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Dominguinhos
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 30/4/2006 13:49 · 131 votos · 31 comentários ·  
 
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overponto
Há algumas semanas, fui ao Canecão assistir a Orquestra Petrobras Sinfônica regida por Wagner Tiso e Carlos Prazeres, com Lenine, Dominguinhos, Jacques Ghestem (trombone) e Naílson Simões (trompete) como convidados. Na verdade, o encontro da orquestra com os compositores faz parte de uma série chamada MPB&Jazz, dirigida por Wagner Tiso.

Cheguei uma hora antes e só consegui a mesa mais à direita, no que eles chamam de "balcão nobre". O Canecão estava completamente lotado.

Não nego que fui muito por causa da participação de Lenine, mas fui surpreendido(?) no momento em que Dominguinhos subiu no palco; acho que eu o tinha "esquecido", em meio à turbulência...

Por algum distúrbio infantil que desconheço, a música que mais me influenciou é essa de cuja matriz Dominguinhos é o grande herdeiro, que nasce com os sertanejos e ganha sua forma final com Luiz Gonzaga. Digo disturbio não porque não saiba as razões de minha predileção, mas porque é um pouco estranho que eu tenha sido tomado por ela tão cedo e que ela tenha determinado tanta coisa em minha relação com a música. Eu deveria sentir a música popular do Pará com mais intensidade que a música nordestina, já que nasci em Belém.

Nas festas de junho no Pará - eis a explicação - o que eu mais ouvia era Luiz Gonzaga. Não lembro bem se porque tocava mais que Pinduca; é bem possível, pois até hoje, ainda que em poucos lugares, é a música de Luiz Gonzaga o sinônimo maior das festas de São João. Depois de Gonzaga, passei a distinguir Dominguinhos, Genival Lacerda, Jackson do Pandeiro, João do Vale, Sivuca...

Mas, voltando ao Canecão. Quando Dominguinhos tocou os primeiros acordes na sanfona, com a orquestra Petrobrás ao fundo, minha infância e adolescência foram salpicadas de lembranças leves e reconfortantes. Eu esqueci que estava cercado de um público que em nada lembrava os amigos e as namoradas do passado, de um momento da vida que guardava pouco daquela época ingênua onde eu comecei a ouvir a música nordestina.

Ele tocou PRINCESINHA NO CHORO (Dominguinhos), LAMENTO SERTANEJO (Dominguinhos/Gilberto Gil), DE VOLTA PRO MEU ACONCHEGO (Dominguinhos/Nando Cordel), GOSTOSO DEMAIS (Dominguinhos/Nando Cordel) e EU SÓ QUERO UM XODÓ (Dominguinhos/Anastácia). Ao final, RESPEITA JANUÁRIO e ASA BRANCA (Luiz Gonzaga/Humberto Teixeira) junto com Lenine.

Não fosse por ele, o repertório "apropriado" poderia ser clichê demais; bem, se não fosse por ele.

Quando quebrou a frieza da platéia perguntando se nós estávamos com medo de aplaudir, já estava com todo o público nas mãos. Devia ser por causa da orquestra e do ambiente híbrido, sei lá... mas ele envolveu a todos de um modo emocionante. Quando as vozes em uníssono cantavam "estou de volta pro meu aconchego..." deixavam a cidade do Rio de Janeiro lá fora, envergonhada.

Entre as preciosidades, disse que foi-se o tempo em que ele gravava discos com grande estrutura, reunindo todos os músicos de que gostava. Segundo ele, só o Chico ainda pode se dar ao luxo, já que ele é "biscoito fino". A queixa bem humorada é triste. Dominguinhos é um dos compositores mais profundamente brasileiros que existem. Sua música poderia iluminar muito de um país que agoniza.

Se temos hoje que gostar da "música da periferia" porque ela resulta da miséria, do abandono do Estado, da fuga, há algo extremamente contraditório se construindo. Cresci numa periferia de Belém, dentro do mesmo lugar onde nasceu o Brega e, mais recentemente, o Tecnobrega paraense, um dos mais louvados representantes dessa música periférica. Toda minha família mora lá, nesse mesmo lugar, para onde viajo duas vezes por ano e reencontro as novas produções pipocando nas rádios de rua.

A música me é familiar, profundamente próxima, nos termos, na dança, no escracho; sei que sou parte dela, e nunca precisei afirmar ou negar sua existência. Mas, no entanto, todavia, não me sinto nela, e não reconheço a essência de minha gente emanando apenas dali. Ultimamente tenho entrado em algumas discussões que beiram o ridículo, porque à essa altura quem acompanha esses debates nos blogs deve achar que eu odeio Brega, que sou um falso paraense! que merda... porque eu adoro... porque sempre foi a antítese da tristeza que vez por outra nos possui.

