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entrevista: DÉ PALMEIRA

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Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ
20/3/2006 · 108 · 5
 

Alguns personagens da história da música assistem a ela tão perto e poucos parecem ir até eles para conhecer sua visão. Dé Palmeira é um desses. Baixista da formação original do Barão Vermelho, a entrevista com ele foi uma boa oportunidade de ver a caminhada do rock brasileiro e aproximação do gênero com a mpb, ao longo dos últimos vinte e cinco anos.

"O trabalho não é só do artista que está na capa do CD, é preciso uma equipe boa pra um CD ficar bacana". A frase é dele, que atualmente é diretor, produtor e, sobretudo, baixista do elogiado (e muito bom mesmo) show/dvd/cd "Adriana Partimpim".

Membro da formação original do Barão Vermelho, integrante seminal do movimento que fez do rock, música pop no Brasil, na década de 80, ele é dono de uma história e uma bagagem que nos cativou o interesse em entrevistá-lo. E devo admitir, sempre que via a dancinha e a pose do Dé nos vídeos e fotos das antigas do Barão, ele sempre me despertou curiosidade. A conversa foi feita ao longo de imensos e-mails no mês de dezembro, com alguns ajustes já em janeiro. Isso é importante para se compreender o ritmo da conversa.

bm: Você começou a 'carreira' de músico no rock, numa época em que não se pensava muito em se ter uma 'carreira' de roqueiro no Brasil, já que o cenário não favorecia. O que vocês tinham em mente, pretensões e objetivos, quando formaram o Barão?

Dé Palmeira: Hummmm...bom, ninguém naquela época tinha pretensão nenhuma de começar uma "carreira de roqueiro", como você disse. Éramos apenas adolescentes, amadores querendo tocar. Eu tocava em duas ou três bandas simultaneamente, acho que o Frejat também tinha outras bandas... enfim, a gente só queria se divertir. Tem um episódio engraçado que já foi falado algumas vezes mas eu acho que é legal contar. O Léo Jaime tinha feito um ensaio conosco antes do Cazuza. Como ele não gostou muito do som, sugeriu o Cazuza pra vaga de vocalista dizendoque era uma cara super legal, gente fina e, " filho do dono da gravadora Somlivre". Ele olhou pra gente e ficou esperando a nossa reação, mas nós nem ligamos, parecia que ele estava falando grego. Ninguém estava nem aí pra isso, só queríamos que o vocalista fosse maneiro e gostasse do nosso som. Ninguém pensava em gravar LP, em fazer carreira, nem se o pai dele tinha uma gravadora, nada disso. É uma coisa que mudou muito, tempos depois os caras já montavam uma banda querendo ficar ricos e famosos!

Existia no Rio de Janeiro naquela época, um lugar que fez toda a diferença pras bandas que estavam começando a tocar e as que já tocavam e faziam o circuito "undergound". Chamava-se "Circo Voador" e foi, todos sabem disso, o berço desse movimento chamado "Rock Brasil" ou "BROCK" (palavra que abomino)! O Circo fez a diferença porque era o lugar mais democrático do mundo. Era um palco onde aconteciam shows de música, peças, dança, performances etc. Ele desempenhou um papel fundamental na época, como plataforma de lançamento, laboratório, e milhares de coisas que fizeram com que todo aquele pessoal que tinha a sua banda, o seu grupo de teatro, etc, pudesse trabalhar e ser visto pela cidade inteira, pelo Brasil inteiro. Hoje isso já não acontece mais. Não que eu ache que o Circo de hoje devesse, obrigatoriamente, fazer a mesma coisa (embora pudesse), mas não existe mais um lugar assim no Rio e, com isso, não há mais espaços pra escoar uma enorme produção artística, cultural e de entretenimento. Para as bandas então é pior. O Ballroom, no Humaitá, que foi demolido, era o único palco decente que tinha na zona sul. Nos outros bares é preciso pagar pra tocar. Para um grupo, ou artista, que está começando isso é mortal. Os empresários da noite não têm o menor interesse nisso. Talvez, agora, com a grande movimentação dos bares da Lapa, isso seja atenuado um pouco. Então, olhando em perspectiva, a minha geração teve uma oportunidade de ouro. Um lugar pra tocar quase de graça. Isso, definitivamente, faz diferença.


bm: Como foi a sua entrada no grupo, já que normalmente só se sabe/fala da entrada do Cazuza?

