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GONZAGUINHA, UMA SAUDADE QUE DURA VINTE ANOS

Extraída do livro Gonzaguinha e Gonzagão, de Regina Echeverria
Lea é a morena que aparece da esquerda para a direita
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Abílio Neto · Recife, PE
1/7/2011 · 11 · 5
 

O dia 29/04/2011 passou sem que muita tristeza se apossasse do coração de todos, menos do coração de uma jovem de 31 anos, mãe de um filho de 2 anos, filha de quem escreve estas mal traçadas linhas. É que naquele dia fez exatamente 20 anos da morte do cantor e compositor Gonzaguinha.

Para a mais velha dos meus três filhos parece que foi tudo ontem! Quando Gonzaguinha morreu a Dani que tinha 11 anos chorou muito e eu me comovi com ela porque sempre gostou demais daquele menino que fez uma música que cantava desde os 5 anos. A letra falava em bem-te-vi, sabiá, sapo, lua, sol e lago: LINDO LAGO DO AMOR, do seu LP Grávido, de 1984, uma música que trazia uma batida moderna para a época.

Resolvi lhe contar a sofrida história do menino Luizinho (era assim que a família de Luiz Gonzaga o chamava) para que daqui a uns trinta anos quando o pequeno Eduardo estiver com a idade de Dani, ela possa repeti-la mostrando ao meu neto como foi difícil a vida para esse filho (adotivo para muitos) do Rei do Baião, dono de um talento ímpar.

Luizinho foi mais um menino sofredor dos morros cariocas. Tinha um pai que lhe dava tudo, coisas como roupa, comida e estudo, mas lhe negou o afeto. Foi criado pelos padrinhos, Dina e Xavier. Xavier era músico assim como o pai de Luizinho. A sua mulher, Dina,o criou como se fosse seu filho, até que Luizinho após contrair tuberculose, aos 14 anos, foi morar com o pai quando já estava curado, isso quase dois anos depois.

Começa assim a história: o pai de Luizinho já era um músico famoso no início de 1944 quando conheceu Lea, apelido de Odaléa Guedes. Foi uma paixão avassaladora. Lea era morena, esguia, bonita, sambista, compositora e sabia cantar. Cantava num daqueles corais famosos da era de ouro do rádio e também nos estúdios das gravadoras por ocasião das gravações de diversos artistas.

Lea Guedes e Luiz Gonzaga foram morar juntos no morro de São Carlos. A casa era pequena, não tinha nenhum conforto e daí o casal se mudou para a Rua Buarque de Macedo, no Catete. O espaço também era apertado e, em vista disso, mudaram-se de novo, dessa vez para um apartamento maior no porão de um prédio no bairro do Estácio.

Lea e Gonzaga mantiveram um romance conturbado no qual não faltaram brigas, ciúmes, ódios, separações e reconciliações. Numa dessas brigas, os irmãos de Lea pegaram o pai de Luizinho e bateram feio nele. Um irmão do pai do menino, Zé Gonzaga, ficou tão traumatizado com seu estado que o levou para casa onde morava com uma cafetina estoniana, cheia da gaita, como se dizia na época.

Esse mesmo membro da família, tempos depois diria que Luizinho não era filho do seu irmão Luiz, mas de um tal Armando, que tocava cavaquinho na Rádio Nacional, ou então era filho de Nelsinho do Trombone, menos de Luiz Gonzaga.

Lea nessa época fazia parte do famoso coral de Erasmo Silva. Todo mundo quando ia gravar só queria esse coral. Dizem até que a melhor voz do coral era de Lea. Mas ela engravidou. Começaram a partir daí as dúvidas do pai de Luizinho: será que eu sou o pai dessa criança? Ou será que as dúvidas só apareceriam muito tempo depois? Sim, porque ao nascer o bebê em setembro de 1945, Luiz Gonzaga não teve dúvidas: foi direto ao cartório e registrou o menino como seu filho e ainda deu ao garoto o seu próprio nome: Luiz Gonzaga do Nascimento Júnior.

