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Teosofia na rede: entre o novo e o tradicional

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Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG
1/6/2007 · 122 · 6
 

Hibridismo é uma palavra-chave para entender o trabalho da Sociedade de Estudos Teosóficos – Sete. Espiritual e material, virtual e real, controle de propriedade intelectual e liberdade da mesma, ações centralizadas e atuação em rede. O olhar os dois lados parece ser uma característica importante para as atividades desse modelo de negócio.

Se teosofia parece algo muito distante do mundo da cultura, vale dizer que teosofia é, segundo a Wikipedia, “o corpo doutrinário que sintetiza Filosofia, Religião e Ciência, e que tem como precedente histórico a corrente filosófica do Neoplatonismo dos séculos II e III”. A palavra teosofia vem do grego (theosophia, de theos, Deus, e sophos, sabedoria). Estudos teosóficos nada mais são do que a observação de culturas em torno da filosofia, da religião e da ciência.

O grupo é coordenado pelo professor Jorge Luiz Guimarães que, do Rio de Janeiro, atua virtualmente no país inteiro. Fundada em 1998, o Sete funciona como uma escola de estudos teosóficos e de potencialismo, que busca auxiliar os seus alunos/seguidores a aplicar os ensinamentos estudados e aprendidos no dia-a-dia. Pela necessidade de conquistar mais adeptos, o Sete tem como foco atualmente a busca pela criação de mecanismos que ajudem a espalhar as palavras da teosofia. Tendo a Internet como a sua principal plataforma de divulgação, o grupo vem se expandindo nos últimos nove anos. Jorge trouxe da sua experiência anterior como analista de sistemas o contato com as ferramentas da informática para comunicação e captação de clientes.

O trabalho do grupo se destaca pela quantidade de material didático que é produzido e pela forma como é produzido e organizado. Embora o núcleo de produção de material para leitura tenha surgido na liderança do professor Jorge e da sua mulher Reisla D’Almeida, que juntamente com ele está à frente das atividades, é na abertura à participação dos clientes/alunos que reside a esperança de que a instituição cresça. O envolvimento dos alunos no processo de produção de textos e palestras teosóficas é um dos caminhos para isso.

Assim ocorre o processo: os participantes do Sete se dividem em dois: membros (alunos presenciais) e buscadores (alunos virtuais). Os alunos são estimulados a produzir material sobre os ensinamentos teosóficos que, juntamente com os textos produzidos pelos criadores do grupo, são disponibilizados no site da instituição. Para facilitar a difusão dos ideais teosóficos, todos os textos são disponibilizados sob a licença Creative Commons. O tipo de licença utilizada é a de livre distribuição com a obrigação de citação da fonte e sem a permissão de alteração de conteúdo. Os cursos elaborados e ministrados no Sete não estão registrados em Creative Commons, ainda permanecendo sob a legislação do direito autoral tradicional. A fonte de recursos da iniciativa, portanto, não está atrelada ao conteúdo produzido pela instituição, mas aos serviços, ou seja, os cursos oferecidos, presenciais ou virtuais. Se por um lado é adotado um arranjo conscientemente livre em relação aos termos de propriedade intelectual de alguns produtos, por outro há a manutenção de formas rígidas, aplicada nos produtos finais e geradores de renda. Mas estes parecem ser em parte sustentados e estimulados pelos primeiros, constituindo assim uma cadeia híbrida de modelos de negócios, entre o aberto e o fechado, entre o centralizado e o descentralizado: o Yin e o Yang.

“Utilizamos a licença Creative Commons por ser um recurso moderno, simples e sem burocracia para nós e para quem acessa nosso material. Pois não podemos de forma nenhuma ‘assustar’ os visitantes de nosso Portal”, afirma Guimarães.

