Observatório

A história do Overmundo na memória de seus colaboradores
O Overmundo foi pensado para trazer à luz a cena cultural brasileira, independente da grande indústria cultural e que, justamente por ser independente, não costumava figurar com destaque nos grandes meios de comunicação. Algum tempo passado, constatamos que ainda há muito o que fazer e que, a cada dia – sobretudo com o advento da internet colaborativa e de ferramentas de autopublicação... leia

 
Loucos da Z/O
André Maleronka · São Paulo (SP) · 3/6/2006 12:57 · 137 votos · 9 comentários ·  
 
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overponto
Família RHK

Foi numa segunda-feira de sol que me mandei pra Carapicuíba e Itapevi na missão de entrevistar DBS & a Quadrilha e Função RHK, dois grupos de rap. Ambos são locais na periferia Oeste da RMSP e declaram a missão de fazer “um bom som”, ambos foram revelados através do grupamento conhecido no circuito rap nacional como Família RZO e estão com discos prontos.

A melhor maneira pra chegar nesses municípios a partir do centro expandido* é usando a linha B do trem da CPTM, que sai da estação Júlio Prestes. Peguei um ônibus às 13hs, aproveitando pra testar a integração ônibus-trem na estação Barra Funda, onde começou meu rolê no contra-fluxo. Na ida bastante gente nos vagões, mas longe da “realidade muito triste” dos horários do rush, em que “centenas vão sentados e milhares vão em pé”. O penar dos usuários do transporte público intermunicipal descrito no rap O Trem tem tom de protesto, foi lançado pelo citado RZO como single em 1998 e ecoou pelas periferias. “O RZO bateu no meio: quem curtia Facção (Central), quem curtia Racionais, curtia RZO, é muito louco. Tudo que era público colava no show da Família RZO”, diz DBS. Metade do custo pra fazer Pirituba e o Trem foi bancada pelo grupo, e as 500 cópias em vinil foram bem promovidas graças às rádios comunitárias, abundantes na época. O RZO também teve sua origem na periferia da zona Oeste, no distrito de Pirituba, três paradas a partir da mesma Barra Funda pela linha A, e veio com um som que era com certeza influenciado pela postura e balanço dos Racionais (notadamente no som Paz Interior). Além disso, com Mano Brown & cia. o RZO admitia admiração pelo rap estadunidense – neste caso, a principal fonte era a organização sonora nova iorquina Wu-Tang Clan. Como os estadunidenses o grupo incluía muita gente, cada qual com suas levadas próprias, cada um encarnado num personagem. Como os estadunidenses, o grupo serviu de escola e plataforma para muitos outros grupos e artistas, como Sabotage, cuja carreira meteórica terminou com seu assassinato em 2003. Segundo Tom, do Função RHK, o grupo “abriu as portas da Z/O. O RZO deu a oportunidade pra vários manos colarem e assistirem aos ensaios deles, pra vários manos colando em shows, tipo igual eu, o DBS, o próprio Sabotage, e ali foi uma escola, porque você ensaiar com menino Helião e Sandrão, os cara são foda, os caras tem uma fórmula ‘monstra’ do rap.”

