Uma conversa com o poeta, tradutor, ensaísta e editor Floriano Martins abre uma série de entrevistas que serão feitas até setembro próximo, colocando em destaque a literatura, e visando a realização da Literamérica 2006. Floriano, na edição anterior do evento, informalmente, colaborou no processo de escolha dos convidados, o que implica em dizer que foi responsável direto pelo ótimo nível de escritores que vieram à Feira, especialmente, em se tratando dos escritores Sul-Americanos, vindos dos países vizinhos. Para este ano o poeta desenvolve uma participação oficial nesse processo seletivo e também vai atuar no Fórum de Integração Cultural Sul-Americana.
Floriano é natural de Fortaleza (CE) e traz na bagagem mais de 20 livros, nos quais participou como autor, tradutor, organizador, editor e por aí vai. Uma de suas últimas empreitadas foi organizar e prefaciar “Obra Poética de Carlos Drumond de Andrade”, que será publicada no segundo semestre deste ano pela Fundação Biblioteca Ayacucho, da Venezuela. Ele é também editor e criador do site Agulha, um dos principais veículos de divulgação literária da América do Sul. Checar o que Floriano Martins tem a dizer sobre a literatura e seus desdobramentos é sempre uma bela oportunidade para ampliar nossos horizontes do conhecimento. A entrevista foi feita por e-mail ao longo de três dias, com perguntas e respostas indo e vindo, o que lhe confere o tom mais de conversação espontânea... E quem ganha com isso é o leitor.
LF – Você teve uma participação estratégica na primeira edição da Literamérica. Seu poder de articulação, suas relações e o conhecimento que tens de literatura, em especial, nas letras latino-americanas, são providenciais. Começo nossa conversa, então, pedindo pra você falar sobre sua expectativa em relação a Literamérica 2006, com foco na sua função.
FM – Não dá para antecipar um mapa das mesas para o Fórum, porque sua composição dependerá da receptividade das embaixadas dos diversos países sul-americanos de língua espanhola. Em um primeiro momento, listei quatro nomes de cada país, considerando representatividade e atuação, além da afinidade e experiência com este tipo de evento, em seguida verificando a agenda de todos, para não haver conflito de datas. As expectativas são sempre no sentido de realização de um trabalho mais intenso e expressivo, mais coeso e substancioso.
LF – Escritura Conquistada, obra sua, traz entrevistas, poemas e informações sobre 24 poetas latino-americanos contemporâneos. O que você acha mais importante registrar sobre a representatividade coletiva dessa arte nos países da América Latina?
FM – Este livro, publicado em 1998, teve o que se pode chamar de circulação mágica, considerando a inexistência de comercialização e distribuição. O projeto é mais amplo e ainda persiste a idéia de concluir sua trajetória editorial, ou seja, abrangendo a totalidade dos países latino-americanos. Não se pode falar em representatividade coletiva, porque estamos tratando de distintas culturas. De qualquer forma, o livro permite um contato inicial com algumas das principais vozes da poesia em todo o continente.
LF – Você diria que há certa identidade literária exclusiva, convergente, em relação à poesia e a prosa que são concebidas por autores da América Latina, ou mesmo da América do Sul?
FM – Mesmo se considerarmos a presença do Surrealismo na poesia ou o registro do chamado realismo fantástico na prosa, mesmo assim, não se pode falar em identidade ou sinais de convergência, pois as diferenças são imensas, quer pensemos em poetas como o peruano Jorge Eduardo Eielson – que acaba de falecer –, o chileno Ludwig Zeller e o boliviano Jaime Saenz; ou prosadores como o cubano Cabrera Infante, o peruano Manuel Scorza e o brasileiro Guimarães Rosa. Temos aí seis vozes bem particulares, distintas entre si, e não se pode falar em criação artística de outra maneira. Espectros como América Latina ou mesmo tua menção a América do Sul, atendem a interesses de outra categoria, não são aplicáveis à identificação de poéticas.
LF – E em relação à produção literária dos países europeus, que têm toda uma sedimentação cultural já milenar, enquanto nas Américas, isso é coisa de pouco mais de 500 anos. Como você compararia as literaturas dos países dos Velho e Novo Mundos? Você diria que há muitas diferenças significativas?
FM – Este tipo de comparação é, senão impraticável, de todo infrutífera, e só poderia interessar ao mundo acadêmico para justificar sua sanha classificatória. São fatores individuais e intransferíveis os que definem uma poética – recorra-se a talento, domínio de linguagem, experiência existencial, percepção etc.–, de maneira que um escritor paquistanês que acaso apresente uma obra mais densa e expressiva que um brasileiro não o faz justificado por sua cultura milenar e sim por sua capacidade de lidar com este dado – e outros tantos mais, claro. Mas essencialmente é infrutífero, sob o aspecto que mencionas, comparar Borges e Dante, por exemplo.
