jogar a culpa na população brasileira. O problema é relacionado ao público na medida em que não são exercidas políticas de distribuição eficientes.
Nosso amigo Mazzaropi já está fazendo um trabalho dentro daquilo que eu havia colocado como sendo uma das formas de se equacionar o problema. Espero que o texto desperte nas pessoas uma certa vontade e o orgulho de nossas produções.
Obrigado à todos pelo carinho. Beijos!
Excelente Drigo e to feliz que tenha publicado com louvor
Ailuj · Niterói, RJ 21/9/2008 20:47
Obrigado...
Eu moro no japan, assito filmes nacionais, mas sem niguém para descutir....comentar.... vou montar um cine club aki... meu apartamento é pequeno.... mas sempre tem um jeito para o cinema nacional e estrangeiro ..
gostaria de ajuda,comentários como divulgar e montar meu cineclub.
valeu.;; abraz
Kiko, podemos discutir sobre o assunto. Estou longe de ser um especialista no tema e desconheço como funciona o movimento cineclubista japonês. Gostaria de aprender sobre isto também. Estando aí, será fácil para você descobir e então poderá me dizer.
Montar um cineclube hoje no Brasil é um pouco burocrático, a pessoa tem que ter uma associação registrada e filiada aos órgãos competentes. Citei no texto o caso da Programadora Brasil, que conveniada à Cinemateca Nacional, abastece alguns cineclubes.
Isto se dá pela questão de direitos autorais, uma vez que exibições públicas devem ser devidamente autorizadas pelos detentores destes direitos, mas é um esforço que se transforma em prazer, quando você nota o resultado e a satisfação das platéias envolvidas. É assim que percebo através daqueles que se dedicam a este tipo de atividade. Tem o meu e-mail/msn na página do perfil! depois me escreva. Abraço!
Colaboração do Pimentel Neto no Overmundo.
http://www.overmundo.com.br/overblog/falta-espaco-para-exibicao-de-filmes-brasileiros
Ele é Secretário Geral do CNC - Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros.
drigo,
Concordo com você. Totalmente. Me recordo bem que a minha paixão por cinema surgiu da facilidade enorme que eu tinha de assistir filmes. Havia, praticamente, um cineclube por bairro. Era avançado, moderno, assistir e comentar filmes (fazer nem tanto). Não sei se alguém falou da culpa da TV, que me ocorre as vezes, mas, me lembro que na década de 70, da qual me lembro, a TV já tinha bastante apelo popular e nada me impedia de ir ao cinema. Ingresso caro, será? Com certeza facilitar o acesso a filmes, do jeito que for, é uma solução bem pertinente.
Sei que não é uma questão fácil, talvez não haja uma produção de filmes populares bem antenada com o gosto do público, para sustentar financeiramente os filmes mais densos (a estética cinematográfica 'popular' mais recorrente é preguiçosa e subestima a inteligência popular pois imita, descaradamente a canhestra estética televisiva da Globo e seu padrão de 'qualidade')
Muito boa a sua reflexão e o tom dela, instigando-nos a refletir com você.
Abs
Ola, Kiko
meu nome eh Roberto Maxwell e eu tambem moro no Japao. Nao sei em que regiao vc mora. Eu moro na cidade de Shizuoka capital da provincia do mesmo nome. Estou, com um grupo de amigos de Tokyo, organizando um evento que tem um que de cineclube. Nossa terceira edicao ocorre no dia 5 de outubro e, caso seja possivel, poderemos nos conhecer e trocar ideias por la. Aqui no overmundo tem um texto sobre o evento http://www.overmundo.com.br/overblog/enrabando-o-japao
Nosso site tambem traz informacoes sobre os filmes q ja rolaram
www.therabadasport.wordpress.com
Estamos com um material bacana para mochilagens, com curtas brasileiros legendados em japones e autorizados para exibicao pelos realizadores, oportunidade bacana para atividades de intercambio tambem.
Um abraco
Oi Roberto
Achei muito interessante seu projeto, fiquei com uma vontade de participar, tenho uma paixao por filmes e produçoes independentes, gosto de acompanhar e quem sabe mais pra frente participar, nao tenho experiencia mas muita força de vontade
Queria ir no evento, sou de Nishio ache-kem muitoooooooooo longe,queria mais informaçoes por que vou fazer um grande esforço para participar. duas coisas que eu gosto. filmes e boa música!
Alias eu vi que vc tem umas produçoes, fiquei curioso... queria assitir, pricipalmente seu curtas!
Como eu faco para ter acesso?
espero sua resposta..!
abraz kiko
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