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Sobre a alma feminina e ser mulher

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Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP
13/10/2006 · 13 · 6
 

O que significa ser uma mulher hoje em dia? A resposta varia muito conforme a idade desta mulher, mas há uma característica que exigimos de todas – que sejam independentes. A resposta para a pergunta não parece ser muito difícil se não colocarmos tal palavra. A pergunta passa a ser: O que significa, hoje em dia, ser uma mulher – acima de tudo – independente?

Há alguns anos, talvez ainda na primeira metade do século passado, nós não tínhamos muitas opções. Ser mulher significava, na maioria dos casos, ser casada, cuidar de um lar e dos filhos, ter cuidado especial com o marido e, aos poucos, com os mais velhos da família. Depois da revolução da pílula, do voto feminino, e de mais alguns hippies e revoluções no caminho, uma mulher precisa ser mais do que isso. O que precisamos ser? O que significa ser independente?

Queimamos nossos sutiãs, escolhemos não ter filhos, saímos dos casamentos assim como entramos, rasgamos os vestidos de noiva, pegamos no batente, acordamos cedo para trabalharmos fora de casa, moramos sozinhas. Tudo isso é independência? Não precisamos nos casar virgens, não precisamos nos casar. Não precisamos tolerar maridos rabugentos, não precisamos de maridos. Não passamos mais a noite toda acordada por causa das crianças, não precisamos de crianças. Vamos votar todos os anos pares, apitamos jogos de futebol (temos times femininos de futebol, ainda que ninguém os leve a sério). Bebemos cerveja, batemos massa de cimento, falamos sobre sexo, viajamos para qualquer lugar do mundo sem nos preocupar com satisfações. Tudo isso é independência?

Volta-se à questão: o que significa ser mulher? Ser mulher significa tudo isso ou o contrário disso? O que somos e para quem?

A alma feminina é delicada. Todas as mulheres são delicadas – as que vestem rosa e as que vestem preto, as com rímel nos olhos e as sem, as que cruzam as pernas ao se sentarem e as que dão gargalhadas altas. A alma feminina é delicada porque torna tudo muito cuidadoso. As mulheres, queiram ou não, têm o poder do cuidado. Antes não tínhamos muitas opções, cuidávamos da casa e de tudo que estivesse dentro. Hoje temos a opções de cuidarmos de nós mesmas.

A alma feminina é leve. Onde quer que estejam, mulheres gostam de leveza. Não a leveza das coisas materiais, mas das situações que vivem. Estejam elas em uma casa escura, com objetos estranhos, o que as tornam felizes é a leveza do que vivem neste ambiente. Ser uma mulher feliz é estar leve, é viver leve, como uma folha que, lentamente, cai de uma árvore alta. Somos esta folha caindo.

A alma feminina é aberta, como um livro que se deixa ao lado para continuarmos lendo dali a poucos minutos. Cada uma tem sua maneira de ser, mas a espontaneidade faz parte desta abertura. Ser espontânea é manter nossa alma aberta. Estamos sempre abertas para sermos atenciosas com os outros, para falar sobre tudo o que soubermos, para rirmos da vida. Cada vez mais, estamos abertas para nós mesmas.

A alma feminina tem força. Enfrentamos as dores de maneira diferente da dos homens. É como se, por mais que doa, passássemos por cima daquilo que nos machuque. Nos deixamos calejar. Engolimos seco. Com toda nossa delicadeza, de leve, sentamos e choramos por aquilo que nos faz sofrer. Mas há algo que nos faz levantar, de maneira mais delicada ainda, e nos faz continuar.

Entretanto, nos dias atuais, muitas mulheres precisam negar todas essas características que nos tornam especiais – e que fazem com que os homens nos olhem com tanto carinho. Não percebem que a independência que declaram (os sutiãs, as pílulas, o não-casamento, etc.) é o que as fazem sentar sozinhas em algum lugar perdido, sem entenderem o que acontece. Choram, mas negam o motivo pelo qual choram. Tornam-se pesadas porque têm medo de serem delicadas e não serem mais respeitadas. Tornam-se fechadas e deixam de ser espontâneas para que as pessoas acreditem no que fala. E aí passam a ser fracas.

Não é o fato de não termos mais que nos casar, termos filhos, votarmos ou outras muitas coisas que nos tornam independentes. O que nos torna mulheres independentes é a maneira como podemos fazer nossas escolhas. Podemos nos casar, sim, podemos ter filhos, cuidar de outras pessoas, usar sutiã e não tomar pílulas. Ainda sim seremos mulheres independentes, porque o que nos diferencia é a maneira com que fazemos tudo isso. É isso: temos o poder da escolha e, ainda melhor, de fazermos tudo isso do modo mais feminino possível. Isso não é maravilhoso? Por que precisamos nos negar de maneira tão cruel? Se antes eram os maridos e os pais que nos maltratavam, hoje somos nós mesmas ao negarmos aquilo que nos é característico.

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apple
 

Sofia,

Vivemos em uma sociedade que sempre nos impõe atitudes.

Agora temos mais opções de escolha do que outrora, mas a existência de um modelo de mulher permanece.

Não somos pessoas a parte da sociedade, pessoas que não sofrem sua influência.