O mais engraçado: quem defende o Tecnobrega e afins, acha que quem não gosta é chato, intelectual, burguês, arrogante, etc., ou seja, acham que eu sou tudo isso! mas pera aí (como se diz em Belém), por que eu devo gostar de um modo "aberto" de Tecnobrega e afins? qual o grande "argumento", se é que há... porque o povo gosta, o povão, a massa, a choldra como diz o Gaspari? é? ah, então eu sou um completo retardado? sim, porque eu deveria gostar de Tecnobrega porque o Brasil descobriu nossa música não é isso? de repente, eu acordo, vou ao Terruá Pará em São Paulo, assistir a muitos dos meus amigos compositores, parceiros até, músicos maravilhosos! e não acho a menor graça na Gabi do Tecnoshow - só não gostei dessa parte do show, fiquei assim meio envergonhado... aí eu me transformo num chato? mas eu já conheço desde que nasci meus caros! e sempre gostei, mas era um gostar distinto de quando eu ponho um disco do Dominguinhos e choro... é difícil de entender?

tags: Rio de Janeiro RJ musica tecnobrega brega dominguinhos


 
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o debate é bacana, Henry - eu gosto de tecnobrega (não de tudo - há coisas boas e ruins no tecnobrega como em todos os estilos musicais...), mas não quero obrigar ninguém a gostar... não concordo que represente a miséria do povo: para mim representa, em alguns de seus aspectos, a criatividade que existe apesar da miséria... muita gente, quando Luis Gonzaga apareceu, também achava que aquilo era música de baixa qualidade... lembro agora de um crítico no jornal falando mal de Carinhoso do Pixinguinha, como mera cópia do ritmo da moda na França... as opiniões mudam, e o distanciamento nos faz ver qualidade naquilo que antes era tratado com total desdém... não estou afirmando que isso vai acontecer com o tecnobrega, ou com o funk carioca... quem pode prever essas coisas?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 28/4/2006 03:01 
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É verdade, a música de Luiz Gonzaga foi - e talvez ainda seja - subestimada; o que motiva alguma reflexão pra mim a respeito dessa chamada "música de periferia" é que você e o Pedro Sanches, por exemplo, mostram a importância de se perceber que há algo acontecendo por trás dessa produção, mas não se preocupam em apontar a possível limitação da sensibilidade que vem a reboque disso tudo, i.e., você acha mesmo que há algum autor nesse meio que possa dar continuidade à expressão do sentimento popular que emana da música de Luiz Gonzaga? é muito absurdo perguntar o por quê de nenhum crítico se dignar a comentar os CDs de tecnobrega apontando neles os méritos que parecem tão claros? veja, não me interessa atingir nenhum desses artistas, eu também faço música, só não me sinto forçado a gostar deles porque um pesquisador como você lhes dá tamanho crédito. Acho que alguém precisa, com e contra você, tensionar essa visão, a meu ver, parcimoniosa, de achar que a música da periferia é uma linha de continuidade de um certo padrão do cancioneiro nacional e que isso não significa um enorme prejuízo para o nosso desenvolvimento como nação. Se a música popular nos representa, se é nossa mais forte "representação", é preciso pensar sobre essa "nova identidade", que põe até um Chico Buarque em dúvida a respeito do fim da canção, por exemplo... se a canção está acabando como, de fato, parece estar, é porque nós também estamos definhando como país.
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 28/4/2006 12:38 
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Acho bacana qdo você posta textos questionadores aqui, Henry, sobretudo por não entrar em paixões e por não ser agressivo. Você se surpreende com o fato de se emocionar mais com a música nordestina do que com a da sua terra. Me fez pensar que isso deve ser mais comum do que imagina... Mas fiquei um pouco intrigada com certos pontos do seu comentário. Conheço pouco do tecnobrega, não tenho condição de defender nem de atacar (muito menos de analisar) mas mesmo assim não acho que necessariamente um debate da qualidade musical tenha que passar, por exemplo, pelo fato de “algum autor desse meio poder dar continuidade à expressão do sentimento popular que emana da música de Luiz Gonzaga”. Também nunca vi os que exaltam o tecnobrega dizerem nada parecido com “achar que a música da periferia é uma linha de continuidade de um certo padrão do cancioneiro nacional”. Quanto à falta de crítica dos discos de tecnobrega, talvez seja verdade, não sei. O Overmundo poderia ser um bom espaço para isso... Abraço!
Helena Aragão · Rio de Janeiro (RJ) · 28/4/2006 15:46 
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Helena, legal poder dividir essas - por que não dizer - dúvidas com pessoas como você. Na verdade não afirmei que o Hermano considera essa "música da periferia" como uma linha de continuidade de um autor como Luiz Gonzaga, apenas perguntei se ele eventualmente acha, ou seja, se essa música tem "apenas" um valor sociológico, e aí minhas dúvidas acabam, ou se ela tem de fato um valor artístico - se é que ainda se pode perguntar isso hoje em dia. É disso que quero falar, de música brasileira, popular. Sabe porque não tenho pudores em tencionar esse assunto, mesmo correndo o risco de ser mal-interpretado por pessoas da minha terra natal? porque quando escrevi um texto, muito crítico, sobre a explosão nacional do Tecnobrega, a reclamação que eu ouvi foi a seguinte: "muitos estados do Brasil já forneceram porcaria para alimentar a mídia de massa, chegou a nossa vez...". Argumento curioso? pois é. Então fico enchendo o saco de algumas pessoas que eu admiro muito porque me sinto incapaz de louvar a banda Calypso agora, só porque eles venderam 8 milhões de discos. Venda de discos na casa dos milhões - se eu estiver errado me corrija - sempre foi sinônimo de porcaria: pagode macaqueado, sertanejo esgoelado, axé-music bobo; lembrei agora do Dori Caymmi, porque acho que estou ficando meio chato, como ele. Perguntaram porque ele era intolerante com essa música comercial baiana, e ele disse, com cara de espanto, que não era intolerante, que estava só treinando para ser o Ariano Suass
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 28/4/2006 19:06 
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Faltou completar o nome no final do comentário anterior, claro que falo de Ariano Suassuna.
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 1/5/2006 00:56 
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não acho de maneira alguma que essas músicas tenham apenas "valor sociológico" - para mim têm sim valor musical, estético, artístico - acho que tudo passa a depender do modo como cada um de nós define música/estética/arte, ou como julgamos qualidade artística - acho que sou um modernista incurável: gosto de arte que propõe o novo, a aventura, a ousadia - em música não procuro virtuosismo instrumental ou harmonias elaboradas - se essas coisas não estiverem aliadas à uma proposta inovadora, o cara pode ser o melhor instrumentista do mundo que não me interessa - vejo mais o novo em muito tecnobrega ou funk carioca do que em músicas ditas de qualidade - em muito da música "instrumental" brasileira, por exemplo, o que escuto é gente repetindo (de forma pior) o que Hermeto e Egberto fizeram de forma brilhante e corajosa nos anos 70 - para mim não adianta nada, repito, aquilo ser bem tocado

