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Hip Hop – Sob o sangue, o medo e a mordaça

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Def Yuri · Rio de Janeiro, RJ
1/11/2006 · 111 · 5
 

Por Def Yuri

Ítalo Lopes dos Passos, 29 anos, integrante do grupo Setor B.F, tornou-se no último dia 15 de setembro parte das estatísticas de mortes violentas na Baixada Fluminense, região metropolitana do município do Rio de Janeiro, um dos maiores aglomerados urbanos da América Latina, constituído por 13 municípios que são um resumo das contradições vivenciadas em todo o Brasil.

Antes de falar sobre a morte do Ítalo, é necessário situar você, leitor, sobre essa região que vive à margem de muitos direitos e à sombra dos “grupos de matar”, coloco dessa forma, pois com um olhar mais atento é possível constatar que os famigerados “esquadrões da morte ou grupos de extermínio” não estão restritos somente a policiais corruptos, como comumente é divulgado. Foi-se o tempo de uma milícia escorada no aparato de segurança pública, na verdade o leque é muito mais abrangente e promíscuo, e seus interesses não são o de somente combater o crime e/ou seus praticantes com objetivo de fazer uma limpeza social. Mas, na verdade, os interesses em jogo são muitos: articulações políticas (partidárias ou não) e questões financeiras. Além de pontos principais estes exemplos são bases de sustentação desses grupos, independente do “ramo de atuação”.
Para piorar o quadro, muitos desses grupos conseguem através do voto popular levar seus representantes aos círculos de poder constituído, fazendo assim com que seus tentáculos consigam se expandir de maneira cada vez mais forte, diferente de um passado puramente opressor, mas, agora de “forma democrática”.

Provando assim que esses esquadrões carregam uma forte aceitação sócio-cultural, ou seja, se estão protegendo tudo bem, agora se vitimam um ente querido ou conhecido...

O circo dos horrores se apresenta diariamente e várias pessoas tombam vitimadas por esses grupos e suas armas de fogo. Porém o número no varejo não é levado tão em consideração como no atacado, vide a trágica chacina que ceifou as vidas de 29 pessoas nos municípios de Nova Iguaçu e Queimados em março de 2005, e que por um tempo chocou todo o Brasil, simbolizando a impunidade e o quão atroz são as atitudes de indivíduos inaptos a viver em sociedade. Será que você que lê esse artigo se lembra desse absurdo? Lembra dos seus desdobramentos? Essa foi a maior numericamente falando, porém outras ocorreram e ocorrem, porém a repercussão não é a mesma, seja entre o grande público, seja entre as parcelas mais atuantes da sociedade onde estão inseridos os “movimentos sociais” (como o Hip Hop) que em sua maioria agem de forma reativa, isso quando agem.

E assim, diversas pessoas, sejam militantes ou não, vão tombando como foi o caso do Ítalo, ou simplesmente Ita, como era chamado pelos conhecidos e principalmente familiares. Ele recebeu oito tiros à queima-roupa dos dez que foram disparados dentro de uma festa que era realizada na cidade de Mesquita, e mesmo diante do grande número de pessoas no local, os matadores certamente movidos pela sensação e/ou certeza de impunidade, agiram de forma fria, de cara limpa e sem maiores preocupações. Na ação um outro jovem também foi atingido e sobreviveu ao ataque, no momento este se encontra sob proteção policial.

Diferente de outros casos, em que prevalece o silêncio forçado e/ou o desconhecimento dos autores. Neste caso, além do grande número de pessoas que testemunharam o ocorrido e em seguida chamaram a polícia, os matadores foram presos por dois policiais militares que tinham saído do serviço e suspeitaram de um carro branco com a placa dobrada, segundo informaram os mesmos alertaram o batalhão para iniciar um cerco no município e resolveram eles próprios iniciarem uma perseguição, que resultou na prisão dos supostos matadores. E estes últimos eram também eram policiais militares, ou melhor, esses eram dois bandidos fardados, no momento da fuga. No momento eles se encontram presos no batalhão prisional à disposição da justiça e em vias de serem expulsos.

As motivações para esse ato ainda não são conhecidas e/ou esclarecidas, o único fato concreto é o carinho e respeito que a população tinha pela vítima e o reconhecimento pelos trabalhos sociais por ele desenvolvidos como o projeto Estilhaços, evento Coréia na Cultura, e também pelas participações em uma rádio livre, além de diversas ações por justiça, fato que o levou a participar de um curso de vídeo que o motivou a fazer um documentário sobre as vitimas da violência na região. Grupo do qual agora ele faz parte.

