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Pé na estrada, de carona

Leonardo Foletto
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Leonardo Foletto · Santa Maria, RS
25/9/2006 · 87 · 13
 

Véspera de fim de semana, depois de arrumar a mochila rapidamente, um estudante sai do apartamento alugado e chega a um dos trevos da saída de Santa Maria. A intenção é conseguir uma carona para a cidade natal, mas a imagem que acaba de ver não agrada: há uma fila de pessoas esperando, cada uma com plaquinhas mais limpas e organizadas dos que os outros. “O que fazer?”, pensa. A solução que lhe vêm é a de ir de ônibus, logo descartada com uma olhada na carteira, quase vazia. Decide esperar ali mesmo. Acha que conseguirá uma carona, normalmente consegue. Mas não tem certeza, pelo menos não o suficiente para dizer ao companheiro do seu lado, que também está esperando, que “em duas horas eu saio daqui”. Começa a questionar quais as outras opções que têm caso não consiga, mas desiste quando vê que não são muitas. Quer chegar cedo em casa, hoje tem festa na casa de um vizinho. Pensando na festa é que lhe surge uma comparação, que de início até parece esdrúxula, mas depois consegue trazer um pouco de tranqüilidade: “Ficar aqui, esperando uma carona, é quase o mesmo que ir solteiro para algum lugar à noite que se sabe que outros inúmeros solteiros irão estar; pode ser que aconteça de eu ter de ficar sozinho o resto da noite, mas não é o mais provável de acontecer”.

Glamourizada por uma geração de admiradores dos escritores “beatniks” americanos, hoje a carona na região de Santa Maria, no centro do RS, é primeiramente uma forma de economizar dinheiro: estudantes, caixeiros viajantes e prostitutas vão para as estradas nas saídas da cidade porque não tem outra opção mais barata. Entre ficar esperando um tempo - que tanto pode ser de 3h ou de 5 minutos - e pagar um valor de até R$50,00 de passagem de ônibus, a primeira alternativa é bem mais em conta. E a maioria das pessoas, ao contrário do que se imagina, consegue ir para casa de carona. Alvacir Rosa, 59 anos, é um exemplo. Numa tarde de quinta feira, passados alguns minutos das 14h, sol forte e temperatura beirando 30ºC, ele está no trevo do Castelinho, que liga Santa Maria ao norte do RS, com uma pequena bolsa e uma placa escrita “Ijuí”, cidade onde mora, há 160 km para o norte. Perguntado sobre há quanto tempo pede carona no trevo, responde até com certo orgulho: “Venho uma vez por mês pra Santa Maria a seis anos, sempre de carona. Só voltei de ônibus uma vez, e ainda porque eu tinha compromisso urgente lá em Ijuí”.
A pressa é uma palavra que não pode constar no vocabulário dos caroneiros. Quem diz é Guilherme Goergen, 20 anos, estudante de Matemática da UFSM, que vai para Três de Maio, mas também aceita ir para a mesma Ijuí (que fica a 84 km de Três de Maio) de Alvacir, que está logo à frente do estudante na fila que se forma no local. Embora ninguém ponha regras, todos respeitam a ordem de chegada, uma das primeiras normas de um ainda não escrito Código dos Caroneiros. Tranqüilo na hora de falar, o estudante pretende estar em casa no fim de semana. Mas ainda é quinta-feira, e ele não está muito preocupado: “Vim aqui hoje de tarde, se conseguir carona até umas 16h, beleza, porque tá bastante cheio. Se não, venho amanhã cedinho, é mais garantido”.
Normalmente, entre 17h e 18h, o trevo esvazia. Quem precisa ir para alguma cidade não muito distante de Santa Maria até fica mais tempo, mas o resto do pessoal desiste, porque a escuridão dificulta os dois lados: ninguém costuma parar em um trevo à noite, assim como ninguém costuma esperar num trevo à noite.
No final da fila, escorada nas proteções da pista que vem antes da ponte sobre os trilhos, está a única mulher pedindo carona. Tati, 22 anos, cara de poucos amigos, reclama: “Hoje tem muita gente, mal sobra espaço pra ficar na pista. E se eu atacar algum carro vai vir todo mundo em cima”. Ela diz que, normalmente, fica pouco tempo esperando uma carona para sua cidade natal, Júlio de Castilhos, a cerca de 50 km de Santa Maria. Não se sente constrangida e também não teme os perigos que, por ser mulher, está mais propícia a enfrentar: “O pessoal cuida. Os caminhoneiros, que são os que mais param, são educados e gentis, nunca faltaram com o respeito comigo”.
Uma hora depois, 15h06, nenhum carro parou. A fila diminuiu, mas porque um dos caroneiros não teve paciência e foi embora.