O balanço da Rapaziada da Zona Oeste rap abriu um universo amplo de composição, com canções sobre trânsito, boemia ou até mesmo sobre chuva. As letras mantinham a perspectiva de orgulho favelado, mas fugiam das narrativas lineares dos discursos ou contos, eram muito parecidas com fluxos de consciência, entremeadas por gírias e onomatopéias, muita cantoria masculina e feminina e uma profusão de estrofes repetidas como pequenos refrões. Importante também é que o RZO fazia isso sob a perspectiva boêmia, dos Loucos. Dos periféricos orgulhosos, que curtem as baladas nas biroscas e na rua, e chapam sempre prezando o respeito, a consideração - uma versão hip hop dos malucos beleza, contra cultura total. Essa figura pode soar caricata se você nunca foi botequeiro, mas aí eu só lamento. O espírito está retratado nas incontáveis colaborações com outros artistas e nos dois discos do grupo, Todos São Manos (1999), lançado pelo selo dos Racionais Mc’s, e Evolução é Uma Coisa (2003), que saiu pelo Festa Brava, selo próprio, com distribuição da TNT Records. É desse disco que vêm os versos: “é no barraco do Fumaça vários mano ali com nóis / escutando um Jorge Ben, um Wu-Tang Clan, um Racionais / doido demais, cachaça rola, quando não baseado, alucinado saco de cola / não me envergonho, quem me conhece prova, eu não escondo / pois eu acho assim, minha vivência trouxe ponto e vou além também /mas não muito pois pressinto a lei / respeito, aprendi com os mais velhos do peito no ganha pão / colei com Véio Badu, picadilha de responsa é sem flagrante, assim que é” (Rolê na Vila). Do universo coletivo do RZO, onde levadas vocais diferentes das encontradas no cenário nacional são de importância vital, vem o termo constante nas rimas e importante pra equação que tento montar aqui: bom som. Muito ainda deve ser falado sobre o RZO, que se desfez recentemente, com Sandrão e DJ Cia fazendo suas corridas solo e Helião formando uma dupla com a Negra Li.

DBS, o cabeça d’A Quadrilha, me esperava na saída da estação Carapicuíba. Me apresentei, e ele contou que descera até ali de ônibus, já que seu carro havia quebrado no meio do caminho. Concluímos que o melhor era sentar em um dos bares em torno do terminal pra conversar. Conta que está terminando seu segundo álbum, com data programada pra agosto. No primeiro, intitulado O Clã da Vila, DBS faz o seu balanço com uma levada anasalada, sinuosa e tremida, construindo contos e comentários sociais em um som complexo, impulsionado pelos arranjos vocais, que usam camadas de onomatopéias, assobios e murmúrios. “Tem que sentir o que a música pede. O diferente vem da forma como a gente trabalha, ninguém é igual a ninguém. Tem instrumental lá que não tem baixo – não ta pedindo, você entendeu? Tem música que a gente faz tão simples e acontece. Eu sou um cara sincero: tenho muita influência (norte) americana mesmo, até pela questão de acreditar em criar um estilo. Sou fã de Notorious B.I.G., acho Notorious tipo nâmber uône do jogo mesmo, me influenciou e me deu auto-estima também. Mas não tem como eu deixar de ser brasileiro, não é porque eu tenho influência americana que eu deixo de ser favelado, eu nasci no meio do morro mesmo. Minha cultura tá aí. Não tem como eu fingir ser da rua, fingir simpatia. Pela minha letra você vai saber se eu sou real ou não, se você acredita no que eu to falando. Se você não acreditar já era, não tem meio termo na coisa, eu tenho essa consciência de falar o que eu sinto. Eu fui mudando, esse estilo que eu tenho hoje foi acontecendo naturalmente, o jeito que eu falo com você não é o jeito que eu canto – é muito louco isso aí. Acho que é coisa de Deus mesmo”.

Darci Braga de Souza começou em Carapícuíba. “A primeira vez que eu cantei no palco profissional foi com o DJ Negro Rico, no salão que dava oportunidade pros grupos, isso é começo dos anos 90. Ele era DJ do Caveiras do Rap, um dos grupos de Carapicuíba que mais me influenciou, os caras cantavam em escolas e na rua, tinham bailes de rua mesmo, os caras montavam as caixas e cantavam. Então DBS não é um cara que pegou São Bento, é um cara que se informou do rap em Carapicuíba mesmo, não tinha tanta saída. Época de, meu, Mensageiros do Rap, Manos do Rap, Flash Rap Gang – o DJ Cia (RZO) tocava pra eles. Então eu comecei e os caras já eram mais antigos do que eu, o Bozo no break, o Elias no graffiti. Pra mim foi bom. Eu comecei porque eu gostava tanto do bagulho, mas tanto do movimento, e não sabia dançar, não sabia fazer nada, mas eu gostava tanto que sentia obrigação de fazer alguma coisa pelo rap, essa era a idéia. Graças a Deus eu me dei bem com o rap, me identifiquei.”