Embora as atividades do grupo teosófico pudessem existir num cenário exterior à internet, é nesse meio que elas encontram a sua maior capacidade de propagação e de atuação ampla. Esse é o maior diferencial desse grupo teosófico e, de acordo com Jorge, que torna a sua atuação única em relação aos concorrentes.

“Ela [a Internet] é crucial, pois com ela saltamos de uma pequena instituição de atuação local, para uma instituição de atuação nacional, com funcionamento 24x7. Somos pesquisadores e mesmo sem contar com amplos recursos financeiros, buscamos e encontramos até então tecnologias alternativas baratas ou gratuitas”, explica Guimarães.

A atividade que hoje se auto-sustenta e gera um pequeno lucro, é planejada para se tornar a principal referência em estudos teosóficos na web. E para que isso aconteça, é preciso potencializar e otimizar o uso de ferramentas do próprio meio. Há uma convergência (outra palavra-chave para entender o trabalho do Sete) de esforços para que a internet se fortaleça como a principal forma de atuação do grupo.

A sustentabilidade da atividade é garantida pela oferta de cursos e palestras. No centro esotérico também são ministrados rituais e cerimoniais, além de serem realizados atendimentos gratuitos aos novos adeptos. Portanto, a partir de uma lógica de livre distribuição de conteúdo de cunho esotérico e religioso – com o objetivo de conquistar mais seguidores (membros ou buscadores) – o Sete tem como objetivo final a venda de serviços ligados a essa cultura. O indivíduo entra em contato com a teosofia por meio dos textos livremente divulgados e copiados na internet, a partir desse ponto, caso se interesse pelo tema, pode consumir os diversos serviços que a Sociedade de Estudos Teosóficos oferece: Curso, Workshops, Palestras e alguns atendimentos terapêuticos. Todas essas atividades são oferecidas em duas modalidades, a distância (Via Internet), ou presencial.

O público – de acordo com Jorge, “pessoas de classe média, com nível de escolaridade técnico ou universitário, professores, profissionais da área médica e profissionais liberais” – passa então a ser um divulgador da cultura teosófica e parceiros de negócio do Sete. Em oito anos de atividade, a escola já contou com 130 alunos presenciais e 70 virtuais. Foram realizadas mais de 80 palestras sobre a teosofia em diferentes regiões do país e mais de mil aulas ministradas.

Essa comunidade de seguidores/divulgadores/colaboradores do Sete se reúne em volta de uma lista de discussão que conta atualmente com 600 membros, duas comunidades no Orkut e do site www.sete.org.br. A interlocução entre as comunidades virtuais e reais parece ser vital para o desenvolvimento e continuidade das atividades da escola. Com muito conhecimento de território, o grupo sabe utilizar bem o marketing viral para espalhar e criar interesse em relação a teosofia.

Esses são os únicos meios de comunicação entre os participantes, já que esse grupo esotérico não mantém nenhuma presença ainda nos meios tradicionais. Mas criar um jornal próprio e ser mais presente em programas de rádio e TV são próximos passos do Sete. É um histórico que pode ser considerado atípico, tendo em vista que o modelo de negócio já foi criado e tem se estabelecido completamente tendo a nova mídia como suporte, sem mesmo passar pelos canais tradicionais de comunicação.

Nesse contexto, Jorge profetiza sobre os modelos de negócio no futuro: “A principal fonte de renda no futuro de empreendimentos de serviços para as massas, não virá das pessoas comuns, mas das grandes corporações. Algo tipo a TV aberta, que é gratuita. Basta você ligá-la e tem acesso a uma gama de publicações; o custo e o lucro dos canais de TV vêm da propaganda, dos serviços vendidos às grandes corporações. Esse é o modelo de negócio do futuro.”

Uma das lições que podem ser reconhecidas na experiência do Sete é a da eficiência no manejo de ferramentas gratuitas encontradas na internet. Os recursos on-line encontrados servem de sustentação para cumprir quase toda a necessidade de divulgação e de contato com os atuais e os futuros parceiros, clientes e membros colaboradores. Este cenário pode ser facilmente reproduzido em ambientes e áreas diferentes, desde que haja planos bem traçados e focos definidos.

