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“O Piauí só valoriza o que vem de fora”

Foto: Divulgação
Desfile de Otávio Meneses no Dragão Fashion, em Fortaleza
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Eugênio Rego · Teresina, PI
29/10/2006 · 50 · 3
 

Esta é afirmação do estilista Otávio Meneses que, a convite de um showroom que divulga a moda brasileira na Europa, participa de evento fashion na Alemanha.

Um dos poucos designers de moda do Piauí que aposta todas as fichas num trabalho autoral fugindo da tentação do mercado massivo de moda, Otávio Meneses fala sobre suas criações e faz severas críticas ao segmento fashionista local.

Fale sobre o evento na Alemanha em que suas roupas estão participando.

OTÁVIO MENESES: É uma feira em que participo a convite da Casa Moda Brasil, um showroom que divulga a moda brasileira na Europa. Lá, haverá um desfile com oitos looks de cada empresa agenciada pela casa. Eu tenho apenas uma participação especial pela limitação da produção e falta de estrutura para exportação. A coleção será ainda o Vento, que realmente despertou interesse de vários compradores de todo Brasil e de alguns países. Realmente, não procurei compradores internacionais para esse trabalho. Fui procurado pela diretora da Casa; segundo ela, meu trabalho era maravilhoso e tinha tudo a ver com a proposta do showroom por ser autoral, com identidade brasileira e ao mesmo tempo internacional.
Desenvolvi novas peças dentro do conceito, pensando na mulher européia. Tenho consciência que mercado internacional é complicado: temos uma das taxas de juros mais altas do mundo que onera bastante o produto, falta profissionalismo, cultura de prazo.

Por falar em coleção, no que está trabalhando atualmente? Vem aí algum lançamento?

OM: Estou desenvolvendo uma linha de acessórios para uma empresa, pesquisando para novos projetos, atendendo alguns clientes com peças exclusivas. Coleção é um pouco complicado. Já torrei muita grana. Realmente falta patrocínio, tive que cancelar participação em alguns eventos fora do Piauí. Existem
alguns equívocos quando se fala em coleção. Têm pessoas que pensam que é fazer 40 peças de roupas e jogar na passarela. Realmente coleção exige muita pesquisa, desenvolvimento do produto, uma equipe primorosa para desenvolver o pensamento do designer e isso tudo sai muito caro.

O que inspira o estilista Otávio Meneses? Para que tipo de mulher você cria?

OM: Acho que tudo, principalmente imagens. Tenho uma curiosidade e uma inquietação muito grande pelo novo. Sou ávido por informação, livro, cinema música, adoro pesquisa de rua em cidades urbanas, que existe atitude fashion.
Em Teresina sempre fui taxado de louco. As pessoas confundem inquietação necessária para arte com loucura e atitude de vanguarda com avacalhação profissional.
A moda é cíclica. Ela precisa do novo, sempre. Um designer, mesmo fazendo um trabalho retrô, tem que olhar sempre para frente e ter atitude moderna em relação à vida, jamais ser uma pessoa banal e comum. Tem que ter muita personalidade. Eu gosto muito de liberdade de expressão, mas crio para uma mulher de atitude fashion que procura ter maIs estilo, seguir as últimas tendências de moda; para uma mulher chique sem vício burguês ultrapassado. Adoro Kate Moss. Ela sabe reinterpretar a roupa de acordo com sua personalidade, tem uma atitude moderna e cool e uma mulher super atual.

Você é um dos poucos estilistas piauienses que consegue se manter com trabalhos autorais, personalizados. Nunca pensou em trabalhar para uma marca local ou grife?

OM: Já tentei, mas os salários são incompatíveis com o mercado e as empresas geralmente não têm estrutura para desenvolver um trabalho de estilo. Realmente se copia muito. Não só no Piauí mas em todo o Brasil. Falta uma identidade brasileira na moda sem cair em clichê. Já fiz moda indústrial no eixo Rio-São Paulo, foram experiências interessantes, tudo tem o seu momento. Já desenvolvi uma linha para a C&A no Rio que um modelo chegava a 12 mil peças. Realmente tomava um susto quanto chegava na fábrica mas depois era gratificante ver centenas de pessoas vestindo peças criadas por mim. Gosto de experiências novas. Já criei até alguns tapetes para uma a Trapos & Fiapos, que tem um trabalho super bacana. Eu apenas sobrevivo, trabalhar com moda não é fácil.