No outro dia, uma sexta-feira também de sol forte, o trevo, no mesmo horário do dia anterior, está vazio. O que para uma sexta-feira, tradicionalmente o dia mais disputado para pegar carona, é surpreendente. Para “testar” a reportagem, decido ficar no trevo à espera de uma carona para um lugar próximo, Júlio de Castilhos, 50 Km de Santa Maria. Espero um fotógrafo convidado chegar, o que não demora 3 minutos, tiro uma folha de papel escrita “Júlio” da mochila e inicio a gesticulação simpática com a mão direita. Passam alguns carros, que não param, mas os motoristas ao menos fazem um sinal com as mãos de que vão só dar uma volta pela região – traduzindo, não vão até o meu destino.
Surpreendentes 7 minutos depois, uma Hilux preta pára. Corremos até ela, assim como um outro estudante que acabou de chegar e também quer um lugar. Converso com o motorista:
_Opa, tudo jóia? O senhor vai para Júlio?
_ Sim, lugar para dois.
Embarcamos, eu e o fotógrafo.
Caminhonete grande, janelas fechadas e ar condicionado ligado. Uma daquelas caronas de primeira linha. Depois de uma breve e curta apresentação – porque uma relação tão efêmera não se presta a maiores detalhes -, o motorista já fica conhecido por nós como Seu Hélio, engenheiro civil, pai de duas filhas, que vai a Júlio de Castilhos a trabalho uma vez por mês, e que não costuma parar para oferecer carona muitas vezes: “Olho bem para o rosto das pessoas. Para aquelas prostitutas que estão sempre nos trevos, não dou mesmo. Mas vocês tinham isso aí ó – aponta para a folha de papel que serviu de plaquinha – e isso conta muito” diz ele.

Então, começa a verdadeira conversa. Um dos principais motivos pelo qual as pessoas param e deixam entrar desconhecidos nos seus veículos é a necessidade de uma companhia para conversar. Às vezes, e normalmente isso acontece com caminhoneiros, o caroneiro nem precisa falar: só escuta e balança a cabeça, concordando, deixando que o outro desabafe. Discordar do motorista jamais, pois se corre o risco de ficar na estrada, mesmo que isso seja pouco comum.
Seu Hélio fala bastante, mas não demonstra articular as palavras de maneira adequada. Parece dizer algo para si mesmo, e mesmo colocando o ouvido bem próximo a ele, só compreendemos parte do que é dito. Ainda assim, faço que entendo tudo e puxo conversa, soltando frases incompletas que servem de isca para ele falar, falar e falar.
Nem bem uma hora depois, estamos próximos do nosso destino final. Quase ao lado da praça, no centro de Júlio de Castilhos, ele estaciona a caminhonete. Saímos, agradecemos bastante – praxe de quem costuma pegar carona, agradecer – e caminhamos pela cidade, pensando já na volta.
Quando estamos em direção à saída da cidade, um barulho de apito de trem, ainda distante, surge devagar como a sombra de uma nuvem de temporal. O fotógrafo vem com uma idéia: “Ei, vamos voltar de carona no trem!
E sai correndo para alcançá-lo. Eu espero um pouco e corro atrás, deixando a volta apenas para observar a paisagem, do alto de um vagão de trem.

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Viktor Chagas

Muito bom! A volta merece outra matéria... :)

Viktor Chagas · Rio de Janeiro, RJ 22/9/2006 16:46
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Claudiocareca

Acho q se alguém pedisse carona com o um livro tipo Beat, sei lá, On the Road por exemplo eu pararia fácil. As estratégias dos caronas talvez dêem uma outra história, né?!

Claudiocareca · Cuiabá, MT 22/9/2006 18:44
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Leonardo Foletto

Ola, valeu pelas dicas. A volta com certeza mereceria outra reportagem, só que, quando eu escrevi, me recomendaram não fescrever muito sobre a volta porque se pensava que era uma coisa ilegal. Depois de uns tempos repetindo a carona para outros locais, a própria polícia me informou que eles nada podem fazer . O que, aliás, não importa muito mesmo, mas escrever sobre a volta é uma idéia excelente

Leonardo Foletto · Santa Maria, RS 23/9/2006 11:57
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Marcelo Träsel

com uma pequena bolsa e uma placa escrita “Ijuí”, cidade onde mora, há 160 km para o norte.