DP: Eu entrei no Barão antes do Frejat e do Cazuza. O Maurício e o Guto eram meus conhecidos e me chamaram para uma audição. Cheguei lá toquei, eles gostaram e me convidaram pro time.

bm: Outra questão é sobre a sua saída da banda em 1990. Isso foi perguntado para você em um comentário do blog do Antonio Carlos Miguel, mas a resposta ficou no ar. O que aconteceu e quais eram seus planos na época?

DP: Uau! Só assunto novo? Bruno não faz isso comigo!! ;-)
Decidi me afastar da banda por motivos musicais. Você quer detalhes né? Bom, o que eu posso dizer é que eu já não via muito futuro pra mim sendo apenas músico de uma banda de rock no Brasil. Achei que, pra mim, já estava bom aquela experiência e fui tratar da minha vida.


bm: Sobre suas composições. O seu nome, como o de vários outros parceiros doCazuza, ficou um pouco de lado na biografia dele, devido ao enorme sucesso da assinatura Cazuza/Frejat. Mas você esteve ao lado dele em algumas pérolas,como "Minha flor, meu bebê" (a minha favorita), "Mulher sem razão", "Mais feliz" e "Preciso dizer que te amo" - essas três últimas em parceria, também, com Bebel Gilberto. Não sei se existem muitas outras suas com ele. Depois da morte do Cazuza, me lembro agora de "Pense e dance", com o Frejat e o Guto Goffi, se não me engano. Em suma, você é autor de poucas canções, mas só manda clássicos. De que forma seu lado 'compositor' continuou na década de 90 e, se você puder, comente o processo de criação desses 'clássicos'.

DP: Bom, não acho que meu nome tenha ficado assim tão de lado na biografia do Cazuza. O Frejat foi o seu principal parceiro, autor, ele sim, de verdadeiros clássicos que mudaram o perfil da musica brasileira e é natural que se dê mais atenção à dupla do que às outras parcerias. Minhas composições com Cazuza são bem poucas, na verdade nem sei quantas, mas não devem chegar a dez. Trabalhamos mais depois que ele saiu do Barão e nos tornamos mais próximos. Duas delas viraram "standards" nacionais como "Preciso dizer que te amo", que tem várias gravações com Marina, Léo Jaime, Bebel, Emílio Santiago, Cássia Eller, Zizi Possi etc... A outra é "Mais Feliz" que na gravação da Adriana Calcanhotto se tornou um inesperado hit radiofônico. Sob o processo de criação dessas músicas, o livro que a Lucinha Araújo fez chamado: "Cazuza, Preciso dizer que te amo" traz entrevistas e comentários sobre várias parcerias inclusive essas.

(Trecho retirado do livro Preciso dizer que te amo, Ed. Globo)
sobre 'Minha Flor, meu bebê: 'Tive muita dificuldade em terminar essa música. Já estava com a letra, fiz a primeira parte e não conseguia terminar a segunda. Cazuza começou a gravar e me cobrava e eu, nada. Meu irmão, o Ricardinho, que é guitarrista, estava tocando com o Cazuza no disco e também me trazia os recados: cadê a música? Um belo dia, meu irmão chega em casa e diz: terminei a música para você! Como? Ele estava no estúdio gravando, precisavam da música e como eu não comparecia, terminou pra mim. Foi a música que me deu menos trabalho, porque eles fizeram para mim. E eu e o Cazuza, malandramente, resolvemos não dar parceria para ele. O Ezequiel [Neves, produtor] sacaneava, porque a música ficou linda e ele dizia: parece aquelas coisas do Lupícinio Rodrigues, famoso por pagar cachaça para alguns e ficar com a música. Mas, enfim, o Ricardinho é meu irmão, brother mesmo, uma flor de pessoa e ficou tudo certo.)


bm: Considerando sua resposta no livro, me vem uma pergunta. Vocês fizeram isso com seu irmão só de sacanagem?! Seu irmão não ficou muito puto com vocês não?! hahahah...