A equação entre conteúdos abertos e fechados, filosofia e religião, estudo acadêmico e fé, é o que tem impulsionado o crescimento da iniciativa. A experiência do Sete vem mostrar que, como estratégia para atrair adesões a estudos teosóficos, a liberação de textos pode ser um passo fundamental para despertar o interesse das pessoas, provocando questões e rompendo barreiras e preconceitos. A opção por esse modelo de negócio é ainda mais relevante no contexto de uma atividade ainda pouco difundida como a do Sete.

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Helena Dutra
 

Esse grupo possui algum vínculo com a Sociedade Teosófica original, fundada em 1875? Em caso afirmativo, creio que termos como "modelo de negócios", "clientes", "grupos concorrentes", etc, são totalmente inapropriados. A Sociedade Teosofia não possui fins lucrativos.

Helena Dutra · Porto Alegre, RS 31/5/2007 09:34
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Luiz Geremias
 

misturar teosofia com negócios? uma coisa é uma coisa, outra coisa... vc sabe, sergio. A helena tem razão. A mentalidade corporativa - leia-se psicopática - tem se enfronhado em tudo! madame blavatsky, que também era helena, deve estar rogando pragas terríveis contra essa iniciativa.

Luiz Geremias · Curitiba, PR 31/5/2007 13:21
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Sergio Rosa
 

Entendo a indagação de vocês. Mas o meu objetivo com o texto não era discutir a questão ética e filosófica da visão da teosofia como um "negócio". Embora eu ache que se deve tomar cuidado para não enxergar qualquer negócio como anti-ético. Há diferenças.

O meu foco no relato que fiz, e acho que isso fica claro, é abordar a questão dos métodos de divulgação da atividade do grupo SETE.

Não estou defendendo a visão da teosofia como um negócio e nem endossando a acusação que vocês fazem. Eu simplesmente não entrei nesse mérito.

Sergio Rosa · Belo Horizonte, MG 31/5/2007 13:37
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Egeu Laus
 

Sei que não tem a ver, necessariamente, mas lembrei-me de uma frase que uso de vez em quando:
"Mais que um novo modelo de negócios,
precisamos de um novo modo de vida".

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 1/6/2007 09:42
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Helder Dutra
 

...sera que NÓS conseguiremos esse novo modo de vida Egeu?...

Helder Dutra · Rio de Janeiro, RJ 5/6/2007 21:51
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Luiz Geremias
 

Olá Helder,
Sei não, mas se pudermos conseguir isso, me parece que a primeira coisa a fazer é questionar de forma radical essa tal "cultura de negócios". Publiquei, aqui mesmo neste Overmundo, um texto chamado "Um apelo à inteligência" que trata rapidamente sobre esse tema. Mais consistentemente, tratei do tema na minha dissertação de mestrado, intitulada "O charme do crime midiatizado: desconstruindo uma 'guerra a Beira-Mar'", disponível na internet.
A mentalidade empresarial, da forma hegemônica como vem sendo introduzido no nosso cotidiano, é um péssimo modelo. Lucro acima de tudo. A psicopatia parece ser o apanágio dessa forma cultural. Trata-se de uma forma de não-pensamento, contida num ideário de total falta de compromissos sociais ou mesmo humanos. O engraçado é que os empresários há tempos vêm com esse papo ridículo de "compromissos sociais" das empresas. Papo furado. Empresa não tem compromisso social nenhum. Notadamente, é claro, as grandes, as bem encorpadas. O modelo empresarial que temos hoje é essencialmente corrupto. Mas a grande mídia e muitos formadores de opinião vêm com o discurso da corrupção dos políticos. E os corruptores? Deles ninguém fala?

Luiz Geremias · Curitiba, PR 6/6/2007 12:15
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