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Crime sobre molas

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cavalo_na_chuva · São Paulo, SP
9/3/2006 · 0 · 3
 

Ter Nike Shox é legal, mas pode custar até a vida nas ruas

O período de pesquisa para a concretização do projeto parece o mesmo que laboratórios levam para concluir a descoberta da cura de uma doença: 16 anos. A receita funcionou: vende milhões de pares ao redor do mundo. Tem quatro ou 12 molas e faz sucesso desde o jokey clube até o baile funk. Não é de beber ou comer, muito menos um produto revolucionário que vai deixar você mais gostosa ou bem dotado. Simplesmente um tênis. O Nike Shox é disparado nas prateleiras das lojas de material esportivo o tênis mais desejado e caro.

O preço de um Nike Shox pode variar entre 400 e 800 reais, dependendo a quantidade de molas e cores. Existem cores raríssimas e que valem um pouco mais quando vendidas no Brasil. Desse artifício a pirataria tira proveito. "Temos uma equipe de advogados atuando na internet e portos para apreender os modelos falsos", diz Kátia Gianone, gerente de comunicação da Nike no Brasil. Os piratas fabricam modelos com combinações de cores e costuras absurdas, jamais pensadas mesmo pelos designers da Nike. O charme de ter um Shox quase original, com uma cor que se quer os modelos genuínos tem, faz a cabeça de muita gente.

Quando até no mercado negro fica inacessível adquirir um Nike Shox, muitos atores sociais prostituem a própria personalidade em troca de um luxo, que pode se tornar um pesadelo de consumo. Roubando e até matando por um privilégio capitalista. Como aconteceu em Porto Alegre, em fevereiro de 2005. Dêniel Moraes Alves, 17 anos, foi morto por causa de um tênis, depois de entregar aos ladrões o que haviam lhe pedido. O objeto do roubo: um Nike Shox, avaliado em 700 reais. Duas pessoas foram responsabilizadas pelo latrocínio (roubo seguido de morte). Um dos assaltantes era menor, tem 16 anos e está detido desde fevereiro na Fundação de Amparo Sócio-Educativa(FASE, a Febem dos gaúchos), onde aguarda julgamento. Se condenado, cumprirá a pena na própria Fase.

Desenvolvido visando à elite do esporte, o Nike Shox conseguiu atingir também a elite financeira e despertar o desejo nas classes menos favorecidas pela economia global. "Atribuímos o sucesso do Nike Shox ao seu perfil de produto. É um produto de alta tecnologia, sofisticado. É inovador", aponta Gianone.

O Nike Shox passou de referência na sua categoria para um objeto que representa status entre adolescentes. Desfilar na academia com um modelo de Nike Shox e à noite usar outro para ir a festas tem um significado. "Eu não costumo andar de Nike, mas vai dizer que de vez em quando você não gosta de pagar nota com os panos da Nike? Já ouviu falar em status?" Essa declaração foi extraída de um grupo de discussão da comunidade Nike Shox, na rede de relacionamentos Orkut, que reúne diversas colocações deste teor sobre o assunto e dispara contra quem não pode ter um tênis. "Brother, aqui em Brasília parece que todos os pobres têm uma porra de um Shox falso. Se não bastasse, eles também andam com óculos falso, camisa falsa, bermuda falsa, enfim", internauta se referindo a um tópico que pergunta "quantos Nike Shox falsificados você vê por dia?", da comunidade Eu odeio Nike Shox falsificado. Daí para adiante é possível supor que a idéia de conseguir um tênis a qualquer custo, independente de como for, começa a se formular na cabeça de um adolescente que não seja tão abastado quanto o que fez esta observação.

O estudante José Fonseca, 19 anos, tem cinco modelos de Nike Shox. Coleção que resultou de viagens que sua mãe fez para fora do Brasil. Fonseca não acredita que o Shox seja uma referência de status para uma pessoa. "Apesar do preço alto, ele não é um indicador de status. É muito fácil conseguir Nike Shox no mercado informal", diz o estudante, que admite ter medo de usar o tênis em determinadas situações. "É um tênis muito visado pelos ladrões, por isso também é possível adquirir no mercado informal". Esse mercado citado pelo estudante é sustentado principalmente por adolescentes e tem origem nas margens das grandes cidades. Mercado do qual Dêniel foi uma vítima fatal.

Christian Nedel, delegado do Departamento Estadual da Criança e do Adolescente da Polícia Civil(DECA), que faz o trabalho de repressão e encaminha menores infratores a FASE, está verificando informações sobre grupos de adolescentes especializados em roubos de tênis na capital gaúcha. "Há informações de gangs de adolescentes que priorizam este tipo de assalto, justamente pelo retorno monetário que podem ter com a venda destes bens", afirma o delegado.

Os modelos mais visados são das marcas Nike e Reebok. Principalmente o Nike Shox, de acordo com o delegado, em função de seu alto valor de mercado. A maioria dos roubos é praticada por jovens de classe média baixa e baixa. Não é necessário ir muito longe para verificar a inserção desses artigos de luxo na cultura dos adolescentess que convivem com a realidade das periferas brasileiras. Com a reposta, a própria favela: "Cê disse que era bom/ E a favela ouviu,/ lá também tem/ Whiski e Red Bull,/ tênis Nike, fuzil". Versos extraídos da letra da música Negro Drama, de Mano Brown, mc do grupo paulista de rap Racionais Mc´s.

Mesmo que o Nike Shox tenha seu investimento em publicidade restrito, pontos de venda selecionados e comercialização de pares limitada, Nedel acredita que as mídias desempenham uma função importante. "Uma informação vinculada de forma temerária ou precipitada pode gerar situações como a acima citada(na letra dos Racionais). Igualmente os grupos musicais, como formadores de opinião", destaca o delegado, que não trata isso como uma censura, apenas como "cautelas profissionais". Em 2004, os brasileiros ficaram com a segunda colocação no ranking mundial de compradores de Nike Shox, perdendo apenas para os norte-americanos.

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Helena Aragão
 

oi, legal seu texto, boa matéria de comportamento. mas você não acha que não se enquadra muito na proposta do overmundo, que é voltada para a cultura brasileira? confira em "ajuda" os critérios do site e avalie.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2006 13:46
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Thiago Camelo
 

Olá!Acho que a matéria fala muito sobre a nossa cultura sim.É impressionante que um tênis acabe sendo objeto de culto de tantos jovens e vire tema até de música.E se um tênis de uma marca de fora tem esse poder aqui dentro, isso é atestado sim da nossa cultura.Talvez, o texto tenha se aprofundado demais na questão dos roubos, se bem que a informação acaba sendo relevante pra ilustrar melhor a ador

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2006 14:03
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Thiago Camelo
 

continuação - a adoração pelo objeto

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 8/3/2006 14:03
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