LF – O Brasil é o único país que, embora tenha grande população e extensão territorial, fala um outro idioma dentro de um contexto geográfico específico. Até que ponto esse fato atrapalha, em sua opinião, a integração e a própria cristalização de uma identidade cultural, que possam ancorar resultados práticos e positivos para os países do continente americano que ainda não conquistaram o status de nações desenvolvidas?
FM – É preciso não esquecer a presença dos países francófonos em todo o continente americano – onde tecnicamente existem apenas duas nações desenvolvidas –, pois eles também constituem o que chamamos de América Latina. É já um lugar-comum falar da desagregação latino-americana, do quanto que esses países estariam em melhor posição internacional hoje se, a exemplo da União Européia, manifestassem ao menos visão estratégica em termos de economia e política. Basta tomar a UE como referência para ver que o idioma não constitui absolutamente um problema no caso da integração cultural nem mesmo entre países de distintas famílias lingüísticas, o que não é nosso caso. Agora, me parece que termos como integração e identidade cultural não são apropriados, porque sugerem um tipo de interferência ou limitação que difere de uma condição de diálogo natural entre culturas. Um bom começo seria nos livrarmos de uma arrogância histórica, que sempre foi bastante explorada pelos Estados Unidos, por exemplo, a de acharmos que somos superiores em tudo aos demais países vizinhos. Não me refiro unicamente ao Brasil. Ainda que o fôssemos, mais uma razão para que buscássemos uma cumplicidade que, sob todos os aspectos, nos fortaleceria ainda mais.
LF – Você terá uma participação importante como articulador no Fórum de Integração Cultural Sul-Americana, que vai acontecer durante a Literamérica. Ano passado vários escritores e adidos culturais sul-americanos demonstraram muita simpatia para com essa proposta de integração, apesar de esse tema não ter, digamos, evoluído muito. Acredito que você tenha sugestões para que essa suposta integração desenvolva estratégias mais pragmáticas durante o evento em 2006, o que seria interessante para todos os países participantes. Fale sobre isso.
FM – Insisto em preferir falar em diálogo e não em integração. Os ganhos em tal relação se verificam dos dois lados e é importante ter sensibilidade para livrar-se do sentimento danoso de arrogância em relação aos vizinhos que sempre adotamos. A contribuição maior que se pode dar reside justamente na escolha dos convidados, buscando nomes que não se sustentem apenas no prestígio – cujo prestígio seja uma decorrência do trabalho – e que disponham de condições de articular desdobramentos, porque nada se resolverá através unicamente do Fórum ou de qualquer outra ação isolada. Não há uma mágica possível para fomentar esse diálogo de maneira substanciosa e duradoura. Ter na Literamérica poetas e narradores que desempenham alguma função crítica, jornalística e editorial, por exemplo, é já um parâmetro inicial para se propor uma conseqüência do diálogo, inventariando planos de produção e difusão da produção cultural em toda a América do Sul. Evidente que todo evento requer as suas figuras circenses, as vedetes com seu ego cintilante, porém me parece que se deva apostar a menor quantidade possível de fichas em tal artifício. Convidar editores e adidos culturais, por exemplo, para verificar perspectivas de convênios editoriais, é outro aspecto a requerer definição.
LF – Vamos mudar o foco da nossa conversação. De acordo com a sua vasta experiência literária, como poeta; tradutor; ensaísta, peço que mencione alguns aspectos que considera mais prejudiciais para o mercado editorial brasileiro.
FM – Já de muito o comércio de livro tem quase nenhuma relação com a literatura. Aspectos danosos que podem ser referidos incluem tanto o fato de editoras funcionarem como gráficas, cobrando dos autores para serem editados – o que elimina qualquer critério estético na definição de um acordo editorial –, como a completa inexistência de programação definida e confiável em favor de autores nacionais e estrangeiros. Completa o quadro a recente denúncia de livrarias que cobram de editoras para expor livros em sua vitrine.
LF – Você tem atuação multifacetada na literatura. Poeta, tradutor, ensaísta, jornalismo… É óbvio que todas essas atividades lhe são prazerosas. Mas, sinceramente, qual dessas funções literárias costuma deixar Floriano Martins mais extasiado?
FM – Como não traço distinções de gozo entre essas atividades, eu vibro sobremaneira com os desdobramentos e com as boas condições de concretização de projetos, que é algo bastante precário dado o desestímulo que enfrenta qualquer um que se atreva a trabalhar com literatura em nosso país. Mas não há dúvida quanto ao fato de que sou essencialmente poeta.
LF – E agora o território da poesia. Você acha que a máxima do Mallarmé “o poema se faz com palavras” ainda está valendo, ou essa arte literária já galgou conceitos que têm também muito a ver com a visualidade?
FM – O próprio Mallarmé já sabia que o poema também é feito com silêncios, considerando a ênfase que deu aos espaços em branco na página. Vivemos sob o mais amplo domínio das imagens, porém no poema não há como a imagem se verificar sem a presença da palavra. Contudo, vale frisar sempre – e é impressionante como este tem sido um dado facilmente esquecido a todo instante – que o poema não se realiza somente na forma, mas sim na maneira como concilia forma e conteúdo.