Seu estilo de rimar chamou a atenção em faixas do Apocalipse 16, do DJ KL Jay e do Sabotage, em 2001. “O neguinho Sabotage, que foi o primeiro da Família a sair solo, me convidou pra participar num som que ele gostava muito, que é Respeito É Pra Quem Tem. Nessa época eu descolei um trampo de boy lá no banco Sudameris, então não conciliava muito. Pra você ter uma idéia, eu fui um dos últimos a gravar participação, eu fui lá faltando três dias pra fechar o disco. O Sabotage vivia me ligando, só que nunca batiam os horários”. Todas essas oportunidades pintaram graças a sua filiação à Família RZO. DBS dá seu testemunho: “Em 97, depois de seis formações do meu grupo o Negro Rico – que também foi DJ do RZO - me chamou pra ir no ensaio dos caras. Eu fui, aí sumi um ano. Tinha um grupo chamado Ponto Negro que o Helião deu uma força pra eles em uma coletânea do falecido Nathanael Valêncio, aí os caras fizeram uma participação com o RZO e a música pegou legal. Só que os caras do grupo saíram, houve todo aquele desacordo que rola muito entre grupo, e o Helião falou ‘ô DBS, não quer dar uma força pro menino Maurício aqui? Ele tá precisando de uns caras pra cantar’. Fui lá, tinha acabado meu grupo, a última formação foi com o Isael. Isael trabalhou comigo oito anos, aí ele virou crente – se eu tivesse um sócio era o Isael, só que ele virou crente né meu, até hoje temos uma amizade muito grande. Aí fui fazer a parada com o RZO, mas como Ponto Negro, e aí que o Maurício saiu da Família pra tentar o disco dele, mas o Helião falou que eu permanecesse. Das primeiras vezes no palco, assistindo, aí ensaiando, o Helião me apoiou muito, me apoiou muito, mano. Ele é muito importante. Helião é Negra Li, cara, Helião é Sabotage, Helião é DBS, entendeu? É muito louco mesmo. Eu permaneci na Família RZO, aí a mãe do Helião morreu, foi triste pra caramba e tinha três shows no dia. Primeiro no Palmeiras com o Das EFX, grupo internacional. Saindo de lá fomos pro Clube da Cidade, chegando lá o Hélio deu uma crise, porque a coroa morreu e ele tava meio... Fez o primeiro show, fez o compromisso dele, mas ele não conseguiu fazer mais nada, aí levaram ele pra casa, foi a hora que começou aquele ‘quem sabe fazer o que, quem sabe cantar o que, como vamos fazer show’. O Rappin Hood tava com nóis, disse ‘eu canto o Sou Negão’, o Sandrão me perguntou ‘tio, sabe cantar alguma coisa?’. Eu sabia cantar umas partes do Edi Rock, foi aí que começou tudo. Os meninos disseram pro Helião que eu mandei bem nessa parte, interpretei de novo em outro show e graças a Deus meu espaço começou aí. Tive a felicidade do próprio Edi Rock chegar em mim.”

Ele reflete: “Eu venho de um barato muito louco, eu venho da morte do Sabotage e do fim do RZO, irmão, então tudo o que você faz parece que tá ligado a alguma coisa. Ou tá querendo se aproveitar do neguinho que é meu irmão, ou tá querendo assumir o lugar do RZO. É complicado, você acha que não era o meu sonho ter o RZO e Sabotage aqui, ter uma turnê disso aí, cada um com um disco. Até a poeira baixar e nego entender que nada é por acaso, que tem um trampo de 11 anos aí, demora”.

Desde então tudo se encaminhou, e DBS vive de rap desde 2003. “Todas as músicas que trabalhei viraram, Só Bam Bam Bam virou, Piripaqui virou.” Com disco novo pronto, ele está esperançoso. “É o segundo pela Manicômio Sonoro. No primeiro tinha muita gente conhecida, colocamos o B-Negão no primeiro porque eu gostava daquele estilo ragga dele no Planet Hemp”.O som Vai na Fé, do primeiro disco, entrou na trilha do extinto seriado Turma do Gueto, o que deu projeção nacional pro grupo. “O Turma do Gueto foi o seguinte, a gente já tinha lançado o disco pela Sky Blue, que tinha um contrato pra lançar essa coletânea, só que eles fizeram uma colê (coletiva) ali no meio dos artistas perguntando quais eram as músicas. Apontaram DBS, Trilha ($onora do Gueto), RZO, e a gente fica feliz por isso.” Quem canta o refrão dessa música é Tom, do Função RHK, pra cuja casa eu me dirigi depois dessa conversa regada a duas garrafas de tubaína.