DP:Não cara, é claro que não teve nada disso. O Ricardo é um gentleman e me ajudou a finalizar a seqüência de acordes finais. A história é longa e nem sei se vale a pena... Na entrevista pro livro ficou parecendo sacanagem, mas não foi assim que aconteceu exatamente. (sabe como é imprensa né? hahahah...) Eu na época achei tudo certo mas depois percebi deveríamos ter dado aparceria.

bm: E nos anos 90? Como foi sua trajetória?

DP:os anos 90 minha produção musical foi, como de costume, modesta. Trabalhei um pouco com o Fausto Fawcett, que eu acho genial, e fiz algumas coisas esporádicas com o Alvin L e com o Humberto Effe. Também compus com o Gil e o Liminha a música "Quero ser seu funk" do disco "Parabolicamará" de 92. Nessa época eu me afastei muito do ambiente Pop/Rock e trabalhei como DJ de uma casa noturna obscura no Rio. Tocava às quintas e sábados. Meu contato com musica era basicamente esse.

bm: Como foi esse trabalho de DJ’s? Que tipo de DJ vc era? hehe...

DP: O Gustavo Corsi (guitarrista dos Picassos Falsos, Marina, Gabriel Pensador, etc...) me convidou. Ele já era DJ da casa e me chamou pra formarmos uma dupla. No começo queríamos tocar apenas musica-negra-americana-dos-anos-70. Depois a gente viu que era difícil de ficar só um tipo de musica, abrimos para uma seleção mais variada e tocávamos de tudo. De Motown a Clementina, e por aí... Foi um período onde eu aprendi bastante e revi muitos conceitos, mas nunca pensei em ganhar a vida com esse ofício.


bm: Numa entrevista recente que fiz com Wagner Tiso, ele comentava das dificuldades em se criar um 'clássico' nos dias de hoje, seja no cinema, sejana música, ou em qualquer outra manifestação artística. Ele atribuía isso a velocidade do consumo da arte nos dias de hoje. Você, como autor de alguns 'clássicos' (hehe) também enxerga assim ou acha que não isso não mudou?

DP: Eu li a entrevista no seu site, o Wagner é um mestre e sabe o que diz. Ele tem uma certa razão quando atribui esse tipo de coisa aos novos hábitos de consumo de massa. A maneira de se ouvir musica mudou, ninguém mais tem tempo pra ouvir um disco por inteiro. Os próprios artistas têm culpa nisso também. Há uma porção de Cd's onde apenas duas ou três músicas são boas. O resto é embromação. O download de musicas é uma coisa sensacional, na minha opinião. Mas também acho que isso faz com que as pessoas prefiram baixar uma canção de cada artista em vez do álbum inteiro. Acho também que ainda estamos numa fase de transição, onde os formatos ainda não estão definidos. A tecnologia de transmissão de dados ainda é cara e lenta. Só quando isso for sendo absorvido pela indústria é que poderemos ter um panorama mais definido. Com as novas tecnologias sendo aperfeiçoadas, você vai poder comprar uma canção pelo celular em qualquer lugar que se esteja.

bm: Depois de sair do Barão, você chegou a tocar com o Lobão e ainda teve uma outra banda, a Telefone-Gol. Nessa época em que formou esse grupo, você pensava em voltar a viver a rotina de uma banda ou isso foi só uma brincadeira?

DP: Quando eu decidi sair do Barão, já ensaiava com o pessoal do Telefone-Gol. A idéia era montar a banda e sair tocando pelo Brasil. Gravamos uma demo na Warner e outra na EMI, mas os tempos estavam mudando mesmo. O cenário já não era mais o mesmo e não existiam mais os lugares pra tocar no Rio. O país passava pela crise do Plano Collor ou seja, a maré não tava pra peixe. Como ninguém se interessou pelo trabalho ficou difícil levar a banda adiante. Ou talvez o trabalho não fosse lá essas coisas mesmo... Haha! Logo depois, fiz parte da banda do Lobão na turnê que comemorava os seus dez anos de carreira e fizemos um show muito legal no Circo Voador. Mais tarde, junto com o Fausto Fawcett e Carlos Laufer montamos a "Falange Moulin Rouge" que era a banda que acompanhava o Fausto e as Louras no show "Básico Instinto". A banda tinha o Dado Villa-Lobos, João Barone, Laufer e eu. Gravamos um CD pela Sony e fizemos três anos de turnê. Ou seja, rotina de banda sempre foi o meu forte.

bm: Depois, se não estou enganado, você seguiu a vida de diretor musical e músico de apoio. Tendo sido integrante de uma das bandas mais famosas do país, como você enxerga o fato de passar a trabalhar por algoque vai levar a assinatura de outra pessoa?