acho que se quisesse gente tocando bem, com boas harmonias, eu me contentaria com música erudita ou free jazz radical dos anos 60 - mas tudo isso parece ter chegado no seu limite - e se fragmentou com dodecafonismo/serialismo/música concreta/música eletroacústica

então gosto mesmo é do silêncio (cheio de sons) de John Cage, das colagens ambientais de Luc Ferrari, da música generativa de Brian Eno (que nunca foi músico)

e' música de idéia, não de "boa música"


Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 2/5/2006 00:17 
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continuando: nesse sentido, no campo da música popular, me interessa mais o que o Kraftwerk fez: os robôs tocam no palco uma música bem "imbecil", que "qualquer calculadora faria"

ou me interessa mais o que faz o DJ Iran, do cybertecnobrega: pega o esqueleto ritmico da jovem guarda, coloca no computador, junta um subgrave de reggaeton, uns sons sampleados de ringtone de celular e pronto - e consegue criar com isso uma música ultradançante

no funk carioca sempre fico impressionado com as inovações: cada dia surge um tamborzão eletrônico novo, sampleando ritmos da umbanda carioca

sei que são experiências que estão apenas começando: espero que daí apareçam inovações cada vez mais surpreendentes - e acho que esses são territórios mais propícios para inovações do que aquele no qual circula a música "de qualidade"

mas é óbvio que não quero impor esse modo de pensar para ninguém (como o pessoal "da qualidade" quer detonar essas músicas que eu gosto como apenas lixo, de forma intolerante e muitas vezes ditatorial - por isso tantas vezes minha defesa tem que partir para o ataque)


Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 2/5/2006 05:53 
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Compreendo perfeitamente tuas observações sobre o tecnobrega; na verdade, estou cada vez mais certo de que falamos de coisas distintas, de músicas distintas (postei inclusive um comentário a partir de uma resenha do Carlos Rennó falando disso chamado "Mais provençais"). Acho que - teoricamente - me interessa a tradição da canção, principalmente no que a diferencia da música popular ligeira (pagode rasteiro, forró universitário, ou não tem diferença nenhuna?). Minhas "tensões" com o tecnobrega dizem respeito ao fato de que eu cresci ouvindo isso, dancei muito nos interiores do Pará e, principalmente, ri muito com o escracho dos bregueiros, o que para mim é o grande mérito dessa música, o humor, e não consigo vê-los como parte dessa tradição cancional que citei acima. Como eu sou pago pra fazer o trabalho pesado de analisar a canção ao invés de apenas fazê-la, sou obrigado a questionar o que não me parece devidamente explicitado; por isso a cobrança a respeito do valor da "música da periferia" na esteira da história da MPB. Não me parece sacramentada a idéia de que estamos diante de um estilo que vá permanecer, ou quem sabe até vá, como o sertanejo "moderno" de um Leonardo ou o o axé-music da Ivete Sangalo. Imortais? quem sabe... mas não esqueçamos que a música popular nos expressa enquanto povo, e se antes nos sentíamos representados por um Luiz Gonzaga e hoje precisamos nos ver no tecnobrega, estamos descendo ladeira a baixo, junto com a política, a sociedade...
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 25/5/2006 17:57 
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Interessam-se sobremaneira as discussões envolvendo o tecnobrega, particularmente por ser esta música meu atual objeto de estudo. Cheguei no doutorado em Música com um projeto de tese que dava continuidade à minha pesquisa de mestrado sobre a tradição/modernidade no carimbó de Belém. Passados dois meses, porém, decidi repentinamente que gostaria de melhor conhecer uma música que particularmente me chama a atenção, não por me cair bem auditivamente, mas por mobilizar tanta platéia, e uma platéia da qual não fazia parte. Queria e continuo querendo entender o que implica no gosto musical, mas desatrelado da noção de "certo padrão de cancioneiro nacional" (citado por Burnett neste espaço de discussão), que me parece dúbia e ao mesmo tempo reverberante de uma ideologia e de um discurso que separam por muros espessos e altos o centro da periferia, o pobre do rico, a tradição da modernidade, o digital do analógico, o bom do ruim, o colonizador do colonizado, o original da cópia, entre outras relações de oposição. Comecei a estudar o tecnobrega sem saber se em algum momento conseguiria apreciá-lo, embora meus objetivos científicos não necessariamente implicassem em prazer de escuta musical. Imerso no trabalho de campo, no entanto, comecei a escutar outros "ecos sonoros" (Zumthor) que emanam desta e de qualquer outra música. São justamente estes ecos que normalmente desprezamos, por graça ou azar de nossa escuta musical ocidentalizada que privilegia o fenômeno auditivo em si. Isto me
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 03:19 
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(cont.) seduz, sem dúvida alguma. Não é à toa que prefiro dormir ouvindo Bach do que acordar com a batida do funk. Por outro lado, a música soa, para além dela própria, o seu entorno. Lembrando Dell Hymes, o som é social. Longe de mim achar que se deva reverenciar toda e qualquer música de "periferia", especialmente se a teoria de Burnett considerando a exploração massiva desta música como decorrente do fracasso do Estado e da miséria do povo pudesse ser avalizada. Concordando com Vianna, acredito sim na criatividade, apesar da miséria. Mas que "miséria"? Em Belém ao menos, periferia e miséria nem sempre se cruzam. Por outro lado, concordo com Burnett quando ele aponta um movimento de super-valorização da música de "periferia", que não me parece ter sido mencionado por Vianna. Por que a super-valorização das músicas de "periferia" causam esse frisson todo? Ora... O Brasil vive super-valorizando as coisas, mesmo aquelas que mais tarde se confirmam como expressões culturais representativas do país. Os modismos então, nem se fale. Acredito piamente que o distanciamento/proximidade nos "ajuda a ver qualidade naquilo que antes era visto como desdém", conforme citou Vianna. Mudam as opiniões, mudam as estéticas das músicas e também se reconfiguram os "limites da sensibilidade", contrapostamente àquilo que Burnett considerou. Sou prova cabal disto. Atualmente estou desenvolvendo uma pesquisa sobre análise das performances do tecnobrega, envolvendo gravações em CDs e materiais audiov
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 03:21 
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(cont.) isuais produzidos recentemente, incluindo o DVD da Banda Tecnoshow e a gravação do programa Central da Periferia. Sendo assim, respondendo à questão levantada por Burnett, alguém dignou-se a comentar sobre o assunto. Não sou militante da música produzida alternativamente (ao contrário de Vianna), embora reconheça a existência do monopólio dos selos - não é sem motivo que, em defesa da "pirataria", nem toda música que existe é ouvida (Vianna). Em relação à identificação do tecnobrega com as "metamídias", não me posiciono tão idealisticamente como Vianna, embora considere fascinante este modo de produção-circulação-recepção musical. O pessoal do tecnobrega vem cedendo espaço a outras mídias, aquelas que talvez consigam desterritorializar esta música - não que as alternativas não o possam. Isto já vem acontecendo, modestamente. O discurso em favor do tecnobrega é tão presente e forte quanto o discurso que o relega à condição de música de "mau gosto" estético. Defensores do tecnobrega valem-se da condição de estigmatizados para afirmarem a sua condição de "povão" (como diria a Gabi Amarantos, vocalista da Tecnoshow que muito tem colaborado com esta pesquisa), de pertencente à periferia etc. De um jeito diferente, reproduzem as mesmas relações de oposição que mencionei anteriormente. Sentem-se orgulhosos porque apareceram no Faustão, por terem sido citados na revista x ou y, por terem sido convidados para participar do Terruá em São Paulo etc. Sentem-se bem por estarem cir
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 03:22 
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(cont.) culando nos meios oficiais, apesar de não terem em momento algum aberto mão das mídias alternativas. O que há de mau nisto? Nada mesmo, especialmente se começarmos a relativizar este modo de produção e considerarmos as mudanças estéticas que o tecnobrega vem sofrendo à medida de sua efemeridade, de seu cosmopolitismo, do increasing tecnológico, das audiências, dos agenciamentos, do movimento contra-estigmatizador e das tradições musicais, corporais e comportamentais a ele amalgamadas.