é "a 160km". não se usa verbo aqui, se usa preposição.

“Venho uma vez por mês pra Santa Maria a seis anos, sempre de carona. Só voltei de ônibus uma vez, e ainda porque eu tinha compromisso urgente lá em Ijuí”.

o contrário do problema anterior: "há seis anos".

também não teme os perigos que, por ser mulher,

"perigos a que".

Marcelo Träsel · Porto Alegre, RS 23/9/2006 17:56
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André Dib

Que bom, dicas de português no Overmundo. Leonardo, já andei muito de carona por aí, e é isso mesmo. É incrível, o motorista dá a carona, e sempre diz que não costuma fazer isso. Uma vez, tive que mostrar todos os documentos, comprovante de endereço, nome dos pais, etc, pra um japonês desconfiado. No final, ele era amigo do meu pai.

Mas minha melhor história foi quando, em Londrina (PR), um carro parou pra mim à noite, no maior breu. Entrei, nós dois desconfiados. Lá pelas tantas, descobrimos que somos parentes há muito separados. Ele tinha me visto a última vez quando eu tinha quatro anos... É mole?

André Dib · Olinda, PE 24/9/2006 23:21
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Moysés Lopes

Leonardo: morei em Santa Maria de 1983 à 1985 e por vezes peguei carona no trevo do Castelinho. Fiquei de alma cheia, lavada, ao ler teu texto. Muita sensibilidade tua perceberes este movimento da cultura local e registrá-lo aqui no Overmundo. Carona é algo que não se vê muito em grandes centros urbanos. Um abraço, e obrigado pelo texto.

Moysés Lopes · Porto Alegre, RS 25/9/2006 08:24
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Marcelo Träsel

opa! foi mal, leonardo.

sou recém chegado ao overmundo, mas colaboro há bastante tempo no kuro5hin, em que o sistema daqui foi baseado. no K5 os comentários feitos na fila de edição desaparecem quando a matéria é publicada.

Marcelo Träsel · Porto Alegre, RS 26/9/2006 22:11
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Hermano Vianna

no início do Overmundo os comentários da fila de edição desapareciam ao serem publicados - mas mudamos o programa pois as pessoas geralmente não fazem comentários propriamente de edição, vão logo discutindo o assunto do texto, seria chato ficar cortando essas conversas... fomos adaptando o projeto aos usos... e ainda estamos mudando muita coisa...

Hermano Vianna · Rio de Janeiro, RJ 16/10/2006 21:47
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Fernanda da Silva

Muito legal a matéria! Me fez lembrar dos tempos em que eu pegava carona quase todo dia. Paciência e sorte, é disso que um caroneiro precisa.

Fernanda da Silva · São Paulo, SP 1/11/2006 09:57
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diegodotta

Excelente Leonardo, parabéns pela aventura!

diegodotta · Florianópolis, SC 12/6/2007 13:53
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Filósofo

Pô cara, legal. Fiz muito disso, estive da Europa à Argentina, como viajante. Também relatei tudo num caderno, depois passei no livro "memórias da estrada". digite"Kruchinski" nas tags e entre na biblioteca virtual do filósofo surrealista resumista, o livro está lá dentro, além de outras coisas que escrevi como estudante. Parabéns pela tua iniciativa.

Filósofo · Portugal , WW 7/8/2007 14:34
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André Leite

Sempre busquei informações sobre carona e inclusive com amigos mas ninguém soube me dizer como funciona. Foi muito legal ler esta matéria, mas moro em São Paulo e nunca vi ninguém pedindo carona e nem sei com começar a fazer isto pois faço viagens ao interior de São Paulo mas viajo pouco por ser um universitário, como muitos, sem dinheiro !!!!!!Conhece algo sobre pessoal de São Paulo que viaje de carona ???
Vlw... abraço a todos !!!

André Leite · São Paulo, SP 10/8/2007 12:58
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Filósofo

Com o trânsito congestionado em Sampa, é mais fácil às vezes ir a pé. Posso te dar duas dicas. Primeira, na carona, deve fazer uma placa de mão, em vez do famoso dedão, e pedir próximo de algum lugar onde o carro, caminhão, etc, possa parar. Pedir carona nos faróis, quando os autos esperam também é uma dica interessante, negociar com o motorista de ônibus também vale. É isso, é aventura. Mochila com água e algum para comer é necessário. Espero ter ajudado, valeu, amigo!

Filósofo · Portugal , WW 13/8/2007 11:04
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