DP: Depois de terminar a tour "Básico Instinto", eu fui “trabalhar” de DJ, como já disse, e fiquei nessa por uns três anos. Só depois é que voltei a trabalhar como músico. Gravei e toquei ao vivo com o Lobão novamente nas turnês dos CD "Noite” e "A Vida é Doce". Toquei também com o Kid Abelha durante dois anos e fiz alguns shows com o Gil nessa época.
O trabalho não é só do artista que está na capa do CD, é preciso uma equipe boa pra um CD ficar bacana e eu me sinto orgulhoso de fazer parte de uma assim hoje em dia. Todas as experiências que eu tive me ajudam no meu trabalho atual. Ter feito parte do Barão me traz vantagens porque eu entendo bem os dois lados.


bm: Depois do Barão e Telefone-Gol, seus principais trabalhos nem sempre estiveram ligados ao rock, certo?

DP: Não? Não sei! Mas isso é ruim? Isso é bom? Minha humilde opinião: sou um músico brasileiro, nascido em 1965, portanto pós-tropicalista e não posso me dar ao luxo de, em 2006 me interessar por um gênero apenas. O Brasil é imenso, o mundo é vasto e não podemos deixar de olhá-los com curiosidade.

bm: Ainda há espaço para o rock na sua vida hoje em dia?

DP: Fala sério! Que pergunta é essa??!! ;-) Outro dia fui convidado pra produzir o DVD de uma dupla romântica gaúcha e acabei de fazer a trilha sonora de um documentário onde foi só roquenrol: baixo, bateria e guitarra! Porradaria franciscana! Mas acho que sempre, em tudo o que eu fizer terá um pouco de rock.


bm: Por mais esquisita, e até pedante, que possa ter soado a última pergunta, acho que ela não é de todo. Pergunto isso pois o próprio Antonio Carlos Miguel é um que já escreveu que o rock já nao lhe apetece tanto, bem como o Marcelo Camelo o fez numa entrevista recente, e outras pessoas que vêm no rock uma porta de entrada para a música, mas ao longo da vida, vão se afastando, colocando seus interesses em outros focos...

DP: É, mas não é o meu caso. Eu gosto muito de tocar e ouvir rock, não é o único gênero que eu aprecio mas eu não deixei de gostar disso porque passei a ouvir outras coisas. Mas eu entendo o ACM e o Camelo, às vezes é preciso por o rock no seu devido lugar! ;-)

bm: Atualmente, como falamos, você trabalha com a Adriana Calcanhotto, no espetáculo/disco/dvd "Adriana Partimpim". Você foi o produtor do disco, diretor-artístico do show, além de tocar na banda. Quais foram as referências que vocês utilizaram nesse trabalho, já que há tanto tempo, acho que desde os trabalhos do Toquinho nas décadas de 70 e 80, que grandes nomes da música brasileira não se aventuram nesse formato? Quais as principais diferenças que você enxerga entre o que vocês fizeram e o que se fazia há 20 anos para as crianças, que no caso éramos eu e meus amigos... (hahaha)?

DP: É, esse foi um dos trabalhos mais bacanas que eu participei em toda minha vida. Na verdade não trabalhamos com muitas referências, as canções foram arranjadas e produzidas de uma maneira muito livre. O que houve de fato foi um entendimento muito grande de toda a equipe do tipo de atmosfera que a Adriana queria imprimir. Não só a banda, mas os diretores, o cenógrafo, o iluminador, os técnicos, o video maker etc... Todos os profissionais que participaram foram contagiados pelo mesmo entusiasmo e vontade de criar sem clichês e prisões e armadilhas que o mundo "POP" inventa pra si mesmo. Não vejo muita diferença nesses trabalhos, acho que existe, sim, uma coisa que os une que é a maneira com a qual eles abordam o universo infantil, sendo lúdico, mas não menosprezando nem excluindo nenhuma faixa etária.


bm: Partindo da sua frase:"criar sem clichês e prisões e armadilhas que o mundo "POP" inventa pra si mesmo."... Quais desses clichês são os que mais frequentemente aparecem no seu processo de criação e aos quais vc, frequentemente, precisa se policiar, se é que isso é tão racional assim e se é que existe um...

