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Domingo, no calçadão de Copacabana

Acervo Riotur
Copacabana, sua praia, seu calçadão
1
Eloy Santos · Rio de Janeiro, RJ
11/11/2008 · 329 · 45
 

Sou um ser errante, andante. E quem não é, hoje em dia? Ando todos os dias, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, com andadas outras por lugares sem fim. Aos sábados, vou do Arpoador ao final do Leblon e volto. Aos domingos, faço minha caminhada especial: do Leme ao Posto 6 e volto. Sigo à risca, no uso, a medicação extra recomendada pela minha médica. “São dois dos melhores remédios – disse-me ela, com ar de graça. – “Eles são, em certa medida, mais eficazes do que estes que estão aí na receita: andar, andar bastante e beber muita água. Vários quilômetros de caminhada e ingestão de litros e litros de água por dia. Faça isso. Você logo vai sentir os resultados em seu organismo.” Santos remédios lembrados pela minha santa protetora, a doutor Cássia, que Deus a tenha sempre perto de mim. Por isso, neste domingo, aqui estou perto da Ponta do Leme, no calçadão de Copacabana, de tênis, calça e blusa de atleta. Lá vou eu, bem abastecido de água, para a caminhada dominical, com passadas seguras, sem pressa e sem paradas pelo caminho. Sem paradas? Hoje é dia de exceção, para observar coisas e pessoas, para este simples relato.

O panorama, quem sou eu para descrever? Craques supremos da arte de poetar e de escrever já fizeram isso de forma sublime. Mas eis que eu vejo um grupo de turistas do Ceará. Sei disso porque um deles acabava de reclamar com o balconista do quiosque: “Dois reais e 50 por um coco?! O que é isso, meu irmão! Lá em Fortaleza a gente cata coco no chão... Não paga um e 50!” O balconista se defende com o argumento de sempre: “sabe como é, né? O frete... a mão de obra... o coco vem de longe... do sul da Bahia...” O cearense acaba pagando o preço, chupa um pouco da água de coco no canudinho e emenda, fascinado: “praia mais linda, meu Deus!” A companheira dele, certamente a mulher, responde, alegre: “não pensei que tudo fosse tão belo. Olha o morro!... E lá adiante, o Forte de Copacabana!... Toma logo esse coco, Raimundo!... Vamos fotografar...”
Ando. Quem mais belamente cantou Copacabana foi João Carlos Ferreira Braga, o Braguinha, ou João de Barro, um dos maiores nomes da cultura brasileira. Esse compositor de tantos versos divinais fez, em 1946, com seu grande parceiro, Alberto Ribeiro, o samba-canção “Copacabana”. Era uma encomenda do cineasta americano Wallace Downwey, que iria inaugurar uma boate em Nova York, a boate Copacabana, e queria abrir as noitadas com uma música brasileira. A boate não abriu as portas. “Copacabana” ficou um ano na gaveta. Braguinha resolveu, então, entregá-la ao cantor e pianista Dick Farney, para uma gravação. Dick recusou o convite e se mostrou renitente: “não gravo, Braguinha. Não sei cantar samba. Só foxtrote.” Mas a dupla usou de novos argumentos e Dick Farney cedeu: “é um samba suave, romântico... Bem no seu jeito de cantar.” E em 1947 ele gravou o revolucionário samba-canção (!) “Copacabana”, com um genial arranjo do maestro Radamés Gnatalli. Revolucionário, por quê? Porque “Copacabana” e Dick Farney foram precursores da bossa nova.

“Existem praias tão lindas cheias de luz...
Nenhuma tem o encanto que tu possuis
Tuas areias...
Teu céu tão lindo...
Tuas sereias
Sempre sorrindo...

Copacabana, princesinha do mar,
Pelas manhãs tu és a vida a cantar...
E, à tardinha, o sol poente
Deixa sempre uma saudade na gente...

Copacabana, o mar eterno cantor
Ao te beijar, ficou perdido de amor
E hoje vivo a murmurar
Só a ti,Copacabana, eu hei de amar”