Nove estações, mais a decepção com a tal integração do Bilhete Único, que só possibilita uma viagem de trem ou metrô, e não passe livre por duas horas como nos ônibus, passei por um estacionamento bem grande só pra bicicletas, e muita gente pedalando. Pensando quanto o transporte público é bicado e, portanto, o acesso periferia-centro e vice-versa, caminhei e cheguei na Cohab. Perguntei pra um grupo de motoboys na entrada sobre o pessoal do Função RHK, me informaram onde era a casa. Andei mais um monte e cheguei, encontrando os membros do grupo em seu espaço de ensaio, os fundos de uma casa em Itapevi. Apesar de mais recente, a história da conexão do grupo com o RZO é bem parecida com a anterior. “Começou através do DJ Celo, que conhecia o DJ Cia e o Negro Rico. Começou devagar, às vezes ele ajudava a gente, às vezes ele tava sem um cavalo (carro) pra colar nuns bailes e sintonizava nóis ‘pá, vamos chegar numa missão ali?’ e tal.Começamos a colar nos ensaios do RZO. O barato só foi progresso, uniu o útil ao agradável. Tem um convívio, tem vários momentos passados com o RZO. E através desses contatos conheci o DBS”, conta Tom.

Depois de gravar e participar de shows com o RZO, o Função RHK está com seu primeiro disco na rua, um CD intitulado Eu Amo Você. As bases são do DJ Cia, no primeiro trabalho em que assina a produção quase que totalmente desde Evolução... do RZO. Tom, Coé, Abutre, Matraquinha e Negro Zeka trabalham muito com troca de versos, numa dinâmica desenvolvida em ensaios semanais que lembra camaradas de muito tempo conversando – em público. A descontração é natural: “Na verdade a gente tem contato com a música de milidias, antes a gente tinha um grupo de samba, e a gente sempre faz um samba quando não tá fazendo um rap”, diz Tom. Coé acrescenta “e tinha seus tios também...”, “é, meus tios sempre trabalharam com isso, tinham equipe de baile aqui em Itapevi na época do samba rock. Eles falam que foi mó época boa, que faz falta pra eles. Eu via eles saindo sabadão, e via eles chegando também, cansados, às 7 da manhã, e fazia eles ligarem o som, separava uns quatro, cinco discos ali, eu ia escutando e eles iam dormir sossegados”. As levadas ‘loucas’ dão a tônica, e esse é um dos primeiros grupos a absorver bem os esquemas de rimas dobradas que Sabotage usava. Afinal, “é a missão, se eu vou entrar no rap vou criar uma coisa diferente, estilos e métricas diferentes, uma interpretação diferente. Eu falando sou de um jeito, mas ali no palco é totalmente diferente, ali é o Tom, eu sou o Washington. É um personagem que eu criei.” As interpretações casam bem com as batidas e samples polidos, fazendo com que todos os sons sejam bons pra baile, e portanto potenciais músicas de trabalho. Apesar de não seguirem a linha contos do crime, todas as letras proclamam o tal pique favela de buscar um bom lugar, não se pautando também pelo bom-moçismo da música nacional pra rádio. “Isso é um barato que a Z/O tem bastante – não falando que a Zona Sul não tem, é diferente, e de lá tem bastante coisa boa vindo. Lá tem uma pegada diferente e isso é bom, vários estilos, várias caras do rap. Na gringa tem mano que atravessa nas idéias, tem mano que dá a idéia certa, tem uns estilos da hora, uns mais borocoxô, e por aí, entendeu?”.