Quando Luizinho estava com pouco mais de dois meses, sua mãe Lea contraiu tuberculose. O pai de Luizinho a mandou fazer tratamento em Petrópolis e depois em Minas Gerais, custeando todas as despesas. Era preciso separar mãe e filho. A ameaça do contágio era real. Foi quando decidiram entregar a criança aos padrinhos, Dina e Xavier, que haviam conhecido quando moravam no morro de São Carlos.

Lea chegou a se recuperar da tuberculose e arrumou um amante. O pai de Luizinho que ficava cada dia mais famoso, depois de namorar várias cantoras do rádio, arranjou uma pernambucana que morava no Rio e começaram a paquerar. Ela era tudo o que ele queria: de boa família, instruída e recatada. Disse o pai de Luizinho que um dia prestou atenção quando ela se baixava ao encontrá-la na Rádio Nacional: juntou os joelhos e esticou a saia, não lhe dando a mínima chance de ver o que desejava.

No ano em que o pai de Luizinho casou com essa pernambucana chamada Helena das Neves, natural de Gravatá, em 1948, Lea teve uma recaída da tuberculose e morreu. Luizinho tinha menos de três anos. A princípio, o seu pai pensou em tirar o menino da companhia de seus padrinhos no morro e levá-lo para morar consigo. Havia um porém com o qual não contava: Helena quando casou arrastou a mãe para morar com ela. E a velha Marieta foi logo dando o seu recado pra filha: “não dá certo esse menino vir morar aqui. Deixe-o lá com os padrinhos porque você precisa cuidar dos seus próprios filhos que certamente virão”.

Esses “filhos que certamente virão” deu muitas dores de cabeça à dona Marieta, Helena e ao pai de Luizinho porque o tempo começou a passar e nada de gravidez de Helena. Desesperada, algum tempo depois, Helena deu uma escapulida de uns 10 meses fora do Méier e quando apareceu, trazia uma menina no colo dizendo ser sua filha. Os vizinhos nem desconfiaram, mas depois a própria Marieta, sua mãe, se encarregou de dizer que a menina era filha adotiva porque Luiz Gonzaga, marido da sua filha, e pai de Luizinho com outra mulher, era estéril. Afirmou isso sem que se fizesse um único exame nele.

Depois de curado da tuberculose, Luizinho finalmente foi morar com o pai, Helena e a irmã adotiva Rosa, porque a velha Marieta já havia morrido. Mudaram para um apartamento na Ilha do Governador. O menino era estudioso e seu pai queria vê-lo formado, de anel no dedo, como gostava de dizer aos amigos. Luizinho passava noites e mais noites tomando chocolate quente e estudando.

Nesse tempo ele aprendeu a tocar violão com seu padrinho Xavier que era também guitarrista. Via na música o seu futuro embora continuasse com os estudos apenas para satisfazer o seu pai. E assim, só para ver o pai contente, concluiu o curso de Economia na Faculdade Cândido Mendes em 1967.

Quando veio a “redentora” de 1964 trazendo no coturno dos soldados o chumbo dos anos que se seguiram, Luizinho se engajou nos movimentos acadêmicos que pediam pela volta da democracia. Fez mais do que isso: compôs várias músicas para festivais universitários, canções de protesto em sua maioria. O pai, conservador e fã dos militares, começou a se afastar do filho e dizer que não entendia a música dele ou que ele não fazia nada que se aproveitasse.

Pouco tempo depois Luizinho casou pela primeira vez, mas o seu pai continuava cada vez mais distante dele, ao mesmo tempo em que passou a detestar o sogro do filho a quem culpava pelas “ideias comunistas” que Luizinho tinha. Além disso e talvez por isso, também não gostava da nora e quando Luizinho lhe deu os primeiros netos, um menino e uma menina, nunca chegou a demonstrar nenhum carinho pelas crianças.

Ao contrário da bobagem que falou Luiz Gonzaga sobre o talento de Gonzaguinha, o seu filho se transformou em pouco tempo num dos maiores letristas da música brasileira, aquele que fazia sangrar e explodir os corações. Qualquer fã de Luizinho sabe que Maria Bethânia era a melhor intérprete das suas músicas! E que Aguinaldo Timóteo até quis brigar com Gonzaguinha para ter exclusividade na gravação de Grito de Alerta, música que ele fez de encomenda para Timóteo sobre um caso de amor homossexual do cantor.