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 03:23 
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alô Paulo: muito interessantes seus comentários - gostaria de conhecer melhor a sua pesquisa - você já publicou alguma coisa?
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 5/8/2006 03:29 
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Obrigado pelo comentário, Hermano. Estou dando início às publicações com foco no tecnobrega e na música brega de forma geral. Em breve a ABA lançará um CD com as comunicações apresentadas no congresso de Goiânia, de forma que poderás ler alguma coisa lá. De imediato, publiquei um pequeno texto no www.cafetinaeletroacustica abordando justamente a relação de estranhamento entre o pesquisador e este objeto de estudo. Se rolar mais alguma publicação adiante, certamente te avisarei. Aproveito para mais uma vez te agradecer pelos textos que gentilmente me cedeste e que estão sendo fundamentais para a construção dos meus argumentos. Abraços do Paulo Murilo.
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 03:59 
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Corrigindo: www.cafetinaeletroacustica.com
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 04:01 
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Eu sempre tenho a impressão que não me expresso bem a respeito do "tema" Tecnobrega e afins. Esse distanciamento mencionado pelo Paulo, essa audição "ocidentalizada" é justamente meu ponto de partida em todos os pequenos textos que escrevi sobre o assunto. Veja, eu sou o melhor exemplo (pelo menos acho que sou) de como essa muralha não existe. O Paulo vai entender - do ponto de vista geográfico belenense - o que quero dizer. Minha 1ª lembrança espacial, ainda na infância, é de uma vila no bairro da Sacramenta; depois da separação de meus pais mudamos muitas vezes, morei na Pedreira, no Curió, na Guanabara e, por fim, onde passei parte da adolescência e para onde mudei quando casei, na Cidade Nova. Aí Hermano, tudo perifa! Isso significa - mas não explica talvez - que eu vivi de muito perto todas as fases do "movimento" Brega paraense, diretamente na hoje tão badalada periferia. Fora isso, passava longos períodos de férias na cidade natal de minha mãe, Santo Antônio do Tauá, onde novamente tomava um banho de cultura periférica. Até hoje posso cantar bregas inteiros, Roberto Vilar, Alípio Martins, Tedd Max, Fernando Belém, Luiz Guilherme, putz, são tantos e tão próximos, íntimos mesmo. Devo estar um pouco atrasado para as novas, porque estou 8 anos morando fora de Belém. Tudo isso pra dizer que eu não poderia, nem se quisesse, me relacionar com essa história de um ponto de vista exterior, isso é tão claro pra mim quanto o fato de que eu não poderia me tornar um ouvinte for
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 5/8/2006 12:48 
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(conto.) mal de música clássica por total incapacidade auditiva. Como eu não sou especialista em Brega, mas um ouvinte a mais no meio do povo, me sinto quase ofendido quando alguém espera me ensinar a 'perceber' a música Brega, a senti-la de modo "relativo", isso soa simplesmente ridículo pra mim. Não posso levar a sério - de um ponto de vista formal, rigoroso, técnico uma música que nunca quis ser séria, que sempre foi mestre na auto-ironia; explico exemplificando e saindo do terreno: não posso tomar tão seriamente um Genival Lacerda, a despeito de ser um dos cantores que mais me influenciou (não quero esquecer que também faço música). Muito bem, eu acho que a Central da Periferia é um programa político, onde a grande intenção é mostrar que as pessoas pobres - que tiveram que encontrar alternativas contra a situação eterna de carências em que nascem e morrem - também são felizes, sorridentes, mesmo sem dentes. Acho infame essa idealização da miséria e esse esquecimento ativo de que a pobreza no entorno dos bailes e retratada na Rede Globo, foi gerada, de muitas formas, pela própria emissora. Exemplo: sempre que lembro do estardalhaço com que foi anunciado "o primeiro negro" a apresentar o JN. Ora, depois de três décadas de história, a própria Rede Globo se compraz consigo mesma porque colocou um negro no horário nobre, a mesma emissora que antes, durante e depois dessa "revolução" faz dos negros atores toda a vida das novelas escravos, empregadas, capitães-do-mato e por
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 5/8/2006 12:51 
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(cont.) aí vai. É aí que eu acho que o Tecnobrega é, de muitas formas, produto da miséria que cerca a periferia. Mas como eu saí(?) desse mesmo lugar, não posso aceitar que todo mundo tem que fazer isso porque essa é a música popular brasileira hoje. Desculpem a babaquice da auto-referêcia, mas eu faço um pós-doc na USP chamado "Indústria cultural e canção popular no Brasil", escrevo canções, e agora sou professor da Universidade Federal de São Paulo. O fato de ter sido gestado nesse mesmo ambiente que gera o Brega e de me emocionar ouvindo Alípio Martins não faz de mim um artista popular, assim como nunca fui capaz de compor carimbós pelo simples fato de não ter tido a vivência dos rios e do folclore que tanto identificam o Pará. Para mim, Belém é uma cidade cosmopolita, onde eu podia ouvir um Walter Bandeira cantando Sinatra e Piaf ao mesmo tempo em que via um Ronaldo Silva compor as mais belas toadas de boi na minha sala na Cidade Nova, de ter descoberto o álbum "A arte de Chico Buarque" aos 14 anos e visto que fazer canção era a única coisa que eu tinha alguma vocação. Pela enésima vez repito, não sou um ressentido porque a Gabi faz sucesso e eu não, apenas não posso entender a idéia de que não existe mais música boa e ruim, que não podemos mais atribuir valor ao que nos toca ou não. Basta dizer que o rap é, pra mim, a maior contribuição musical do início do século XXI no Brasil, ainda que eu não goste de rap. Sempre brinco dizendo que gosto de rap como de bossa nova, ou
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 5/8/2006 12:51 
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(cont.) seja, só gosto do Mano Brown e do João Gilberto, os criadores do estilo; isso pra dizer que minha relação emocional com o Brega não é capaz de me tornar um deslumbrado, como creio que, meio 'etnocentricamente', os amigos do Sudeste olham pros "índios" paraenses. Um cara que eu gosto muito, chamado Pedro Alexandre Sanches saiu do Terruá Pará em São Paulo e escreveu no blog um texto chamado "O que aconteceu com a música paraense?" Ora, só quem não se interessava minimamente pela região nos últimos 20 anos pode achar que alguma coisa "aconteceu" lá. Eu saí - como grande parte do público - apenas sem entender o que a Gabi fazia naquele show. Explico: pensei muito sobre as palavras do Pedro sobre nossa incapacidade paraense de ver nossos valores, de que eu poderia estar sendo preconceituoso junto com o público paulistano, que recebeu seca e friamente a participação dela no show, mas ao mesmo tempo desconfiava do por quê o Mestre Laurentino ter sido ovacionado pelo mesmo público. Não é curioso isso? Minha opinião é que as pessoas vêem verdade nele, mas não acreditam na performance dela, acham que é falso, sem propósito. É o público todo, não uma parte. É preciso pensar nisso também, e não apenas condenar o suposto preconceito paulistano. Laurentino não é nenhum galã. O carinho por ele tem a ver com talento, simplesmente. Assim como a cena Rock paraense é uma das mais intensas do país, senão a mais.
