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O Caldeirão da Santa Cruz do Esquecimento

A Taula de Sant Miquel (séc. XIII) do mestre de Soriguerola
O Caldeirão dos Supliciados

Um pequeno sítio numa propriedade abandonada num pé de serra, nos confins do mundo, oficialmente denominada Santa Cruz, distrito de Crato, Ceará. Como se confirmaria depois, e por um outro itinerário, aparentemente sem nenhum motivo para ser lembrado. Afinal, muitos são os pequenos sítios e também muitas são as propriedades que de tão abandonadas não se destacam em seus relentos no abandono geral daquelas terras sem dono do Sertão do Cariri.

Outro, não menos esquecido, de nome José Lourenço Gomes da Silva, cruzou com o caminho do sítio em meados da década de 20 do século passado, ao receber a posse das terras de um ilustre donatário. Após vê-lo preso por, simplesmente, pregar a palavra de Deus em praça pública, o Padre Cícero de Juazeiro do Norte destinou o sítio para que o Beato José Lourenço pudesse viver em paz a sua fé. Apartado do mundo, longe de tudo. Sem nenhum motivo para ser lembrado.

Assim foi feito. Palavra de Santo não é muito dada a desobediências. Mas em um ponto a ordem de Padim Ciço não pode ser cumprida por inteiro. Sem explicação aparente, ou pelo vigor que aquele povo tem em construir sua própria história, o sítio começou a atrair a atenção dos sertanejos que, em grandes grupos, se mudavam para o local, agora batizado de Caldeirão da Santa Cruz do Deserto.

Com a fama espalhada pelo Nordeste, sertanejos de outros estados, principalmente do Rio Grande do Norte, procuraram a comunidade para fixar moradia. Com o tempo mais de duas mil pessoas habitavam o Caldeirão. Em sua maioria, gente pobre querendo sobreviver. Expiando com muita reza e trabalho os pecados de sua vida seca, do solo seco, do futuro rachado pelo não menos seco silêncio indiferente das autoridades.

No Caldeirão, nada tinha dono, não havia posse. A vida era comunitária, o sistema cooperativo. Era dar para receber. E todos recebiam. Com o plantio de cana, arroz, feijão e a criação de animais, como bois e cabras, José Lourenço e seus companheiros resolveram o problema da fome numa região marcada pela estiagem e, consequentemente, pela falta de comida. A população do Caldeirão crescia e, com isso, vieram carpinteiros, ferreiros e artesãos que passaram a produzir cintos, roupas, ferramentas, sapatos. Tudo fomentado com matéria prima local. O algodão, por exemplo, era plantado na própria comunidade. O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto caminhava para ser auto-suficiente.

Até aqui o sítio doado pelo Padre Cícero cumpria sua sina. Exatamente onde o vento faz a curva, uma terra pobre habitada por gente de olhos fundos, com pouca carne entre ossos e pele, marcada pela privação. De proprietário, apenas a Vida. De capataz, apenas o Tempo. Conseguir se sustentar pelo próprio trabalho parecia o coroamento da palavra do patriarca de Juazeiro do Norte. O Caldeirão não praticava o comércio, seus integrantes não conviviam com a Sociedade, numa existência praticamente apartada do Mundo. Era somente trabalhar e rezar, segundo os desígnios do Beato José Lourenço. Mais do que nunca parecia, para o Beato, que aquela sociedade que tão injustamente o havia encarcerado estava ficando para trás. Seu Caldeirão não precisava do mundo. O mundo não valia a pena. Melhor era esquecer dos que o esqueceram, viver afastado, sem nenhum motivo para ser lembrado.

Mas não tão fácil, meu caro. No mundo do cão nada sai de graça e até mesmo a morte, seja ela física ou simbólica, tem um preço. De repente os esquecidos passaram a ser lembrados. Acontece que o Padre Cícero, cuja imagem emprestava bons ares ao ajuntamento de José Lourenço, resolvera curtir sua santidade ao lado de Deus desde 1934. Com o perdão do trocadilho, foi caixão. Os padres salesianos, junto ao bispado e ao governo do Ceará, começaram a delirar. Mas nada de onírico havia no devaneio dos donos do Estado. Parecia mais com um pesadelo.

O antes inofensivo Caldeirão da Santa Cruz do Deserto virou uma célula do “comunismo primitivo”. Seus moradores praticantes do fanatismo e adoradores de ídolos pagãos, no caso um boi chamado mansinho, porém, de fato, uma versão matuta do bezerro de ouro relatado na Bíblia. Alguns historiadores acreditam que, na real, estava faltando a tradicional mão-de-obra barata, quase escrava, para as fazendas dos latifundiários, algo parecido com Canudos. Paralelos à parte, o Caldeirão incomodava, metia medo. E, por isso, seria implacavelmente cassado.

Só para contextualizar, eram tempos de ditadura getulista. Era o ano do Departamento de Impresa e Propaganda, de Vinícius de Moraes, futuro poetinha do Brasil, ainda censor de audiovisual. O pecado de conseguir sobreviver na seca e fazer do semi-árido um oásis não iria ser perdoado facilmente. Em 1936, a Polícia Militar do Ceará invadiu o Caldeirão e tomou todos os bens da comunidade, expulsou seus membros e só não prendeu o Beato José Lourenço porque este fugiu para a Chapada do Araripe. Apesar de tudo, ainda não era o desterro do Caldeirão. Seus membros continuaram nos arredores prontos para reerguer a obra.

Aqui tem lugar o episódio mais trágico desta história. Algo que poucos conhecem e que, sem dúvida, merece relevo. O Governo de Getúlio Vargas mandou Caças, da Força Aérea Brasileira, para bombardear o território do Caldeirão. Morreram 700 pessoas. Estamos falando de aviões e bombas contra o povo que, ao contrário do de Canudos, não ofereceu resistência violenta e nem mesmo tinha armas, a não ser que consideremos como tais foices e enxadas.

Neste momento, o autor gostaria de perguntar: quantos de vocês, leitores, sabiam disso? Poucos, eu imagino. A endemonização do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto atendeu, por vias tortuosas, aos desígnios de seus criadores. Nada do que foi escrito aqui foi publicado nos jornais da época, até porque isso não interessava aos poderosos. Por muito tempo o Caldeirão continuou do jeito que nasceu: apartado do mundo. Só a partir da década de 70, esta história foi sendo desvendada pouco a pouco por alguns corajosos da cultura caririense, com participação da Universidade Regional do Cariri.

No entanto, muitos dos interessados no assunto continuam a acreditar e divulgar que o Caldeirão foi mesmo uma experiência socialista-comunista, sendo inclusive veiculado em dissertação de mestrado e documentário. Ou seja: a mesma balela divulgada por aqueles que o destruíram. A memória coletiva sofre. O verdadeiro Caldeirão dorme. Tão profundamente quanto o sono eterno de José Lourenço e do Padre Cícero, os únicos a terem êxito em seu intento. O Caldeirão da Santa Cruz do Deserto dorme, sim, sem sonhos, nem pesadelos, sem nenhum motivo para ser lembrado.

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