LF – Poetas, escritores, críticos, leitores costumam ter definições bastante pessoais em torno de o que é poesia. Você mesmo já “encostou na parede” muitos poetas em suas entrevistas, ao solicitar conceitos sobre poesia… Chegou a sua vez de expor uma definição particular.
FM – Jamais fiz esta pergunta a nenhum de meus entrevistados, a começar pelo fato de que não me interessa este tipo de definição que pode ser preenchida por qualquer artifício retórico. É plenamente possível definir a poesia como um veículo em louca disparada ou como um corpo esquivo ao qual nunca se tem acesso. Geralmente indago ao poeta o que ele crê que a poesia tenha alcançado através dele. É uma singela armadilha, para medir o grau de relação do poeta consigo mesmo, até que ponto, por exemplo, a vaidade interfere na criação etc.
LF – A poesia de Floriano Martins parece se apresentar (me corrija se estiver errado) com uma forte carga racional, embora não dispense o lado emocional. Fale, explique de onde vem e como nasce a poesia desse nordestino.
FM – Eu não vejo motivo para separar tais elementos. Não o separamos em nenhum instante de nossas vidas, de maneira que fazê-lo em relação à identificação de uma poética é contribuir para o afastamento entre arte e vida. A poesia nasce sempre de um atrito, é fruto de uma zona conflitante do ser em seu convívio com o outro que traz consigo. Se estamos a falar do poema e não da poesia, ou seja, como surge este objeto mágico, em meu caso há certa complexidade, porque geralmente crio interiormente, como se fossem esboços, embriões, todo um traçado imaginário de um livro inteiro, ou quando menos de um largo poema, que sempre se mostra como capítulo de um livro e de tal forma se articula com os demais trechos, de maneira a estabelecer uma unidade. Mas evidente que este riscado originário vai se modificando, consciente e inconscientemente, até que chega um momento em que se decide a saltar para o papel, a assumir um corpo. Este segundo momento é medido por certa volúpia da escrita, quase uma possessão, onde simplesmente deixo que jorre toda aquela matéria ígnea que vinha se desenhando em meu íntimo. Desconfio que esta descrição mínima dê para se fazer uma idéia acerca do estalo da criação em mim.
LF – Sei que é meio clichê, mas vai lá… Quais poetas vivos brasileiros fazem a sua cabeça e por quê? Faz favor de citar pelo menos uns quatro…
FM – Mesmo concordando contigo, temo muito mais pela condição de clichê das respostas do que das perguntas. Tenho imensa identificação com a vertente barroca do José Santiago Naud, a concentração erótico-mística de Marco Lucchesi, a volúpia existencial do Roberto Piva, a pedra filosofal que busca Rodrigo Petronio, a meditação memorialística de Dora Ferreira da Silva, estes são poetas de meu convívio e identificação, em amplo sentido. Evidente que há outros mais, incluindo os vivos apesar de mortos.
LF – Chegou a hora do seu comercial. Vamos encerrar com você falando do ótimo trabalho da revista Agulha, na qual você é uma espécie de criador e criatura. E mande um abraço aqui pro povo de Mato Grosso que vai estar em peso na Literamérica.
FM – Acaba de sair a edição # 50 da Agulha, o que atesta a dimensão de nossa teimosia. Há 6 anos que estamos realizando este trabalho editorial, tanto ao lado do Claudio Willer, com quem divido o cuidado editorial, como do Soares Feitosa, considerando todo o apoio logístico do Jornal de Poesia, onde inclusive desmembramos o projeto da Agulha em torno da Banda Hispânica, sítio onde damos ênfase à difusão e reflexão em torno da poesia de língua espanhola. Melhor do que fazer comercial é indicar sua visita – www.revista.agulha.nom.br –, para que sejamos brindados com novos leitores. Quanto a Literamérica, confesso que estou ansioso pela chegada de setembro, pela realização em si do evento e também pelo meu retorno a Cuiabá.
Por Lorenzo Falcão
[b]Haverá Banca de Capacitação Profissional (IN nº 004/99) em Cuiabá/MT no dia 13 de julho de 2008.
Seja Profissional de fato e de direito tenha DRT!
Banca de Capacitação Profissional para o Candidato em se Habilitar (DRT) ao Exercício Profissional na Categoria Regulamentada pela Lei Federal nº 6.533/78 e Decreto nº 82.385/78, que abrangem os Trabalhadores nas seguintes áreas:
I – Artes Cênicas (Circo, Teatro, Dança, Moda, Opera, Produção e Shows de Variedades...);
II – Cinema;
III – Fotonovela;
IV – Radiodifusão.
Contato SATED/MT:
(65) 3321-8095 / 8415-3992 / 9212-7575
E/mail: satedmt@hotmail.com
Sede: Rua Sete de Setembro (próximo ao MISC e ao IPHAN), nº 427, Centro (Histórico), Cuiabá/MT
Saudações culturais;
Nestor Defletas
Pres. do SATED/MT
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