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 5/8/2006 13:03 
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(cont.) Mas a despeito de todas essas diferenças, quero dizer que me sinto profundamente honrado em poder dialogar com pessoas como vocês num espaço como este. Quero crer que todo esse debate, no fundo, tem um valor inestimável. Quem sabe não seria o caso de organizarmos um grande encontro sobre o tema da música popular hoje. Hermano, que te parece a idéia? topo trabalhar pela organização e ainda dar minha cara a tapa, contanto que depois a gente pudesse tomar uma ouvindo Brega.
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 5/8/2006 13:06 
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Retribuo esta honra, prezado Henry. De ontem para cá já conseguimos tocar em vários pontos que contribuiem muitíssimo para as minhas atuais preocupações de pesquisa. Vou destacar pontos de sua fala e tentar comentá-los:
1) "Não posso levar a sério - de um ponto de vista formal, rigoroso, técnico uma música que nunca quis ser séria, que sempre foi mestre na auto-ironia". Volto à questão do "padrão" sobre a qual fizeste referência anteriormente. Acho-a limitante sob o ponto de vista da antropologia da música, considerando que a teoria musical é gestada exatamente onde a cultura é produzida. Por isso mesmo sabemos quando o tico-tico no fubá é tocado por um pianista estrangeiro que se embebeu em Mozart e Beethoven a vida inteira. A problemática dentro da análise musical ainda reside no fato de que se pensa a música a partir de referenciais únicos (etnocêntricos) que definem rigor e técnica. Estes conceitos são construídos, assim como o rigor e as técnicas composicionais eruditas do século XX já estão bem distantes do rigor e da técnica que emolduraram a música de Beethoven, entre outros. Se não nos dispusermos a entender a música não apenas no aspecto de sua estrutura, mas também considerando o seu entorno, fica bem fácil sustentar qualquer coisa dentro do comentado "padrão" analítico. Aliás, a grande dificuldade e ao mesmo tempo o grande fascínio do conhecimento musical é desenvolvermos, enquanto analistas, diferentes competências, tanto quanto devemos saber qual delas aproveit
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 17:45 
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(cont.) ar ao se falar de brega, de tecnobrega, de jovem guarda, da música de Stravinsky, de Cage, de Schubert, de Dominguinhos etc. Pode não parecer, mas minha posição é bem diferente do excessivo relativismo da pós-modernidade, em que parece ser pecado concluir qualquer idéia, já que tudo é possível. Não sou partidário da neutralidade; portanto, não poderia (e nem quero) boicotar o juízo de valor, especialmente em se tratando de um objeto estigmatizado. Também discordo quanto à "falta" se seriedade na música brega, embora esteja encarnada em sua performance e na recepção. É que a estética não se limita àquilo que ouvimos: o trabalho etnográfico que tenho realizado nos estúdios e especialmente nas chamadas "festas de aparelhagem" me põe em contato com aquilo que está por detrás da música propriamente dita (aproveitando-me de uma observação do etnomusicólogo Samuel Araújo - 1999), a exemplo dos processos produtivos que envolvem uma gramática musical e tecnológica que ainda me causa muito estranhamento, do nível de envolvimento de DJs e produtores com um trabalho de pesquisa acústica que precisa acompanhar a velocidade (McLuhan) com a qual a música surge/desaparece na/da cena musical, entre outros aspectos.
2) "Acho infame essa idealização da miséria e esse esquecimento ativo de que a pobreza no entorno dos bailes e retratada na Rede Globo, foi gerada, de muitas formas, pela própria emissora". Não discordo disto (mesmo não sendo um adorniano), embora a Globo (a exemplo d
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 17:47 
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(cont.) e outras mídias oficiais) esteja dando conta de mostrar (à sua maneira, é verdade) o tecnobrega para além de seu território "natal". É bom recordarmos da observação de Vianna sobre a realidade de que nem toda a música que existe é ouvida.
3) "É aí que eu acho que o Tecnobrega é, de muitas formas, produto da miséria que cerca a periferia". A "miséria" que circunda a "periferia" de Belém deve ser pensada, caso contrário pode-se ter a impressão de que é idêntica às idéias massivas sobre "periferia", isto é, de que significa pobreza material e cultural. Ou será que não existe criatividade na criação musical do tecnobrega? Desprovido de qualquer militância, posso afirmar que existe sim...
4) "Mas como eu saí(?) desse mesmo lugar, não posso aceitar que todo mundo tem que fazer isso porque essa é a música popular brasileira hoje". Concordo...
5) "Pela enésima vez repito, não sou um ressentido porque a Gabi faz sucesso e eu não, apenas não posso entender a idéia de que não existe mais música boa e ruim, que não podemos mais atribuir valor ao que nos toca ou não". Tenho certeza de que teu discurso não é de ressentimento. Pelo contrário, tuas observações são instigantes, provocadoras. Muitas delas inclusive refletem minha trajetória pessoal e profissional, na medida em que, além de ter sido criado sob o "inquestionável" valor da qualidade musical da música erudita, jamais havia pensado em estudar uma música que não me despertava prazer. Hoje desperta...
6) "Eu saí - como gr
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 17:47 
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(cont.) ande parte do público - apenas sem entender o que a Gabi fazia naquele show". Ok... Mas isto não implica em considerar, em termos de crítica musical, que o gênero é ruim. Por outro lado, reafirmo que podemos achar ruim ou bom o que quisermos. Claro!
Por hora é isto. Grato por esta oportunidade,
Paulo Murilo Amaral
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 5/8/2006 17:48 
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a conversa está realmente muito interessante, apesar de achar que já respondi as questões do Henry nos meus comentários anteriores: nunca disse que não existe música ruim ou música boa, ou que as diferentes tradições musicais não podem ser comparadas (a partir de escalas de valores construídas socialmente, como diz o Paulo): sou até bem anti-relativista neste sentido: prefiro (esteticamente) o tecnobrega a quase tudo que se tem feito ultimamente na "tradição da canção" mais ortodoxa... Acho que é uma música mais criativa sim (vide meus comentários acima)

