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D.João e a corte portuguesa no Rio de Janeiro

Laurentino Gomes
D.João retratado por Debret. Acervo do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro.
1
crispinga · Nova Friburgo, RJ
30/3/2008 · 179 · 26
 

Por que D.João e a corte portuguesa vieram para o Brasil, há 200 anos? Qual a importância histórica deste fato?

Em 1807 a Europa estava em guerra. Napoleão Bonaparte assumira o comando do Exército Francês para colocar ordem no caos que se transformara seu país, após a Revolução que derrubou o regime monarquista. Napoleão enfrentou com mão de ferro as alianças das demais monarquias européias, contrárias ao regime republicano que se instalou na França. Iniciou a expansão dos seus domínios para além das fronteiras francesas, invadindo a Alemanha, Espanha, Holanda e Itália, dentre outros impérios. Destronou reis e rainhas tomando para si suas riquezas e suas terras, tornando-se o senhor absoluto da Europa. A Inglaterra resistia às investidas francesas, o que fez Bonaparte decretar o bloqueio continental ao país a fim de enfraquecer o inimigo. D.João, antigo aliado político da Inglaterra, não aderiu ao bloqueio. Em meio ao fogo cruzado, na iminência de ter seu país invadido pelas tropas napoleônicas, decidiu fugir para o Brasil, abandonando seu país e seus súditos à própria sorte.

Foram mais de três meses de viagem enfrentando tempestades, calmarias, mêdo de ataques piratas e infestação de piolhos a bordo. Em março de 1808 D.João e sua corte desembarcaram no Rio de Janeiro, após uma breve escala em Salvador, antiga capital do país.



Rio de Janeiro, cidade estratégica

O Rio de Janeiro era parada obrigatória para todos os navios que cruzavam os mares naquele tempo. A Baía de Guanabara, protegida pelos ventos e com suas águas calmas, oferecia segurança para o reparo dos navios e para o reabastecimento das embarcações com água, comida e especiarias. Com a abertura dos portos do Brasil às nações amigas, decretada logo após a chegada da família real ao Brasil, o Rio tornou-se o local ideal para o comércio. Todas as exportações e importações da Colônia passavam pelo porto carioca. A paisagem tropical, cercada por mar e montanhas, numa cidade ainda pouco povoada, deixou fascinados os visitantes portugueses. Difícil foi arrumar moradia para toda a corte que acompanhava D.João. Com ele vieram padres, bispos, juízes, militares, advogados, serviçais, nobres e suas respectivas famílias, quase 15.000 pessoas. Diante do impasse foi criado o sistema de “aposentadorias”, um confisco de residências para uso da nobreza. Uma placa com as iniciais de “Príncipe Regente” era afixada nas moradias escolhidas. A população, revoltada, logo passou a reconhecer a sigla: “Ponha-se na rua"!

D.João, Carlota Joaquina e seus filhos hospedaram-se, temporariamente, no Paço Imperial, um casarão localizado no centro da cidade que se transformaria na sede oficial do governo,
até sua partida. Era lá que o rei recebia seus súditos no ritual conhecido como “beija-mão”, momento em que as portas do palácio eram abertas à população para prestar homenagens à família real, fazer pedidos e reclamações. Neste palácio ele despachava com seus ministros e recebia governantes de outros países. A residência da família real foi transferida, então, para o Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, onde hoje funciona o Museu Nacional.


A herança portuguesa

Após a morte de Dona Maria, a rainha louca, D. João tornou-se rei do Brasil, Portugal e Algarves, sendo finalmente aclamado como D.João VI, em 1816.

Manter a corte no Brasil custou caro aos cofres portugueses. Diante de tantos gastos a solução foi pedir empréstimo à Inglaterra, uma enorme dívida que depois seria herdada pelo nosso país, após a declaração da independência.

A corte portuguesa no Brasil, além de perdulária, era autoritária. Como o rei precisava do apoio político e financeiro das elites brasileiras, iniciou-se no Brasil uma farta distribuição de títulos de nobreza, favores e privilégios, em troca de dinheiro. A nova nobreza brasileira tinha agora títulos e poder, tornando-se acionista do recém-criado Banco do Brasil, que socorria D. João nas suas dificuldades financeiras. O Rio de Janeiro se tornou uma cidade rica e próspera. Estradas foram abertas, escolas fundadas, bibliotecas, hospitais, bancos e imprensa. Além disso, foram liberados o comércio e a produção industrial brasileira. Era o fim do monopólio português no Brasil que, livre de proibições, começou sua revolução industrial.

A abertura de novas estradas acabou com o isolamento entre as províncias. As regiões mais distantes foram mapeadas e companhias marítimas surgiram, inaugurando a era da navegação a vapor.