Uma das canções diferentes é Maravilha, uma animada parceria com o artista de reggae Edu Ribeiro & Banda Cativeiro. “Nós conhecemos um menino bom de coração, o Edu Ribeiro, ele tá representando no que ele faz e deu essa oportunidade. Entrou o som no disco dele e vai entrar no nosso também”. Essa conexão entre o rap e reggae ta acontecendo muito (Império e Planta & Raiz, De Menos Crime e Natiruts) e pelo menos nesse caso tem rendido participações pro grupo em eventos com público diferente – que às vezes chega a 10.000 pessoas. “O rap e o reggae têm uma coisa, né, porque é bem gueto o barato, sofrem as mesmas discriminações, tem as mesmas dificuldades de espaço e ideologia, também tão abrindo horizontes de som”.

Lembrei do que DBS contou sobre as casas de eventos localizadas no centro expandido: “É fechado né? Essas casas intituladas de black né? Mas é o rap, né, o bagulho é louco! Uma pá de gente falando que eu nunca vi antes. Mas isso não é problema pra mim, o problema é que uma pá de nego bom não agüentou chegar essa época melhor pra mostrar seu trabalho. O resto é profissionalismo, tem muito público, nas festas de interior aí, Nordeste, Curitiba, Brasília, Minas – isso com mais de três anos de álbum lançado. Você vê, o barato é louco e o processo é lento, é verdade, o disco tem vida própria. Todos os lugares do Paraná tavam cheios pra nós, fizemos Foz, perto do Paraguai, tinha até paraguaio no show, isso é muito louco... Curitiba nós vamos pela terceira vez agora em menos de um ano”.

A busca pelos circuitos alternativos de disseminação e distribuição é uma questão diária pra ambos. DBS está novamente investindo na parceria de seu selo Manicômio Sonoro com a Sky Blue. “O trampo da distribuidora é a 105 (FM) mesmo, o resto que é interior do Brasil a gente faz, o selo. A 105 é muito importante em geral hoje, na só no lance de impor o estilo, porque tem muito cara que toca lá também e nunca acontece...”. O disco do Função “ia sair pela Sky Blue, mas a proposta deles não interessou mais pra nós, agora vai sair pelo selo da Família RZO, Festa Brava, com distribuição da Zâmbia. O Sérgio Escada, líbero da seleção brasileira de vôlei, é que tá dando uma força pra nós, com prensagem e tudo mais. O CD ta muito caro, mas o pirata ajuda a gente na divulgação. Se a gente vender a R$ 10 no show fica bom. A gente viu isso com o Edu Ribeiro também, por que ele vende nos shows, isso que é certo”.

Frente às dificuldades, DBS está pensando em outras saídas pra divulgação do seu trabalho. “A periferia em geral tem essa cara, da frustração. Mas os moleques tão buscando muito, até mesmo com essa revolução digital onde estúdio barateou, democratizou a coisa. Tem o lado que a pirataria come solta também, e a gente sente isso, porque o investimento da gravadora é menor, e da nossa parte também. Se a gravadora vendesse disco a oito, nove reais, ela ganhava. Sempre houve um lucro muito grande em CD, você paga R$ 2,20 e quer vender por R$ 17! Só que tem que ser adaptar ao mercado nacional. Só que as grandes gravadoras são internacionais, é isso que ta pegando no Brasil. Eles pensam com a cabeça lá. A gente tem que se adaptar”. Mas como fazer isso? “Eu to pensando em fazer nesse próximo álbum um (preço) sugerido, onde a gente perde um pouco. O que o forró faz? Eles não ganham o artístico, os (direitos) autorais, e automaticamente a gravadora consegue jogar o disco lá embaixo. Queremos fazer isso, mas a gravadora tem que entender e passar isso pro consumidor. No forró ta dando certo. O cara que paga 5 paus no seu álbum gosta de você. É esse o pensamento que tem que mudar, ele não quer pagar isso pra te prejudicar, ele quer ouvir a sua música. Se ele tem R$ 10, e meter R$ 5 aqui e R$ 5 de bife em casa, melhor né? Eu cansei de assinar CD pirata, é foda, mas é satisfatório porque você vê que os moleques gostam”.