Outra coisa: acho que é uma simplificação perigosa dizer que o Central da Periferia mostra apenas um povo sorridente... Ou que essa música é produto da miséria... Mas esta é uma outra longa conversa...
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 5/8/2006 20:37 
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Sim Hermano, pode ser simplificador minha opinião, mas é que o último programa de música popular que eu vi na Rede Globo foi Chico & Caetano... portanto. Que você prefira o Tecnobrega a um Vitor Ramil eu respeito, você não é o único, vide a venda maciça da banda Calypso.
Acho que não é reprovável que o Tecnobrega seja visto como um produto da miséria; bem entendido, quando me refiro à miséria, penso no fato de que infelizmente o velho Adorno acertou em pelo menos um ponto: a regressão da audição. Eu me sinto parte disso, sem nenhuma vergonha.
Eu também acho que já respondi às questões levantadas anteriormente, e reitero que meu objeto de estudo é a canção "tradicional", como você diz, e que o Tecnobrega não me interessa do ponto de vista intelectual, como a você que é antropólogo. Para mim, Brega, Tecnobrega e afins são música para ouvir e dançar nas festas do Pará, nada mais que isso.
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 5/8/2006 22:49 
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eu falei "quase tudo": a música de Vitor Ramil eu adoro, tanto quanto tecnobrega - mas é uma nobre exceção