DP: Talvez a pior coisa seja ficar batendo na tecla do: "isso é rock" ou "issonão é rock", "isso é MPB", "isso é MTV"!! ;-)

bm: Como você falou de se interessar por outros gêneros, sobre misturar o rock com essa coisa brasileira e eu já li em algumas coisas sobre o seu interesse pela bossa nova, surge a pergunta... Na minha opinião, o Cazuza foi um dos que mais se aproximou de uma fusão do rock com este gênero, principalmente em "Faz parte do meu show", que traz aquela cadência rítmica bem clara da bossa nova e uma letra que apela para figuras visuais e textuais do rock, como “te levo pra festa e testo teu sexo/ com ar de professor”. Como se dá e qual é a sua relação com a bossa nova, já que ficou evidente que você, querendo ou não, hahah, é um 'roqueiro' ?

DP: É, acho que foi a primeira vez, depois de muito tempo, que uma bossa nova estourou nas rádios."Faz parte do meu show" tem arranjo do Waltel Blanco que é um maestro da bossa nova. Fez arranjos pro João Gilberto e etc... Não é exatamente uma mistura, mas tem suas peculiaridades como a seqüência de acordes maiores sem dissonância, coisa que não existe muito em bossas. Sempre ouvi bossa nova desde criança e isso foi uma influência muito grande. Gosto imensamente de João Gilberto e Tom Jobim. Outro dia ouvi uma frase que dizia assim: "a bossa nova era tudo o que o Brasil devia ter sido e não foi"! E acredito nisso piamente, houve um desvio de rota e deu no que deu.

bm: Pra terminar, o Caetano Veloso, no Tim Festival, comentava que shows de Strokes e Kings of Leon o atraíam pois ele tinha curiosidade em saber onde tinha ido dar tudo aquilo que ele viu surgir quando estava na Inglaterra, no fim da década de 60 e que, de certa forma, ele trouxe para cá, se não na música, pelo menos numa 'postura rock'n roll'. Você, como participante ativo do movimento que fez o rock se tornar música pop no Brasil, como enxerga a renovação atual do gênero, no país e fora dele, se é que você acompanha e tem interesse nisso?

DP: Claro que eu tenho, eu estava até junto do Caetano em alguns desses shows! Antes de mais nada é preciso entender que o Rock não nasceu na Inglaterra nos fim dos anos 60, e sim renasceu lá no começo dos 60. Vi os Strokes e eles são uma banda legal principalmente ao vivo, mas não fazem um som propriamente novo. Vi o Kings of Leon, gosto do Kings Of Convenience, gostei do show do Vincent Galo... Mas entre essas bandas prefiro o Flaming Lips, (só não fui no “Claro Q é Rock” porque estava trabalhando) White Stripes e o Jet, que é outra banda que acho muito legal, fazem um som super calcado nos anos 60 /70 e são muito bons. Acho que tem coisas muito boas.
E você disse bem: Rock no Brasil é musica POP. Aqui no Brasil temos a Pitty que já é uma "star", o Cachorro Grande como a banda darling da MTV. Vejo o pessoal do Leela aparecendo mais, Autoramas, etc. Mas eu acho que o pessoal aqui ainda prefere emular as bandas de fora quando pra mim, o mais interessante é misturar tudo e criar um som próprio. Os Paralamas são a única banda da minha geração que misturou a musica brasileira com o pop rock. Eu tiro o meu chapéu pra eles. Acho que ser um "roqueiro" (detesto essa palavra) é um pouco mais do que só tentar imitar o som que vem de fora. Nesse sentido o recado dos Tropicalistas nos anos 60 e do Chico Science nos 90 ainda não foi completamente entendido.


bm: Concordo...