Quando Luiz Gonzaga teve três músicas proibidas de ser cantadas em shows, manipulado pela mulher, os dois foram bater no Departamento de Censura para Luiz ouvir calado Helena dizer que os censores estavam confundindo o pai com o filho, pois ambos tinham o mesmo nome. Luizinho quando soube disso falou apenas que Helena era uma “má-drasta”.

Mas essa questão de ser filho de sangue ou não, lamentavelmente se arrastou por culpa de Luiz Gonzaga até o início de 1980 (o ano em que minha filha nasceu) quando uma cantora do rádio que era chamada de “divina”, Elizeth Cardoso, declarou o seguinte, num desabafo que lhe veio das entranhas porque quem a conheceu sabe que aquele não era bem o seu estilo:

“- E aquele velho ordinário tem a cara-de-pau de falar que o menino não é filho dele? Você acha que um nordestino ia registrar alguém com seu próprio nome se tivesse alguma dúvida? Ele queria era colocar a Lea num ostracismo absurdo, sem aptidão para absolutamente nada. Meu sogro achava Lea maravilhosa, mas também uma libertina. Era uma relação que o atraía e repelia. Ele tinha receio. E por que o receio? Porque ele tinha uma família supercareta, com padrões arcaicos que jamais aceitariam que ele tivesse ido ao Rio de Janeiro e arranjado uma cantora da noite para viver”.

Mas logo no ano seguinte pai e filho se reconciliaram. O laço deles era tão forte que ao se reaproximarem, a imprensa passou a chamar o pai no aumentativo (Gonzagão) e Luizinho continuou sendo chamado de Gonzaguinha mesmo. Suas músicas eram cada vez mais apreciadas pelo grande público e disputadas por vários intérpretes.

A amargura pela falta de afeto da mãe, que não conheceu, e do pai que não era dado a carinhos, foi abandonando de vez o menino Luizinho. Passou a ser uma criatura amorosa, capaz até de compor música para criança, tarefa que não é para qualquer um. Separou-se da primeira mulher, arranjou uma segunda que era mineira e foi morar em Belo Horizonte onde passou os dez últimos anos da sua vida. Lá, gostava da vida tranquila e de passear de bicicleta ao redor da Lagoa da Pampulha.

Com essa mulher mineira que o seu pai adorava, Luizinho teve uma filha e depois disso, o velho Luiz Gonzaga passou a visitar constantemente Belo Horizonte para ver a neta. Quando chegava no portão da casa, gritava: "eu vim pra ver Mariana!" Passava tardes e mais tardes cantando e tocando sanfona pra garota.

Luizinho, tal qual seu pai, era um grande conquistador. Conhecia como ninguém o universo feminino e o colocava nas letras das suas músicas. A mulherada perdia a cabeça. Chegou a ter uma filha com Sandra Pera, integrante do extinto grupo As Frenéticas e também um conhecido caso com Rita Cadilac, dançarina do programa Cassino do Chacrinha. Lembram de algum atributo físico dela?

O ano de 1989 foi péssimo para a música popular brasileira porque nele morreram Gordurinha em janeiro, Nara Leão e Severino Januário (irmão do pai de Gonzaguinha) em junho, e Luiz Gonzaga em agosto. Perdas irreparáveis!

Em 1981, Gonzaguinha fez um show só para convidados que foi promovido pela gravadora RCA quando se apresentou ao lado do pai. Foi uma coisa emocionante para quem assistiu porque ambos estavam carregados de amor um pelo outro. Todo aquele ressentimento daqueles anos passados havia chegado ao fim. O encontro foi tão impressionante que Luizinho cantou uma música profética sobre a sua partida que não demoraria muito a acontecer porque ele morreu de acidente em 29 de abril de 1991, com menos de dois anos após a morte do pai.

Luizinho, assim como seu pai, era um amante das estradas, mas o menino gostava também da velocidade: quando morreu estava a 150 Km por hora no seu velho Monza nas estradas do Paraná.