Retomo a caminhada. O sol é soberano. Lamento não ter trazido os óculos escuros. Vida que segue. Vou passando pelos quiosques, de decoração e formato duvidosos. São 22 ao todo, até o Posto 6. Olho para um imenso elefante branco. É o agora abandonado hotel Le Meridien, construído em 1975. Dizem que as negociações para a retomada do negócio de hotelaria são difíceis. São poucas as promessas de compra. O preço pedido é alto. Dele os cariocas e turistas se lembram é das cascatas de fogos no reveillon. Eram belas. Passa, a meu lado, uma senhora sessentona. Ela faz continuamente o sinal da cruz e reza. Escuto ela pronunciar a Ave, Maria. Que Deus a acompanhe a guarde. Reparo em mais turistas. Serão mineiros? De onde? Olho a placa de um dos três ônibus que trouxeram de... de... Ribeirão Preto! São meus conterrâneos. Eu, aqui, distante da terra natal, lá pelas barrancas do Rio Paranapanema, quase na divisa do estado de São Paulo com Mato Grosso do Sul e Paraná. São mais de 40 anos nesta cidade querida. E eles? Cumprimento algum? Pergunto pelo chope preto do Bar Pingüim? Pelos times de futebol, o Botafogo e o Comercial?
Acreditem que é verdade! Há cocô! Cocô, não coco, no calçadão! O índice de fifis, lulus, duques e luques em Copacabana é invejável. E a produção de cocô feita por eles, sem a maior cerimônia, é uma grandeza. Quase pisei numa dessas granadas intestinais. Como? É isso mesmo. E as madames e compadres que os levam por coleiras pouco se lixam para os passantes. Logo avisto uma senhora, entrada nos oitenta, que costuma conversar com sua cachorrinha. “Mas eu não disse para você não dar bola para esse buldogue? Ele é horroroso e muito maior do que você. Você é uma cadelinha delicada e não nasceu para brutamontes como ele...” A cadelinha, ao que parece, não dá mesmo a menor bola... à dona. Late e late sem parar, amedrontando até o cachorrão que é puxado pela outra caminhante dominical. Parece que este ponto do calçadão é dos caninos. Outros se aproximam, cruzando-se na pista. Latem. Na verdade, parece que se dão bom dia, como vai, como está passando?... Ando e reparo mais nos idosos. Homens e mulheres. Ou melhor, nas pessoas da terceira idade. Elas gostam de assim serem classificadas. É lógico isso. Copacabana tem uma alta concentração de gente com mais de 60 anos. Aspecto de quem é feliz. Muitos se conhecem, trocam palavras amigas, sorriem.

Por onde caminho fica a estátua do soldado mortalmente ferido. É a esquina da Rua Siqueira Campos com a Avenida Atlântica. A estátua, que alguns consideram de mau gosto, mostra um homem dobrando as pernas, antingido por balas disparadas pelas forças legalistas. Ele ainda segura o fuzil com a baioneta calada. Quando esse fato histórico aconteceu? Foi no dia 5 de julho de 1922. Uma rebelião contra a posse do presidente Artur Bernardes, eleito pelas elites de então, paulistas e mineiros (os representantes da política “café com leite”) levou oficiais e soldados a deixarem o Forte de Copacabana, para se oporem, em armas, à ordem estabelecida. Esse pelotão suicida, inicialmente de 28 militares, escreveu um capítulo heróico e dramático da vida brasileira da primeira metade do século passado. Antes de deixarem o forte eles arriaram a bandeira nacional, a rasgaram em 28 pedaços iguais, um para cada um, e saíram pela Avenida Atlântica. Dez se perderam no caminho, em meio ao tiroteio. Alguns tombaram no asfalto, outros na areia da praia. Dois saíram com ferimentos graves, Siqueira Campos e Eduardo Gomes, este mais tarde ministro da Aeronáutica. Os cariocas que, como de resto todos os brasileiros conhecem pouco da história nacional, passam “batidos” pela estátua. Turistas a observam, sempre com vagar, certamente honrando a memória do soldado atingido por balas de fuzis.

Lá vou eu pelo calçadão. No sentido inverso caminha um simpático senhor que vai falando alto, dirigindo-se a um e outro passante como ele. No andar ele mostra seqüelas de um derrame cerebral. É simpático. Sempre se refere de maneira jocosa a um time de futebol que ainda não consegui identificar. Será o Fluminense? Vasco da Gama? Flamengo? Penso, como já se notou, que ele torce pelo Botafogo. Diz sempre que a “molambada” vai se dar mal... Passo por ele e o cumprimento: como vai? Tudo bem? Ele sorri e mais uma vez se refere à “molambada”. Sigo e reparo num grupo de corredores que vestem a camisa de Furnas Centrais Elétricas. Eles agora caminham, por certo com o intuito de descansar um pouco e trocar idéias. Esses corredores de equipes organizadas são cada vez mais freqüentes no calçadão. Agora passam vários turistas, alguns estrangeiros, que vêm ao calçadão com suas bermudas enormes, camisas berrantes e... calçando sapatos! Serão do Texas? Da Flórida? Da Flórida não que lá tem praia. São alemães e italianos. Médicos que vieram para um congresso.

– “Como vai, seu Rodrigues?” – saúdo um senhor parado junto ao meio fio.
– “Tudo bem? Caminhando, hein? Não pára, não. Segue seu destino. Pense na saúde em primeiro lugar.”
Eu aceno e vou em frente. O seu Rodrigues é um militar reformado. Oficial general do Exército, serviu durante décadas na Amazônia, região que conhece tanto quanto o calçadão de Copacabana. Conversamos pela primeira vez durante a última meia maratona, corrida que assistimos como espectadores privilegiados. Os corredores passavam diante dos nossos narizes. Foi ele quem me contou um pouco da história do bairro e revelou a origem do nome Copacabana. Há duas versões para esta última. Uma nasceu da devoção de católicos por uma imagem de Nossa Senhora Morena de Copacabana, a santa da devoção dos bolivianos. No século XIX foi construída uma capela perto do Arpoador e nela colocada uma imagem trazida de La Paz. Copacabana, segundo o idioma quéchua, que foi lingua geral do antigo Império Inca, vem de copa e caguana, que quer dizer lugar luminoso, resplandecente. A segunda versão dá como origem do nome o encontro, na praia, de uma imagem da santa peruana Kjopac Kahuana.