Junto com outros estilistas, você participou da primeira edição do Cara Piauí. Depois não participou de mais nenhuma. O que aconteceu? Foi deixado de lado ou foi o evento que mudou de foco?

OM: Acho que o evento mudou de foco, mas a moda precisa tanto da indústria que gera emprego e renda como das experimentações do designer. No projeto faltou apoio para os designers continuarem o trabalho. Tive problemas com alguns técnicos. Segundo soube, estão me dando gelo. Isso só acontece no Piauí porque lá fora sempre fui tratado com muito respeito pelas pessoas especializadas em moda. Tive uma trajetória de trabalho fora do Piauí sem problemas. Comecei a utilizar o artesanato na moda antes deste blá blá blá. Entra até a questão do Valter Rodrigues que é uma pessoa que admiro profissionalmente. Utilizamos a mesma matéria prima em trabalhos com características diferentes, ambos tiveram repercussão, mas como sou de um Estado que não tem força econômica e nem tradição em moda. Do meu pouco se falou em Teresina. O Piauí ainda tem uma cultura proviciana de só valorizar o que é de fora. Tem pessoas aqui batalhando para fazer moda com muita dificuldade e coragem.

O que é mais importante para quem lida com moda no Piauí: vender, ter seu trabalho reconhecido ou fazer sucesso?

OM: Antes de tudo desenvolver um bom trabalho. Isso é extremante importante, sucesso é conseqüência. Não deve ser objetivo de ninguém na vida. Sempre tentar melhorar é uma busca pessoal e não competitiva.

O que você acha do cenário da moda no Piauí atualmente? Existem realmente novos talentos ou apenas se copia as tendências do grande mercado nacional?

OM: Moda no Piauí é muito recente. Teresina tem uma juventude superbonita e moderna que está num processo de ebulição, com certeza vai surgir gente com boas idéias. Falta uma direção de trabalho quanto à identidade, mas isto realmente
é só com o tempo, sem atropelos. Quanto à moda, não é só no Piauí mas em todo o Brasil, as pessoas estão muito iguais sem personalidade. Tem a questão econômica; o foco da maioria das empresas piauienses é o norte onde realmente a informação de moda é muito limitada. No Brasil a única cidade que tem uma atitude fashion de moda e comportamento é indiscutivelmente São Paulo.

É caro vestir Otávio Meneses?

OM: Tudo é caro, matéria-prima, mão-de-obra, etc.



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Thiago Camelo
 

Oi Eugênio! Sabe que já teve uma matéria aqui no Overmundo que discutia esse tema - se existe ou não uma moda essencialmente brasileira. É essa aqui. Abraço!

Thiago Camelo · Rio de Janeiro, RJ 26/10/2006 16:36
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Eugênio Rego
 

Olá, Thiago. Fiz essa entrevista depois que assisti aos desfiles da Semana de Moda do Piauí, que aconteceu em setembro. O evento é bem comercial - nada contra - mas deixa de fora trabalhos riquíssimos como o do Otávio, que é um costureiro, no sentido mais amplo da palavra. Seu trabalho é de formiguinha mesmo e por preferir o autoral, sinto que ele tem sido deixado de lado. Fico preocupado por sentir que a indústria da moda possa engolir trabalhos como o dele de centenas de outros artistas do corte e costura pelo Brasil e mundo afora. Obrigado pela sugestão e comente quando achar que deve. Um abraço.

Eugênio Rego · Teresina, PI 27/10/2006 09:57
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layane_holanda
 

Eu tava há um tempão sem andar por aqui. Eugênio nunca mais te vi. Essa coisa da moda de fato é recente no piauí apesar da indústria textil mandar ver. E apesar do papo todo sobre mercado...acho mesmo que a dilatação ou abertura das pessoas para as pesquisas, experimentação e projeto autoral, ou mesmo o cruzamento de artesanato, desing, arte e moda vai demorar pra caraba por aqui. Assim como vai demorar aos proprietários dos carros novissímos entender que é possível colocar algo que não seja calcinha preta no som do automóvel ...

layane_holanda · Teresina, PI 19/11/2006 23:06
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