Nessa outra música que vou apresentar para vocês, Luiz Gonzaga que era um grande músico, não toca seu instrumento famoso, a sanfona. Ele fica apenas observando o filho cantar e fazendo a vez de um simples backing vocal, canta apenas uns trechinhos da música. Mas vale a pena!

A música chama-se DA VIDA, de autoria de Gonzaguinha, e não haveria outra música melhor para dizer tudo o que foi a vida desses dois viajantes da arte que tinham o dom de iludir, de fazer o bem às pessoas através das canções que cantavam de peito aberto.

Aos que não acreditam que Luizinho fosse mesmo filho de sangue do pai que lhe deu o nome, digo apenas que observem uma fotografia de Luizinho quando menino e a comparem com uma foto do seu avô paterno Januário quando jovem. A semelhança entre eles só não convence os sensacionalistas que escreveram em livros e jornais só para dizer que um não era filho do outro e não para falar da arte deles.

A família do pai de Luizinho acha até hoje que ele era filho natural de Gonzagão. Eu concordo. Qualquer dúvida faz parte hoje do segredo levado ao túmulo que só um exame de DNA poderia ter desvendado.

Não esqueçam jamais que esses dois, Gonzaguinha e Gonzagão, cada um à sua maneira, souberam como ninguém cantar as dores e amores do seu povo.

Para finalizar, se vocês me perguntassem se gostei de escrever esta história, diria apenas que “começaria tudo outra vez, se preciso fosse”, querido Gonzaguinha.

Boa audição!

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Zezito de Oliveira
 

Abilio

E que o filme sobre Gonzagão e Gonzaguinha não demore muito. Depois de ler o seu post fiquei com mais vontade de assisti-lo. Deixo a sugestão para a produção criar um site/blog para acompanharmos o processo de produção, inclusive com postagem de textos e vídeos sobre as memórias de quem conviveu com os dois, juntos ou separados. A iniciativa é da Conspiração Filmes, salvo engano.
Retomo um pequeno trecho do seu texto, porque isso sempre me chamou a atenção em algumas criações de Gonzaguinha, além da que você citou. “A letra falava em bem-te-vi, sabiá, sapo, lua, sol e lago: LINDO LAGO DO AMOR, do seu LP Grávido, de 1984, uma música que trazia uma batida moderna para a época.

Zezito de Oliveira · Aracaju, SE 7/8/2011 07:47
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Abílio Neto
 

Obrigado, meu querido Zezito por você ter ajudado a ressuscitar esta matéria que estava perdida no meio do vasto Overmundo. Eu gostava muito do Gonzaguinha e do Gonzagão também. O filho foi responsável pelo criação do museu do Gonzagão, embora que depois da sua morte, a sua mãe adotiva, Helena Gonzaga, tenha vendido muitas peças valiosas que estavam em seu poder e que para lá se destinariam. Viraram objetos para colecionadores de dinheiro! Mas eu soube também que o museu está no abandono. Que pena, não?

E concordo com você: que esse filme saia logo!

Outra coisa, Gonzaguinha queria que no dia 13 de dezembro fosse instituído o DIA NACIONAL DO SANFONEIRO porque seu pai foi acima de tudo um músico e não esse DIA NACIONAL DO FORRÓ que foi criado. Um abraço do


Abílio Neto · Recife, PE 7/8/2011 08:38
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Andre  Intruso
 

Canções como " Ponto de Interrogação" nos fazem sentir que a vida tem algo de inacreditavel..de incrivel...

Andre Intruso · Jaboatão dos Guararapes, PE 7/8/2011 22:35
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Abílio Neto
 

Pois é, caro André, e o que dizer de PEQUENA MEMÓRIA PARA UM POVO SEM MEMÓRIA? E também de ACHADOS E PERDIDOS?

Abílio Neto · Recife, PE 8/8/2011 07:31
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Observadorbh
 

Só um pequeno comentário: quando morreu, Gonzaguinha viajava no carro do produtor musical que estava promovendo seus shows daqueles dias no interior do Paraná (por isso não sei se era Gonzaguinha quem dirigia). E o carro de fato era um Monza, mas na ocasião era um carro do ano, novinho.

Observadorbh · Belo Horizonte, MG 26/10/2012 10:34
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