e adoro dançar tecnobrega - meu interesse não é só intelectual... sempre toco tecnobrega quando sou chamado para atuar como DJ... as pessoas logo fazem a festa na pista de dança...

mas voltando a falar na alegria: não entendo porque tanta desconfiança e incômodo com relação à alegria das periferias... é como se elas devessem ser sempre tristes e contritas por serem pobres... como se só a tristeza pudesse produzir a revolta contra a miséria... como se a alegria fosse sentimento reacionário ou falso, reprodutor da miséria... não acredito em nada disso... estou com Oswald de Andrade: a alegria é a prova dos nove
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2006 00:18 
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eu falei "quase tudo": a música de Vitor Ramil eu adoro, tanto quanto tecnobrega - mas é uma nobre exceção

e adoro dançar tecnobrega - meu interesse não é só intelectual... sempre toco tecnobrega quando sou chamado para atuar como DJ... as pessoas logo fazem a festa na pista de dança...

mas voltando a falar na alegria: não entendo porque tanta desconfiança e incômodo com relação à alegria das periferias... é como se elas devessem ser sempre tristes e contritas por serem pobres... como se só a tristeza pudesse produzir a revolta contra a miséria... como se a alegria fosse sentimento reacionário ou falso, reprodutor da miséria... não acredito em nada disso... estou com Oswald de Andrade: a alegria é a prova dos nove
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2006 00:22 
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Esse negócio de debate acadêmico é bom porque para cada argumento lançado aqui um de nós posta 2 contrários, todo mundo tem razão e ninguém sabe de nada no fundo. Onde eu escrevi que a periferia precisa ser triste?!?!
Terminei meu último texto dizendo que "Para mim, Brega, Tecnobrega e afins são música para ouvir e dançar nas festas do Pará, nada mais que isso"; como é posso achar que a periferia é triste? Eu disse, de modo diverso, que um programa como o Central da Periferia faz parecer que a vida em cima da merda de um esgoto aberto é o máximo (desculpa a necessidade da expressão), e que essa deferência Global ao Tecnobrega encobre uma manutenção do Status Quo (ainda se diz isso?) violentíssima. Só isso.
Henry Burnett · São Paulo (SP) · 6/8/2006 00:45 
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dá uma olhada com atenção no programa: dizer que tecnobrega é o máximo não significa dizer que o esgoto aberto é o máximo - a não ser que alguém pense que tecnobrega é produto do esgoto... quando digo que hip hop foi uma invenção genial do Bronx, claro que não estou dizendo que o Bronx é um lugar que não tem problemas... o programa apenas não copia a maioria dos outros programas para os quais a periferia só interessa quando acontece uma desgraça - o Central da Periferia acredita que a alegria e a criatividade da periferia podem ser sim matéria para a transformação social
Hermano Vianna · Rio de Janeiro (RJ) · 6/8/2006 01:38 
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Um dia hei de aprender a dançar o tecnobrega, Hermano. Antes disto, quero ver se consigo aprender a mexer em toda aquela parafernália eletrônica das aparelhagens sonoras. Só espero que algum produtor se disponha a me ajudar nesta difícil tarefa. Saudações a vocês,
Paulo Murilo
Paulo Murilo Amaral · Belém (PA) · 6/8/2006 03:04 
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