DBS, e o rap paulista em 2006? “A rádio 105 quase não faz shows de rap hoje em dia, rádio comunitária diminuiu bem, tem uma, antes tinha duas nervosas, a Caracas FM e a Meridional FM, onde o Moisés comandava. Perdemos muita coisa desde a época da Família RZO, a gente tinha show demais, hoje em dia nós temos poucas casas que fazem show de rap em São Paulo. Uns preferem apontar pros moleques, mas é um todo. Os grupos têm culpa, os moleques também têm culpa. É que falta o direito à cultura, é o apartheid. Os grupos têm que saber, tem que ter o respeito, porque os grupos que tocam nos bailes são a liderança, e se não soubermos liderar nosso povo como é que fica?”. Tom concorda: “Esse ano vai ter muito rap na avenida. Foi só internet, toda a semana a gente tem show, mesmo sem ter o álbum. E a gente vai fazer clip sim”.

Ambos seguem o método RZO. Um bom som, buscando originalidade, diversão e conscientização, e ajudando quem está chegando junto. Pelo telefone, alguns dias depois, Helião me conta: “Isso de chamar gente nova pra participar, a gente tá ajudando eles, mas eles tão nos ajudando também. Trazem novidade, inspiração”. No disco novo do DBS “tem muita gente participando, mas pessoas que nós tamos revelando, como o Clã da Vila fez. É o mesmo processo. Já tem as pessoas que correm comigo. Não dá pra carregar todo mundo, cinco caras, dez caras, mas vai um de cada pra representar o seu time, tá lá gritando o nome já é uma coisa louca, você entendeu. Tamo fazendo isso aí, levando pros shows e tal”. Tom: “tem o Matraquinha, que faz uma participação, ele é de um grupo que chama Mil Volts e o Samambaia que faz um parada mais voltada pro reggae. Tem o Pulga que ensaia com a gente, de repente a gente lança ele, queremos montar um selo, de repente vai chamar UEBA Records, né?”. DBS já tem a Manicômio Sonoro.

Depois de um belo pôr-do-sol avermelhado em Itapevi vou embora escutando um CD-R com algumas das músicas mais animadas de Eu Amo Você, que ainda não estava na rua. Já está e a primeira prensagem de 3.000 cópias (“fizemos pouco pra girar rápido, e prensar mais”, disse Tom) deve acabar bem rápido – só a comunidade deles no Orkut tem mais de 2.200 membros. Fui imaginando como estará o segundo disco do DBS, como está o trampo solo do Sandrão, o que o Helião vai fazer em seguida, se é que a Negra Li sai solo. Se o modus operandi do RZO proveu técnicas e experiências, os talentos desenvolvidos foram trilhando seus caminhos únicos. Isso tudo é só um pedaço do som da Oeste, um pedaço importante, mas existem muitos outros grupos ativos lá e por toda a RMSP – alguns com estilos bem demarcados, como os próprios Loucos da Z/O, o som da Sul e da Leste. E há grupos que soam como misturas dessas e outras características, por aí vai a exuberância do rap paulista. Se os discos do Função RHK e do DBS forem os únicos lançamentos de rap nacional em 2006 – e seguramente não são – este já é um bom ano.

tags: São Paulo SP musica rzo periferia sao-paulo dbs-e-a-quadrilha funcao-rhk hip-hop rap