Tudo depende da coragem da mulher em buscar sua auto-realização independentemente de qualquer situação. Todavia, não é fácil ir contra a sociedade porque somos emocionalmente ligados a ela.

Você despreza os valores, desejos de seus pais, por exemplo?

apple · Juiz de Fora, MG 11/10/2006 06:24
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Olha Sonia,
A minha intenção é ajudá-la a editar este texto. Bem sei, no entanto, que, muitas vezes , a intenção não é o bastante. Se for este o caso, por favor esqueça este comentário.
Uso esta cautela porque pretendo problematizar a pessoa que fala, isto é, você, no texto.
A pergunta é a seguinte: o que leva uma mulher a pontificar para outras mulheres (pois este é ostensivamente o público-alvo do seu discurso) sobre os atributos "alma feminina", sobre a melhor "conduta" diante da própria independência. Por que Sonia, o seu discurso não é de mulher para mulher, isto é, você fala de um local onde ninguém pode cobrar a tua experiência de vida. Para o seu texto, da forma que está escrito, se justificar teria de ter uma observação no final: Doutora em Psicologia pela universidade qualquer coisa. Só isto, esta coisa de se dizer "autoridade" no assunto (a lá Marta Suplicy). Como parece não ser este o caso, eu recomendo que você, enquanto autora, se coloque no texto, mostrando que o que você escreveu não é um punhado de chavões catados nas revistas femininas (Nova e outras) e despejados em cima das suas leitoras. Aliás, isto também de falar explícitamente para as mulheres "queimamos sutiãs..." talvez haja um meio de fazer um texto menos restritivo (lendo seu texto me senti um estranho no ninho). Para mim o essencial, no entanto, é que você demonstre que as conclusões a que chegou tem a ver com a sua própria experiência (não necessariamente experiência pessoal, se me entende), da sua vivência. E eu gostaria também de ver um pouco mais de dúvidas e menos certezas sobre esta coisa tão rica que é a alma humana seja de que sexo for.
beijos e abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 11/10/2006 06:58
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Joca Oeiras, o anjo andarilho
 

Por favor, Sofia, me perdoe. Não tive a menor intenção deerrar o seu nome!
Coisa de velho, sei como isto é chato!
+ beijos e + abraços
do Joca Oeiras, o anjo andarilho

Joca Oeiras, o anjo andarilho · Oeiras, PI 11/10/2006 07:02
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Sofia Amorim
 

Queridos Cris e Joca:
Muitíssimo obrigada pelas dicas. Eu realmente não quis me colocar fora desse grupo. Ao contrário, acredito que este texto é bem pessoal, me perdoem se não consegui transmitir esse sentimento. Vou pensar melhor em como torná-lo mais pessoal. Na verdade, é uma indignação à cobrança da sociedade em sermos menos feminina, eu acho. Gosto muito da feminilidade e acho que ela faz parte da gente, mas me sinto pressionada em não ser feminina, ou sê-la de maneira artificial...
De qualquer modo, tenho que pensar em como escrever isso sem ser tão polêmica, não é mesmo? Afinal de contas, eu não sou doutora em psicologia, nem nada. Sou uma simples professora de Língua Portuguesa, estudante da Educação. Apenas uma mulher refletindo sobre sua própria conduta.
Beijos carinhosos,
Sofia

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 11/10/2006 13:03
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
Sofia Amorim
 

Ah, Joca, não tem problema errar meu nome não!

Sofia Amorim · Ribeirão Preto, SP 11/10/2006 13:04
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JuNiN
 

PARABÉNS sofia :
nossa adorei o seu texto entedi perfeitamente , creio eu que vc estava fazendo uma auto-escrita sobre uma mulher , sua auto-escrita ( como eu vou dizer ) esta bastante perfeita , lendo seu texto cheguei em algumas conclusões sobre a mulher :
percebi que a mulher não é aquela que todos ve ( olha só esse homem ele esta chorando ahh ele não é homem ele é uma mulher pq só mulher que chora ) . hj eu acabei de descubrir que a mulher não é aquela mulher sensivel que todos dizem , mais sim uma mulher tranquila , que se esta doendo ela chora , se ela esta sofrendo ele se expressa ( gritando de qualquer forma possivel ) , a mulher está pouco se lixando com os outros , ela se expressa , ela sabe viver a vida , ela sabe continuar (mesmo que ela perda alguem marido ,filho e etc.. ) , hj eu percebi que a mulher não é ( delicada , sensivel ) ela é EXPRESSIVA , ela fala ( ah isso eu não gosto , a não esse presente é muito feio , ai que blusa linda ) ela não esta nem ai , para o que os outros dizem ( no caso os homens ) , mais a mulher é assim , por causa do seu oposto ( o homem ) , o homem , vixi muito diferente da mulher , o homem tem medo , de todos ( medo do que dizem ) medo de usar uma blusa apertada , medo achar um ursinho de bonito , em neste caso o homem é inseguro , bom é isso adorei seu texto unica coisa que acho que esta um pouquinho errado , é que a mulher é sensivel , acho que a mulher é EXPRESSIVA ,

sofia adorei seu texto amei mesmo , adoararia que vc fizesse um texto comparativo , comparando o home da mulher , acho que seria um bom tema para podermos levar além ,

abraços

JuNiN · Ribeirão Preto, SP 11/10/2006 20:43
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