Escolas de ensino leigo e superior foram criadas modernizando o ensino brasileiro, restrito até então ao ensino básico e confiado aos padres. Foram inauguradas a escola superior de Medicina, escolas agrícolas, laboratórios de análises químicas e a Academia Real Militar. O Rio de Janeiro ainda viu surgir a Biblioteca Nacional, o Museu Nacional, o Jardim Botânico e o Teatro São João.

A “Gazeta do Rio de Janeiro” foi o primeiro jornal impresso publicado no Brasil, em setembro de 1808, nas máquinas trazidas da Europa. O problema é que só podiam ser publicadas notícias favoráveis ao governo.

Finalmente, em 1815, D.João elevou o Brasil à condição de Reino Unido a Portugal e Algarves, promovendo o Rio de Janeiro a sede oficial da Coroa.

A arte e a cultura também eram valorizadas pelo rei, grande apreciador da música, que mandou vir da Europa a Missão Artística Francesa, no intuito de refinar o bom gosto na colônia. A influência francesa foi marcante no vestiário da época, na arquitetura e nos hábitos de consumo da população.


De volta a Portugal


Treze anos haviam se passado e o processo de independência do Brasil já assumira ares de revolta. O povo carioca, apesar de amar D. João, clamava por uma Constituição liberal, que lhe tirava parte dos poderes.

Sua dívida para com os portugueses era imensa. Portugal viveu um dos piores períodos de sua história após sua fuga para o Brasil. Milhares de portugueses abandonaram o país e outros tantos sucumbiram à fome e as mazelas da guerra.

Diante da pressão do povo brasileiro e dos chamados insistentes para que retornasse a Portugal, já que a guerra terminara em 1810, D.João deixou o Brasil em 1821.

Antes, porém, instruiu seu filho e herdeiro do trono, D. Pedro I, a fazer a independência do Brasil, “antes que algum aventureiro o fizesse”.

Ao partir, D.João levou consigo todas as reservas financeiras que havia trazido da Europa e esvaziou os cofres do Banco do Brasil, deixando o país em sérias dificuldades, às vésperas de sua independência.

Dizem que o rei foi embora triste porque sua vontade era permanecer no Brasil para sempre. Sua chegada a Portugal foi melancólica, um rei decadente e sua corte humilhada.

Apesar das controvérsias, os anos que D.João permaneceu no Rio de Janeiro foram de progresso e mudanças profundas e decisivas, com a transformação do Brasil colônia em uma nação independente. Para um governante, o maior legado que se pode deixar para o povo.



Fontes de pesquisa:
Gomes, Laurentino.1808, Como uma rainha louca, um príncipe medroso e uma corte corrupta enganaram Napoleâo e mudaram a História de Portugal e do Brasil

Fontes eletrônicas:
www.jbrj.gov.br/institu

http://pt.wikipedia.org/wiki/Quinta_da_Boa_Vista

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crispinga
 

No aniversário da chegada de D.joão e a corte portuguesa ao Rio de Janeiro, uma viagem no tempo para conhecermos melhor a nossa história.

crispinga · Nova Friburgo, RJ 27/3/2008 00:08
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Spírito Santo
 

Crispinga,
O lado mais bacana desta história é que, por estar ligada à própria fundação oficial do Brasil, ela vem palmilhada de hiatos que vão sendo preenchidos com o tempo. É como falar mal de nossa própria mãe.
A riqueza do tema é esta: Instigar vários pontos de vistas entre o legado de D.João VI.
No meu caso, achei engraçado explorar, alguns fatos extra-oficiais que poderiam ter sido omitidos, por serem muito constrangedores.
Saõ posts irmãos, os nossos dois. Irmãos reais, diria.
Vai ser engraçado observar a reação do pessoal do Overmundo diante desta recorrência do tema, numa mesma fila de edição e votação.
Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2008 08:05
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crispinga
 

Oi, Spirito.
Inconsciente coletivo é isso. Falam tanto do aniversário da chegada da família real ao Brasil que a vontade de se aprofundar na história é quase irresistível!
Seu Simeão é irresistível. Carla Camurati que se cuide!
Obrigada pela força! Nos encontraremos agora na seção "Veja também"!
Abraços

crispinga · Nova Friburgo, RJ 27/3/2008 08:19
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Spírito Santo
 

Isto se formaos eleitos, certo? (não vamos fazer este papel feio do Lula, o rei do já ganhei)

Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2008 08:25
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crispinga
 

rsrsrs!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 27/3/2008 08:45
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Cintia Thome
 

Boa pesquisa Cris.

Cintia Thome · São Paulo, SP 28/3/2008 09:21
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LAILTON ARAÚJO
 


MENINA CRIS...


Belas fotos e texto necessário ao entendimento da Monarquia no Brasil.

Você tem buscado uma linha de informação que educa... Sua sensibilidade - na seleção de temas - cresce cada vez mais. É uma escritora e educadora nata! Vai fazer sucesso!

Parabéns!

Beijão!