Um fato que chama atenção é como diferentes correntes da cultura Hip Hop e seus aficionados se portam diante de atos como esse e tantos outros que ocorrem pelo nosso Brasil. É possível ver com nitidez que a indignação contida nas letras e discursos fica diluída sob o “ruído do silêncio” e da não participação, posturas que acabam por expor o quanto somos frágeis na verdade, e que em alguns casos conseguimos beirar a omissão e por que não dizer conivência.

Até quando teremos que vivenciar ou ser fiéis portadores dessas contradições? Afinal, não somos nós do Hip Hop que temos o monopólio da palavra e consciência? Não somos nós que falamos a verdade? Então se faz necessário que estejamos atuantes na prática. Não quero incitar ações transloucadas por direitos, porém se esmiuçarmos nossas posturas chega-se à conclusão que o mínimo, seria algum tipo de organização com intuito de se evitar mais derramamento de sangue, cobrar justiça ou um maior empenho das autoridades competentes, seja em casos como esse ou qualquer outro, sejam as vítimas desconhecidas, conhecidas ou mesmo integrantes de algum coletivo, e propor mudanças no que diz respeito às políticas que beneficiam positivamente ou negativamente nossos iguais.

Vamos procurar nos informar sobre os mecanismos e instituições que temos para nos defender e/ou nos ajudar na árdua tarefa de nos organizarmos. Conseguindo assim compartilhar fundamentos e informações, afinal ninguém sabe o dia de amanhã e principalmente se seremos nós as próximas vítimas.


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Pedro Rocha
 

Salve Def Yuri, o movimento precisa ocupar esses espaços de comunicação por ele mesmo também, não só figurando como temas de reportagens. A autocrítica é importantíssima, questiona e aponta. Tomara que esse debate continue, seja com comentários, seja com novas colaborações.

Pedro Rocha · Fortaleza, CE 1/11/2006 13:05
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dani_butterfly
 

Oi, Yuri cabeçudo!!! Adorei o artigo...Ficou ótimo!!! Só discordei da afirmação de que o Hip Hop tem o monopólio da palavra e da consciência... Não só o Hip Hop, amigo, mas todos os cidadãos tem esse poder, talvez, ou mesmo certamente, o Hip Hop se coloca com uma das vozes mais potentes atualmente da indignação contra todas as mazelas sociais que estamos vivenciando e sendo massacrados todos os dias... Adorei!!!! Bjs

dani_butterfly · Rio de Janeiro, RJ 2/11/2006 14:40
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dani_butterfly
 

Só complentando: a cosnciência do Hip Hop deveria ser um consciente coletivo, e não exceção...Por isso digo que naõ é monopólio, como se fosse algo restrito por excelência a um grupo, entende?!... Bjs

dani_butterfly · Rio de Janeiro, RJ 2/11/2006 14:43
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Def Yuri
 

Dani,obrigado pela força e elogio!

O monopólio da palavra e consciencia são parte de um discurso recorrente entre os adeptos e/ou os que orbitam sobre a cultura Hip Hop...é aquela história - Hip Hop salva! Porém sempre faço questao de lembrar - que também degenera!

Esta cultura é tão somente o reflexo da sociedade em que vivemos... Minha abordagem é a partir dessa cultura, acredito que as outras vertentes sociais devem (ou deveriam) ter seus propagadores de questionamentos e no final a reuniao de tudo isso poderia se transformar no almejado consciente coletivo...Voltando ao Hip Hop,digo,aos Hip Hop's a reflexao e autocrítica são necessárias sempre para que evitemos de atuar tao somente como reprodutores de discursos e/ou posturas alheias que em muitas vezes não traduzem grande parte dos anseios - tem que enfiar a mao na massa de fato caso contrário os fatos descritos no artigo serao ainda mais constantes...e como disse o Pedro - questionar, apontar, mudar e que o debate continue...

Bj

Def Yuri · Rio de Janeiro, RJ 4/11/2006 00:57
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Def Yuri
 

Pedro, questionamentos sao necessários sempre afinal o "maior inimigo" da cultura Hip Hop esta no espelho e enquanto isso não for percebido...estaremos enxugando gelo, porém,alguns resistem...

Obrigado pela força e estamos sempre prontos para colaborar e dar prosseguimento ao debate.

Um abraço

Def Yuri · Rio de Janeiro, RJ 4/11/2006 01:00
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