 
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*região delimitada pelas marginais Tietê e Pinheiros, av. dos Bandeirantes, complexo viário Maria Maluf, av. Tancredo Neves e av. Juntas Provisórias, pelo viaduto Grande São Paulo, av. Professor Luís Inácio de Anhaia Melo e av. Salim Farah Maluf, onde funciona o sistema de rodízio semanal dos automóveis e se concentra a maior parte dos equipamentos da cidade.
André Maleronka · São Paulo (SP) · 31/5/2006 11:32 
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q massa andré ,tem tudo a ver com a periferia ,matéria cabulosa ,mais uma vez não faltou nada ,completinha sang!parabens!
Dalsins · Campinas (SP) · 2/6/2006 15:46 
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valeu, mano! Entrevistei os dois grupos, que na minha opinião estão entre os melhores de rap paulista atualmente, pra colocar um pouco de suas trajetórias nas suas próprias palavras, é o meu primeiro esboço pra falar sobre dois pontos que considero importantes.
O primeiro é falar sobre o valor desses grupos, coisa que a meu ver não passa necessariamente – como colocam a grande mídia e a imensa maioria das revistas especializadas – ou pela “atitude” e “postura” ou pela vendagem, apelo pop e “inserção no mercado da classe média”. Exagero? Não vou enumerar os exercícios de racismo e classismo dos grandes jornais, quando eles dão aquele boi de colocar um grupo de periferia (não falo só de rap) estampado em sua páginas, só digo o seguinte: pega a revista Bizz com a capa do Ramones e saca a matéria sobre rap nacional que publicaram lá. Não sei se é preguiça, descaso, medo ou desprezo, mas nem quero saber também, só sei que li e o texto é um balaio de gatos a la falso polêmico, querendo levantar aquela bola o “os ‘manos’ são vendidos? Ou tem ‘atitude’ e visão?” – SAI INVEJOSO, DÁ UMA ARRUDA AÍ PRA MIM, já canta o Cascão (T$G). Pra mim, turista no rap, o que importa é que esses caras fazem um baita sonzão.
Se a questão é mercado, é só se aproximar um pouco e ver como artistas de rap talentosos (ou artistas vindos das periferias em geral), que constantemente fazem shows pra grandes platéias em todo o Brasil, vendem discos etc são tratado etc são tratados como ‘o outro’.
André Maleronka · São Paulo (SP) · 3/6/2006 21:09 
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Se as questões podem ser encaradas desse jeito que proponho, e não são, aí não tem como não pensar que se trata de uma postura higienista e safada, que serve mesmo como uma medida indireta de concentração de renda: dividir e conquistar.

Posto isso, conto meu segundo ponto ali, que é tentar colocar em perspectiva a importância do RZO pra música brasileira. Devo falar mais sobre todo isso num futuro próximo. Portanto, quem puder ler e me ajudar nessa reflexão, eu agradeço de coração, desde já.


André Maleronka · São Paulo (SP) · 3/6/2006 21:10 
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demais, andré.

é muito bacana, IMPORTANTE, rico, que se possa ter reflexões mais aprofundadas sobre o rap e o hip hop de maneira geral, como essa que você fez, abordando essas formas de arte na sua dimensão de ARTE mesmo - sem deixar de considerar, é claro, a importância disso do ponto de vista social, de identidade, por que uma coisa não pode estar descolada da outra de maneira nenhuma.

Deixar os caras falarem sobre sua própria música, construir o texto de maneira que a voz deles apareça com menos filtros, como a gente vê o tempo todo na mídia, é uma escolha sua que eu, particularmente acho demais também. Importante.

espero que você faça mais passeios e conversas como essa em breve.

Abraço!
Vânia Medeiros · Salvador (BA) · 4/6/2006 12:43 
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vãnia, brigadíssimo pela atenção. vamos ver como anda a carruagem, pq eu gosto e quero escrever mais sobre isso desse jeito. talvez encontre outros, a gente vai tentando. to marcando outros desses sim. valeu, até!!!!!
André Maleronka · São Paulo (SP) · 5/6/2006 17:52 
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saulão ......quem é, é!
.......quem não é......cabeloVoa!!!!!!!
pro meu gosto..achei e acho muito loko.."INFORMAÇÃO" que ajuda na integração, valeu..a simplicidade agrada e ajuda nessa vida..cheia de comédiagens dos q nao enxergam ou acham bem loko taparem os olhos........enfim valeu a autenticidade, 100subserviência..tamojunto. saulão
saulão · Campinas (SP) · 9/6/2006 12:01 
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akirarw Já dizia o Código 13:"Saiam do caminho embalistas de estação, não tomem aquilo que nos pertence com razão, escutar hiphop é coisa normal, entender o hiphop é onde está o mal" Isso ai, bola pra frente, deixa os boy pensá que tá bom...
akirarw · São Paulo (SP) · 10/7/2006 02:32 
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entrou no ar o site oficila do grupo, o endereço é http://www.rhk.com.br/
André Maleronka · São Paulo (SP) · 14/9/2006 12:05 
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