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Guitarra e Sanfona - Um Encontro Pulsante

Sérgio Bondioni
Marcelo Caldi (sanfona) e Guga Mendonça (guitarra)
1
Fernando Gasparini · Rio de Janeiro, RJ
15/7/2009 · 31 · 8
 

Profundamente ligada ao ambiente sertanejo das várias regiões do Brasil, a sanfona tornou-se um ícone da chamada cultura popular brasileira, e ninguém pode imaginar um forró, um xote ou um baião sem a nobre presença do instrumento, acompanhado pelos agudos do triângulo e os graves da zabumba. Foi com essa formação que o rei do baião, Luiz Gonzaga, se apresentou pela primeira vez com sucesso na Rádio Nacional, Rio de Janeiro, nos idos dos anos 40.

De lá pra cá, a sanfona se metamorfoseou, seguindo o fluxo das dinâmicas históricas e culturais das décadas consecutivas. Foi, inclusive, colocada no ostracismo e identificada com um país agrário e oligarca, contraponto ao país moderno, urbano e industrializado que se pretendia construir, no fim dos anos 50. Ressuscitada pela Tropicália, que reposicionou Gonzagão num novo cenário, a sanfona começa a dialogar mais abertamente com outros estilos musicais.

Nesse contexto, destaca-se a importância de Sivuca para a ampliação dos caminhos da sanfona. De acordo com Ricardo Cravo Albin, "o músico é responsável por elevar a sanfona a uma categoria universal, inserindo-a no contexto do jazz e da música sinfônica".

Seguindo os passos do mestre, o Quinteto Sivuca, formado por músicos que acompanharam o artista nos últimos anos, surge no cenário da música instrumental com a tarefa de promover uma união dentro da enorme diversidade de sons que marcam a brasilidade. A marca mais salutar do repertório da banda é exatamente essa: a diversidade - forró, baião, frevo, samba, choro, balada, jazz e até inspirações sinfônicas. E por que não uma pitada de rock n' roll?!

Ao romper com várias tradições e revelar de forma veemente e inequívoca um traço marcante da música no século XX - a pulsação, que muitas vezes abandona o universo tonal para se banhar em grunhidos modais - o rock n' roll encontrou na guitarra elétrica um de seus maiores símbolos.

A geração de Sivuca, o albino paraibano que nasceu em 1930, talvez tivesse alguma dificuldade em assimilar os novos sons, mas, para quem nasceu na década de 70 em diante, a distorção da guitarra soa tão familiar a ponto de ela ter se contaminado em diversos outros estilos, e abraçada pela música popular brasileira em suas variadas facetas.

Se o forró e o rock, à primeira vista, soam como gêneros distintos, devido às suas origem e evolução, percebemos em ambos o traço comum da pulsação: música feita para dançar, empolgar, extravasar. Não é à toa que o maior roqueiro do Brasil, Raul Seixas, é nordestino e bebeu nas águas de Elvis e Gonzaga para produzir sua obra.

Poderá o timbre da sanfona harmonizar-se com as distorções pulsantes da guitarra?! Se uma imagem vale mais do que muitas palavras, convido o leitor a assistir ao vídeo no link http://www.youtube.com/watch?v=dnwVbHRyggs, e tirar suas próprias conclusões.

É o show do Quinteto Sivuca, realizado em maio de 2009 no auditório do BNDES, Rio de Janeiro. A música é o forró Nilopolitano, homenagem de Dominguinhos à cidade de Nilópolis, onde morou por vários anos. Trata-se de uma peça virtuosística, de difícil execução, para deixar muito sanfoneiro de cabelo em pé, dada à forte pulsação e às melodias intrincadas. Destaque para os talentos do sanfoneiro Marcelo Caldi e do guitarrista Guga Mendonça, rompendo fronteiras para alcançar os mais diversos públicos e, ao modo de Sivuca, revelar a universalidade da música.

