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Clube da Esquina: 35 anos depois

Divulgação
Um encontro de gerações do Clube da Esquina.
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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
16/12/2006 · 253 · 6
 

Após de 35 anos de lançamento do disco Clube da Esquina nº1, os diversos músicos que fizeram parte deles se encontram em dois dias de shows, em Belo Horizonte.

Um disco, a importância que um único disco pode ter para a história de toda uma geração. Os músicos, as suas obras e vidas registradas nos sulcos de um disco de vinil que acaba se tornando um símbolo de uma geração. O espírito de uma época, de um bairro, uma esquina, de encontros numa esquina, traduzidos em um simples disco.

O álbum Clube da Esquina nº 1 foi sem dúvida um divisor de águas da música brasileira. Ele trouxe inovações harmônicas e rítmicas para a época: as várias cores musicais do erudito de Wagner Tiso, do canto gregoriano do Milton Nascimento, o jazz de Toninho Horta e pop britânico de Beto Guedes e Lô Borges. Junte a isso as diferentes referências culturais do grupo: o cinema de Truffaut, filosofia existencialista de Sartre, a literatura beatnik, a cultura cigana, o estilo de vida do interior mineiro. O resultado é o estilo de música mais influente da música brasileira, depois da Bossa Nova.

Foi a partir da década de 60 que a música popular brasileira começou a mudar. A pluralidade de novos artistas que surgiram na época ainda é a mais importante na história da música popular do Brasil. Era um momento no qual todos estavam procurando dar eco às suas vozes, meio a uma grande repressão política e de liberdade de expressão.

A influência e a singularidade das músicas do Clube da Esquina o transformaram no mais importante movimento musical de Minas Gerais. Mesmo que de certa maneira ofuscado pelo Tropicalismo da dobradinha São Paulo – Bahia, os garotos do bairro Santa Tereza não foram por isso menos influentes para a música do Brasil e do mundo.

O disco Clube da Esquina nº 1 foi onde se condensaram todas essas influências e ânsias de conquistar os ouvidos do mundo, direto de uma esquina qualquer de Belo Horizonte, entre peladas na rua e goles de pinga. Milton Nascimento, Lô Borges e Toninho Horta eram as estrelas principais, sem dúvida, mas a presença dos demais músicos na gravação do disco foi imprescindível para dar vigor ao movimento.

Antes da música, a amizade

Essa foi a primeira geração de músicos a ficar em Belo Horizonte, que não precisou ir para Rio e São Paulo para ter uma carreira. Daqui só saíam para gravar e shows. Mas as raízes, bem fincadas no chão mineiro, eram refletidas nas letras e na maneira de compor: o “modus vivendi” local – o sobe e desce de morros, sempre de buteco em buteco –, as paisagens montanhosas, o ritmo bucólico e o silêncio de uma cidade grande com ares de interior.

A tal esquina é o cruzamento das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no Santa Tereza. Embora a história tenha começado mesmo no encontro entre os Borges, Milton e Wagner Tiso nas escadas da pensão do Edifício Levy, no centro da cidade, foi principalmente durante a vida no Santa Tereza que as coisas aconteceram.

“A timidez e a aversão aos holofotes da mídia jogaram a atenção para aquilo que sempre importou: a música. Como não havia essa coisa da profissionalização, de planejar fazer sucesso, as coisas foram sendo feitas pelo amor à música, pelo prazer de tocar junto e com os amigos”, conta Tavinho Moura.

O nome “clube” vem também da forma de se trabalhar: todos ajudavam, contribuíam com idéias e a música era o resultado de diversas cabeças, influências musicais pessoais e da amizade entre cada um deles. Á “formação” inicial que tinha Milton Nascimento, Wagner Tiso, Fernando Brant, Márcio Borges, Nivaldo Ornelas, Toninho Horta e Paulo Braga foram logo sendo agregados mais amigos e parentes. Essa forma aberta e hospitaleira de receber novos integrantes ao movimento foi e ainda é, sem dúvida, muito importante para a sua continuidade.

Os amigos que se conheceram por causa da música durante a adolescência cresceram tendo ao lado o prazer de tocar juntos. Mesmo que cada um levasse a sua carreira solo, os constantes encontros aconteciam pelas estradas e estúdios do mundo. Sempre presente estava o sentimento de tentar mais uma vez reunir todos num palco.

35 anos depois, o reencontro.

Para que houvesse espaço para tantas pessoas que fizeram parte do Clube da Esquina ao longo dos anos era necessário um local grande e ao menos dois dias, com muitas horas de palco. Amigos reunidos, instrumentos em mãos e um clima nostálgico revelado mineiramente nos sorrisos e abraços entre os artistas: as ruas que foram percorridas por cada um deles dobravam-se e ali, naquele local, formavam uma esquina imaginária.