Já me aproximo do Posto 6. Turistas daqui e de fora estão ao redor da estátua de Carlos Drummond de Andrade. Inaugurada em 2002, quando do centenário de nascimento do poeta maior, ela tem sido muito maltratada. Vândalos arrancaram cinco vezes os seus óculos. Se energúmenos causam danos lamentáveis a esse patrimônio, centenas e centenas de pessoas o reverenciam todos os dias. Eu, que tive a honra de conhecer o poeta em vida, numa assembléia da ABI, Associação Brasileira de Imprensa, vejo que o artista que a modelou foi extremamente feliz em seu trabalho. Drummond está sentado com seu jeito simples, de costas para o mar e olhando a calçada. Mas eis que chega um senhor que pára diante dele. Aparenta ter idade superior a 70 anos, ainda é esbelto e simpático com seus cabelos inteiramente brancos. O homem não se dirige às pessoas e sim ao poeta:
– Você é brilhante, Carlos Drummond de Andrade! Brilhante! Mas Vinícius de Moraes é maior, maior do que você!
Ele olha para as pessoas, como que num desafio.
- Vininha (tratamento íntimo de Vinícius. Só uns poucos o tratavam assim) não foi maior? Hein? Hein? Digam lá, diga lá, Drummond!
E ele recita, em gesto condoreiro, para o grupo admirado.

“Meu Deus, eu quero a mulher que passa
Seu dorso frio é um campo de lírios
Tem sete cores nos seus cabelos
Sete esperanças na boca fresca!
Oh! como és linda, mulher que passas
Que me sacias e suplicias
Dentro das noites, dentro dos dias!

Teus sentimentos são poesia
Teus sofrimentos, melancolia.
Teus pelos leves são relva boa
Fresca e macia.
Teus belos braços são cisnes mansos
Longe das vozes da ventania.

Meu Deus, eu quero a mulher que passa!”

Aplausos. Um grito de bravo! Uma bela jovem se sente homenageada. Suspira. O homem sai, dando adeusinho.
Vou na direção da peixaria do Posto 6, fim da primeira parte da minha caminhada no calçadão de Copacabana, naquele domingo. Nem paro. Só dou meia volta e ando. Recordo então as palavras de um de meus mestres, Rubem Braga, deixadas numa crônica imortal: “Ai de ti, Copacabana”, escrita e publicada em janeiro de 1958: “Ai de ti, Copacabana, porque eu já fiz o sinal bem claro de que é chegada a véspera de teu dia, e tu não viste; porém minha voz te abalará até as entranhas. Ai de ti, Copacabana, porque a ti chamaram Princesa do Mar, e cingiram tua fronte com uma coroa de mentiras; e deste risadas ébrias e vãs no seio da noite. Já movi o mar de uma parte e de outra parte, e suas ondas tomaram o Leme e o Arpoador, e tu não viste este sinal; estás perdida e cega no meio de tuas iniqüidades e de tua malícia.” Ao longe um carro de som toca o hino do Rio de Janeiro, Cidade Maravilhosa, de André Filho, escrita e musicada em 1934, e cantada por Aurora Miranda como marchinha de carnaval.

“...Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n'alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente”










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Turbilhão Psicodélico · Cuiabá, MT 10/11/2008 15:33
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Cintia Thome · São Paulo, SP 11/11/2008 21:28
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Regina Lyra · João Pessoa, PB 12/11/2008 02:00
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Andre Pessego · São Paulo, SP 12/11/2008 08:45
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Compulsão Diária · São Paulo, SP 12/11/2008 08:49
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Orisvaldo Tanniy · Teresina, PI 12/11/2008 10:00
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Pepê Mattos · Macapá, AP 12/11/2008 10:06
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azuirfilho · Campinas, SP 12/11/2008 10:43
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Milena Dugacsek · Porto Alegre, RS 12/11/2008 13:49
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Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 12/11/2008 17:27
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Sergio Berrini · Rio de Janeiro, RJ 12/11/2008 23:04
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Coluna do Domingos · Aurora, CE 13/11/2008 10:47
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joe_brazuca · São Paulo, SP 13/11/2008 20:55
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raphaelreys · Montes Claros, MG 14/11/2008 19:11
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Coluna do Domingos · Aurora, CE 14/11/2008 19:14
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rosa melo · Pio IX, PI 14/11/2008 21:23
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walnizia santos · Brasília, DF 19/11/2008 09:26
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Iva Tai · Manaus, AM 21/11/2008 00:13
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