DP: É, a coisa toda tem que ser diferente, e vou te dizer, isso me influenciou muito quando pensei em largar o Barão. Esse papel de "roqueiro brasileiro" me incomodava muito.

bm: Só uma observação dentro dessa sua resposta. Acho que esse formato de rock de bandas, com um trabalho autoral explodiu, de fato, na Inglaterra e no início da década de 60. E foi com esse 'formato inglês' que o rock ‘explodiu’ no Brasil na década de 80, concorda?

DP: Não sei, pode ser. Isso já rolava nos USA antes, mas lá era "Som de Preto e Favelado". Quando as bandas inglesas surgiram, elas faziam covers dos artistas americanos. Não tinha nada de autoral, depois é que eles se apropriaram do estilo e o recriaram de uma maneira mais sutil e mais bacana. Nos anos 80, no Rio, a influência era o "Pós Punk"e a "New Wave". E eu vou te contar, muita gente nessa época achava que o rock tinha começado em 75 com a explosão do Punk na Inglaterra!! ;-)

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Bruno Maia também mantém o site www.sobremusica.com.br. Visita lá! :+)

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Felipe Gurgel
 

Opa Bruno, sou leitor do seu blog e acho exemplar você tomar a iniciativa de fazer essa série de entrevistas com os "coadjuvantes" da fama. Tanto essa, como a do Bidu Cordeiro, estão muito boas.

Só acho que você poderia editá-las de forma que elas ficassem mais convidativas à leitura. Acho as perguntas excessivas, embora entenda a relevância da contextualização. Aí vai uma sugestão: um músico de apoio bem tarimbado que tem uma história bacana é o Jorge Helder. Ele é cearense, daqui de Fortaleza, fui vizinho dele em Brasília - é tio de um grande amigo meu de infância. Saiu do Ceará no início da década de 80, estudou em Brasília, onde conheceu Cássia Eller e Zélia Duncan e daí para tomar o circuito de músicos de apoio no Rio foi rápido.

Hoje ele é um dos baixistas mais conceituados nessa linha. Tocou com os medalhões de A a Z, entre outros bons nomes menos badalados. Rende uma boa entrevista (já vi uma do Alô Música aqui na net). Uma vez, também fiz com ele também quando se apresentou no Festival de Jazz e Blues de Guaramiranga, em 2005, para o jornal O Povo, no qual trabalho. Se quiser, tenho contato dele por telefone aí do Rio, é só falar.

Valeu, parabéns!

Felipe Gurgel · Fortaleza, CE 23/3/2006 01:38
3 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Edmundo Nascimento
 

Velho, Dé é um dos músicos do rock nacional q me inspiraram a tocar baixo. A performance, a energia e a musicalidade do cara no palco é impressionante pra mim. Cheguei a conhecer os membros do Barão depois q ele jah tinha saído, infelizmente, gostaria de cumprimentá-lo por ter me influenciado musicalmente. Paz e Sorte !

Edmundo Nascimento · João Pessoa, PB 25/3/2006 10:20
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Raul Mourão
 

Bruno e Dé.
Beleza de entrevista.
Grande achado no vasto Overmundo!

Raul Mourão · Rio de Janeiro, RJ 27/3/2006 03:02
2 pessoas acharam útil · sua opinião: subir
Bruno Maia (sobremusica.com.br)
 

Obrigado aí, Edmundo!
Salve Raul! Vamo que vamo!

Grande abraço a todos!

BM

Bruno Maia (sobremusica.com.br) · Rio de Janeiro, RJ 4/4/2006 20:13
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Mansur
 

O Dé é um músico muito talentoso. Lembro dos meus tempos de Circo voador. Só queria entrar um pouco nessa questão da Bossa - nova ser o grande emblema do que seria o melhor para o Brasil. Temos que entender que na época da Bossa havia grande desentendimento entre sambistas e bossanovistas, de um lado o Beco das garrafas e de outro o Zicartola. Os bossanovistas eram preconceituosos com o formato tradicional do samba. Ele achavam o samba "quadrado". Há até um samba genial em resposta a essa afirmação que sacaneia os bossanovistas os chamndo de "redondos". A cidade já era partida. Lenha na fogueira das teorias...gd abraço...

Mansur · Rio de Janeiro, RJ 11/4/2007 13:30
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