Nos dias 8 e 9 de dezembro, última sexta-feira e sábado, encontraram-se, no Espaço Funarte Casa do Conde, mais de 80 músicos que representam mais de três décadas de história. São gerações com vários anos que as separam, mas que se unem pela identidade “esquineira” em comum.

“Durante muito tempo o Clube da Esquina ficou sem se reunir por causa da agenda. Mineiro tem isso de cada um ficar na sua, de trabalhar sozinho... e era um sonho poder reunir todo mundo assim de novo. A idéia é repetir esse encontro em outras cidades pelo país, para mostrarmos a força do movimento. É uma oportunidade para a geração mais nova conhecer mais o que foi feito”, explica Toninho Horta, o responsável pela organização do evento.

Milton e Lô, que não compareceram por conflitos de agenda, estavam ali representados pelas suas músicas, “abençoando espiritualmente os shows”, como prefere entender o organizador. Se as duas estrelas principais não puderam subir ao palco, outros tantos estavam presentes: Beto Guedes, Flávio Venturini, Luiz Alves, Márcio Borges, Marcos Vianna, Murilo Antunes, Nelson Ângelo, Nivaldo Ornelas, Paulinho Carvalho, Fernando Brant, etc, etc...

Nostalgias à parte, mais do que simplesmente subir e tocar aquelas canções, era preciso, de certa forma, voltar no tempo: um ajuste minucioso para que os instrumentos soassem como há décadas atrás, diversos familiares convidados para o clima informal e portas abertas ao público. A feliz "coincidência" de realizar o evento durante a comemoração do aniversário de Belo Horizonte foi mais um momento de reforçar a amizade e o contato entre os artistas e o público.



Mais sobre essa e outras histórias no site do Museu do Clube da Esquina. Definitivamente vale uma olhada. O material é rico, diverso e bem apresentado.

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DiogoFC
 

Massa! Mas, pô, teria sido legal divulgar antes do evento!!

DiogoFC · Criciúma, SC 18/12/2006 12:13
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Fabio Campos
 

Bela reportagem, super interessante e representativa. Vale para aqueles que pouco ou nada sabem sobre o "clube" e como uma curtição a mais para os que sabem muito sobre o movimento. Vale também a dica sobre o site do museu do clube da esquina, que é realmente super interessante. Parabéns!
Abraços,
Fabio Campos

Fabio Campos · Rio de Janeiro, RJ 26/12/2006 10:52
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Bruno Rabelo
 

Clube da Esquina é um disco denso e um dos melhores álbuns brasileiros já feitos. É atemporal.

Bruno Rabelo · Ananindeua, PA 5/1/2007 14:08
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Mestre Jeronimo - JC
 

Atrazado, mas tarde melhor que nunca... me deu alegria de ver essa publicacao, celebrando coisa de qualidade, que temos.

Parabens pra vc/s... pra nossa producao musical de qualidade, o BR merece!

Axe'

m.jc

Mestre Jeronimo - JC · Austrália , WW 22/7/2007 22:09
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alberan moraes
 

ESSE CLUBE ESSA ESQUINA ESSAS CABEÇAS BOAS DE MINAS
FIZERAM UMA LEGIÃO DE PENSADORES POR ESSE BRASIL AFORA QUE CRESCERAM E FORMARAM OUTROS CLUBES NOUTRAS ESQUINA ASSIM COMO A MINHA LÁ EM CRUZEIRO DO SUL NO ACRE,O PONTO MAIS OCIDENTAL DO PAÍS, ENTÃO NASCEU DE MIM UMA CANÇÃO TROPICAL FALANDO DE TUDO QUE EU VI QUE OUVI POR AQUI QUANDO MOREI E O POR QUE DE VIR PARA CÁ,
BELÔRIZONTE BEAGÁ...

alberan moraes · Cruzeiro do Sul, AC 19/5/2009 12:36
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vanzye
 

Eu adoro essa galera!! Conhecer a história e as realizações do Clube da Esquina é compreender o papel fundamental da cosmovisão interiorana na formação da identidade cultural brasileira. Como interiorano ainda muito cedo eu me encantei com o som desses caras. Li o livro de Márcio Borges a respeito e gostei bastante. Um dia encontrei Milton Nascimento no centro histórico em Salvador e não resisti ao desejo de abracá-lo e senti de perto um pouquinho da energia de Minas. Um dia vou acabar indo a BH para conhecer o bairro de Santa Teeza e a célebre esquina. Na adolescência, eu e meus amigos também tivemos a nossa esquina em Boa Nova, no sudoeste baiano. A identificação é total. Vida longa para esse pessoal!

vanzye · Salvador, BA 14/8/2010 11:54
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir

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