Lailton Araújo

LAILTON ARAÚJO · São Paulo, SP 28/3/2008 17:52
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alcanu
 

Uma bela duma retrospectiva histórica extremamente necessária na nossa amnésica Sociedade !
Parabéns pela tua iniciativa louvável !
Um beijo, Alcanu !

alcanu · São Paulo, SP 29/3/2008 13:53
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crispinga
 

Cintia, Lailton e Alcanu
Fico muito feliz com a presença de vocês! Como disse o Spirito, um tema tão rico e que foi nos ensinado tão superficialmente no nosso tempo de Escola.
Beijos

crispinga · Nova Friburgo, RJ 29/3/2008 20:40
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Sérgio Franck
 

Cris, uma verdadeira aula de história dada com muita graça.

Parabéns!

bjo.

Sérgio Franck · Belo Horizonte, MG 29/3/2008 21:13
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crispinga
 

Oi, Sérgio
D.João, afinal, era mais esperto do que a gente imaginava!
Bjsss

crispinga · Nova Friburgo, RJ 29/3/2008 21:16
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 29/3/2008 22:25
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azuirfilho
 

crispinga · Rio de Janeiro (RJ
D.João e a corte portuguesa no Rio de Janeiro.
Um Trabalho bem Caprichado.
Uma Grande contribuição.
Uma Leitura Agradável e fácil.
O pessoal vai ler e gostar.
Eu Gostei Muito, eleva a formação.
Não Podemos abrir mão disso.
Obrigado pelo presente para todos nós.
Tem todo Merecimento.
Abração Fraterno.

azuirfilho · Campinas, SP 29/3/2008 23:24
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Rubenio Marcelo
 

Cris,
Publicação oportuna e bem embasada. Parabéns pelo texto.
Votei.

Rubenio Marcelo · Campo Grande, MS 30/3/2008 09:48
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Andre Pessego
 

É, este 2008 poderá ser interessantemente esclarecedor, alviçareiro para que no bojo da História corrjamos erros,
planejemos rumos. E assim na brevidade do espaço inernet,
vamos dando nossas contribuições - uns escrevendo outros lendo e contribuindo para o acervo,
um abraço - minha historiadora,
andre.

Andre Pessego · São Paulo, SP 30/3/2008 10:39
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crispinga
 

Joca, Azuir, Rubenio e Andre
Para refrescar a memória desses fatos históricos que tiraram o Brasil da condição de colônia extrativista portuguesa!
Beijos, queridos overmanos!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 30/3/2008 15:18
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crispinga
 

Conheçam Simeão, o escravo que viu a cara feia do rei!
http://www.overmundo.com.br/overblog/eu-vi-a-cara-feia-do-rei-1

crispinga · Nova Friburgo, RJ 30/3/2008 15:32
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Li Silva
 

Cris, valeu pelo texto. Adorei saber de sua paixão por história do Brasil, que compartilho. Beijos. Li

Li Silva · João Pessoa, PB 30/3/2008 15:58
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crispinga
 

Bem-vinda, Li
Aguardo suas contribuições!
bjs

crispinga · Nova Friburgo, RJ 31/3/2008 10:08
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FILIPE MAMEDE
 

Muito bom Cris. As fotografias são um caso à parte. Excelentes!

FILIPE MAMEDE · Natal, RN 31/3/2008 10:09
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victorvapf
 

Muito bom o texto, li do começo ao fim. Aos poucos estamos assimilando a verdadeira historia, aguçando nossa vontade de voltar a Corte para o Brasil, quem sabe não seria uma solução?

victorvapf · Belo Horizonte, MG 31/3/2008 10:44
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Leandróide
 

Cris, muito oportuna e didática tua colaboração. Parabéns pelo belo trabalho.
Abraço.

Leandróide · Florianópolis, SC 31/3/2008 13:22
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W@nder
 

É sempre muito bom ter acesso a esses conteúdos históricos aqui no Overmundo.
Parabéns Cris.
bjs.

W@nder · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 14:27
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crispinga
 

Felipe, Victor, Leandróide e Wander
O Rio foi o cenário do evento que mudou nossa história e D.João de bobo não tinha nada. Conseguiu enganar Napoleão e criou condições para que o Brasil se tornasse uma nação independente.
Se vocês gostaram da pesquisa fico muito feliz!
Beijos

crispinga · Nova Friburgo, RJ 31/3/2008 16:15
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Spírito Santo
 

Cris,

Embora, como você sabe, o Simeão Cambinda discorde frontalmente de suas conclusões sobre a decantada inteligência de D.João VI, também adorei a tua pesquisa.
Abs

Spírito Santo · Rio de Janeiro, RJ 31/3/2008 16:20
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crispinga
 

Salve D.João, o rei pimpão, e Simeão, o escravo mais esperto da região!

crispinga · Nova Friburgo, RJ 1/4/2008 07:59
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