O Quinteto Sivuca é formado também pelo legendário baixista Jorjão Carvalho, Cacá Colon certeiro e preciso na bateria, e a personalidade marcante de Paula Faour nos teclados. Os três são um assunto à parte. Se alguém imagina que eles estão na cozinha, já habitam a sala de estar há muito tempo.

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Adroaldo Bauer
 

Sanfonai a violação
no encontro
adentrado o sertão

Adroaldo Bauer · Porto Alegre, RS 16/7/2009 10:05
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Cintia Thome
 

Sivuca, isso mesmo, quem o acompanha sempre será a raiz popular mais limpa. Belo texto.
ab

Cintia Thome · São Paulo, SP 16/7/2009 13:24
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Roberto A
 

bom post!

Roberto A · Cuiabá, MT 16/7/2009 18:17
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Helena Aragão
 

Que legal, não conhecia o Quinteto Sivuca, mas conhecia o Marcelo Caldi e já é garantia de coisa boa. E interessante isso que você fala sobre a ligação sanfona/guitarra, sobre o uso do acordeon em arranjos que não sejam só de xote/baião/forró. Me veio à mente a turnê do Barulhinho Bom, da Marisa Monte, que tinha acordeon em todas as músicas, mesmo as de pegada mais pop. E ficava ótimo. A Anna Luisa também colocou acordeon em canções onde ele não seria presença óbvia e ficou lindo! É um instrumento que pode dar um colorido muito especial. Abraço!

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2009 19:24
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Helena Aragão
 

Xi, fiz alguma besteira na hora de colocar o link da Anna Luisa. Agora vai o certo.

Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 16/7/2009 19:25
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Ériton Berçaco
 

Fernando, estou numa rodoviária aguardando o ônibus para o interior de meu país feito de sanfonas, violas e acordeons. Eis que entro numa lan house e leio, aqui na Rodô, este texto que o Overmundo me proporciona. De cara caí no ritmo da sanfona, ou da guitarra, lendo seu bem escrito texto. Parabéns!
Como sou mais apreciador que conhecedor de música, gostaria, se possível, que traduzisse a seguinte expressão em linguagem arroz-com-feijão para que eu, e possivelmente outros leitores, entenda melhor: "a pulsação, que muitas vezes abandona o universo tonal para se banhar em grunhidos modais".
Grande abraço e cheiro de mirra.

Ériton Berçaco · Muqui, ES 18/7/2009 10:10
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JACK CORREIA
 

Como nordestina, sou suspeita para falar, mas o som da sanfona é realmente contagiante... Não há quem fique parado com um bom sanfoneiro tocando. Gostaria de ouvir esse encontro da sanfona e da guitarra, deve ser muito interessante! Que bom saber que a música é sempre inovadora e democrática. Abraços.

JACK CORREIA · Crato, CE 19/7/2009 10:46
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Fernando Gasparini
 

Oi Ériton, grato pela pergunta. Quero dizer que a pulsação musical é uma característica muito peculiar da música modal - que é um tipo de música feita por vários povos em vários períodos históricos - muito baseada nos ritmos e, por isso, na percussão. Hoje ela é identificada às manifestações populares e folclóricas. Isto é: grosso modo. A música modal também tem riquezas melódicas e até harmônicas, embora a melodia e a harmonia tenham sido relacionadas e aprofundadas em toda a sua complexidade na chamada música tonal. Como principal referência de música tonal, temos Bach, considerado por muitos o pai da música ocidental. Ao longo da história, a música tonal desprivilegiou, digamos assim, a percussão, ou a percussividade, a pulsação, pois os batuques foram tidos como algo "sujo" para a "pureza" sonora que se pretendia alcançar. O rock n' roll revela o traço mais pulsante, rítmico da música, nisso é muito parecido com o forró, baião e muitos ritmos nordestinos. Quem aborda com propriedade a questão "música tonal" e "música modal" é José Miguel Wisnik, em "O Som e o Sentido - Uma outra História das Músicas", São Paulo: Companhia das Letras, 1989. Abração!

Fernando Gasparini · Rio de Janeiro, RJ 11/8/2009 15:47
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