Quem vê o paulista Benedito Nelson Augusto dos Santos, 65 anos, deitado numa rede, falando manso aos fundos de sua residência, em Porto Velho, nem imagina que ele carrega uma extensa bagagem numa das mais antigas e tradicionais lutas do mundo, o Karatê. Uma escolha que, para Kioshy, como é conhecido por seus alunos, o primeiro a receber grau de mestre no Brasil, fez e continua fazendo toda a diferença quando o assunto é arte marcial.
Foi com graduados mestres vindos do Japão ao Brasil, em 1957, como Chican Akamini (7º grau), Jiro Takaesu e Juichi Sagara que Nelson desenvolveu, em São Paulo, o aprimoramento da luta. De lá pra cá, ele já conquistou diversos campeonatos e é hoje o único no país que tem o 8º grau. Reconhecimento oferecido apenas por quem já passou ou freqüenta suas aulas. Simples, o professor não se intitula melhor que ninguém, mas admite que seja preciso ter determinação para se vencer na vida como um guerreiro.
O mestre mora com mais doze pessoas num condomínio afastado 15 quilômetros da cidade, ao redor da floresta. Todas as casas são no estilo japonês. A primeira, por exemplo, foi construída em 2002 quando Benedito chegou à Capital. Atualmente, o “Condomínio dos Samurais”, como ficou batizado o local, possui quatro casas prontas e uma em construção. Todos vivem num estilo diferente e seguem a psicologia de Gurdjieff.
Recentemente, Benedito Nelson iniciou aulas de Karatê na academia Atlethics, em Porto Velho, às terças e quintas. O valor da mensalidade custa R$ 50 e qualquer pessoa pode praticar o esporte.
Em entrevista*, o professor-mestre conta como iniciou sua trajetória e por que escolheu a cidade de Porto Velho para viver. Confira na íntregra:
Overmundo: Quando o senhor despertou para o Karatê?
Nelson: Eu era um malandro que admirava os outros malandros. Até que um dia, presenciei um amigo que levou vários golpes de faca e me senti indefeso por não poder fazer nada naquele momento. Foi quando procurei uma academia de judô, em 1957. Lá, existia um lutador de boxe, Cláudio Rosa, que ninguém conseguia vencê-lo e perguntei a ele qual era o segredo. Sabe qual foi a resposta dele? O Karatê, amigo. Foi assim que me encontrei com os grandes mestres Jiro Tacaesu, Chican Acamini e Juichi Sagara.
Overmundo: Seus professores foram japoneses. O senhor aprendeu a falar japonês?
Nelson: Sim, mas aprendi pela necessidade. Hoje também falo inglês, pois facilita em minhas viagens.
Overmundo: Qual é o estilo de Karatê que é ensinado e como são suas aulas?
Nelson: Treino duas modalidades: o Goju-Ryu e o Shotokan. As aulas que ministro são para principiantes e graduados. Os principiantes aprendem os primeiros movimentos de combate, como treinar as mãos e os pés. Em três meses de aula já é possível alcançar os primeiros resultados. Para graduados, apenas corrijo seus movimentos conforme pedido do interessado.
Overmundo: Por que escolheu a cidade de Porto Velho para viver?
Nelson: Para ficar mais perto da natureza e poder exercitar a consciência. Lutador de Karatê tem que ter um nível de consciência para vencer qualquer obstáculo e isso só é possível com atenção. Vim com um grupo de doze pessoas. Moramos todos juntos. Para as pessoas que não nos conhecem, é um estilo de vida completamente diferente. Mas, para nós, um jeito de viver em união.
Overmundo: Como é esse exercício de consciência e por que é considerado tão importante?
Nelson: Depois de uma experiência com o Karatê, observei que vencer um combate não é importante se não existir o domínio de si. E foi com esse propósito que procurei a psicologia de Gurdjeff, freqüentando a Escola do francês Marcelo Orange, no Rio, e a da madame Natali, em São Paulo. Descobri com a prática da psicologia a minha compreensão de luta e combate se modificarem muito, aumentando meu grau de conhecimento. Comecei a não dar importância para a vitória e nem me preocupar com a derrota. E é esse o estudo que desenvolvemos, em grupo, aqui em Porto Velho. O estudo de si.
Overmundo: O senhor pertence a qual federação? Por que?
Nelson: Confederação Brasileira de Karatê (CBK), com sede em São Paulo. Hoje são mais de 10 federações e, assim, o Karatê dividido não existe um vencedor, mas, sim, uma partícula de cada federação. Nunca fui reconhecido como alguma autoridade, pois não é compatível a minha índole aceitar elogios ou prêmios.
Overmundo: O que significa o Karatê para Benedito Nelson?
Nelson: É uma luta para combate mortal, mas ao chegar no ocidente criaram o campeonato, onde não vale bater devido o perigo que tem cada pancada. E foi assim que a juventude deu mais importância ao esporte, que não é nem 10% do Karatê, em detrimento do combate real.
Overmundo: Quando que um lutador é forte no Karatê?
Nelson: Quando seus golpes de pé e mão acertam qualquer parte do ser humano e decide o combate, pois o lutador comum somente procura os pontos vitais.
Overmundo: Qual a coisa mais importante para o homem?
Nelson: É ter saúde e consciência, pois a sociedade não a tem, mas pensa que tem, por isso não a adquire.
*Entrevista publicada originalmente no jornal Diário da Amazônia, dia 26 de janeiro.
Olá, Marcos, lancei no Fórum do Over a sugestão de colocarmos a tag 100-anos-Brasil-Japao nos materiais relacionados à relação entre os dois países. Vou colocar o seu link na página do fórum que está relacionando tudo sobre Brasil e Japão.
http://www.overmundo.com.br/forum/100-anos-de-imigracao-japonesa-no-brasil-no-overmundo
Gostei da filosofia de desenvolvimento humano em oposição ao simples conceito "vencer X perder".
Abraço
"...psicologia de Gurdjieff"??? Marcos, o seu Benedito realmente deve ser uma grande figura. Sempre me interessei pelas artes marciais, karatê e judô, por exemplo. Infelizmente, a parte 'mística' e religiosa até, não entendo muito bem. Por isso mesmo, gostaria de saber do que se trata essa tal psicologia. Um abraço.
Oi Filipe! Respondendo, de forma resumida, tua pergunta...
Segundo Carla Martinez, uma das alunas e integrantes do grupo que vive com Benedito Nelson, trata-se de um trabalho de atenção dentro e fora do ser humano, para observar não só a si próprio, mas tudo que está a sua volta. O objetivo é despertar a realidade para não viver de fantasias.
:)
Parabéns pela matéria. Deve ser muito bom ter a presença e contar a sabedoria da figura. E Porto Velho é uma cidade doida demais de boa... grande abraço
Rodrigo Teixeira · Campo Grande, MS 2/2/2008 01:55
Puxa! E eu que mal aguento um kung-fu durante 6 meses... hehehehe!
legal estudar essa parte do psicologico! Geralmente a maiora das academias denigre muito isso! E o pior que a maioria dos alunos acha que é sem importância - basta aprender o truquezinho de "levantar do chão com o impulso da perna" para poder impressionar os leigos!
Olá Marcos, muito interessante teu postado.
Abraços
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