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UMA HISTÓRIA DE BICHOS

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Antonio Bahia · Salvador, BA
10/5/2007 · 24 · 4
 

UMA HISTÓRIA DE BICHOS

Antonio Luiz Ferreira Bahia

Esta é uma historia de bichos que bem poderia ser uma história de gente, e de gente que forma gente. Trabalhei muitos anos em escola particular e pude construir esta história com os elementos que somei ao longo do tempo.
É interessante observar como há uma divisão, embora velada, entre os professores de diferentes níveis em uma mesma escola, estratificando-os por graus de importância que variam de acordo com a série que lecionam, iniciando pelos “menos importantes” da Educação Infantil até chegar aos poderosos do 3º ano. Isso nos faz pensar que esta ordem é perfeitamente natural, já que cada grupo trabalha em um setor. O fato é que todos são professores e devem se entender como tal, embora a escola os separe em ambientes diferentes, intervalos diferentes e salários bastante diferentes, estabelecendo uma falsa hierarquia onde cada setor representa um degrau na escala salarial, dividindo a categoria na sua essência.
Devido a estes fatores as relações ficam divididas e o professor que trabalha com os menores em idade se sente menor em competência, uma vez que a remuneração vai aumentando de acordo com a evolução cognitiva do aluno até chegar ao 3º ano, cujo corpo docente é composto por um grupo de professores melhor remunerado e que por conta da remuneração não participa do movimento sindical, nem faz greve, reduzindo todas as reivindicações da categoria à mera questão salarial.
É incrível ver como a história nos prova isso e como as consciências revolucionárias que mobilizaram um grande grupo de professores para a luta política tiveram sua voz calada ao galgar ao 3º ano, criando a fantasia de que o topo a ser alcançado é receber o salário do professor da última série, ou seja, o fim de linha inclusive da politização, da consciência crítica do professor, é ocupar o tablado de uma sala de 3º ano. Agora temos professores que falam de consciência em sala de aula, mas, já não praticam o ato político junto à sua categoria.
Toda essa ilusão de ascensão nos faz voltar à história dos bichos, e podemos começar pela do macaco representando aquele professor que não tem consciência do seu papel de formador de cidadãos críticos e participativos na construção de uma sociedade mais justa. Sim, macacos, pois os macacos fazem tudo para agradar somente para não perder a banana diária, neste caso, o mísero salário do dito “professor sacerdote", que enxerga seus pequenos alunos como vítimas inocentes do sistema, que não devem ser sacrificados por questões que não lhes dizem respeito.
Este consenso não existe à toa. É o resultado de uma persuasão baseada na chantagem emocional cuidadosamente engendrada pelos sindicatos patronais e colocada em prática pelos donos dos estabelecimentos de ensino, que põem no professor a “culpa” diante da possibilidade dos pequenos ficarem sem aulas.
Felizmente, a ilusão de galgar a escada para o sucesso que leva às séries do andar de cima, impulsiona o professor, mesmo que de forma tímida, a se integrar àqueles que lutam junto aos sindicatos. Essa mudança os transforma de macacos em leões, lutando agora com toda garra para garantir o seu salário e não voltar mais para o “andar de baixo”.
Contudo, os donos desse imenso zoológico sabem que a selva está repleta de macacos e que os leões podem ser rapidamente substituídos, dando um poder maior ao patronato, poder que é reforçado pelos micos-leões, que ficam em cima do muro com o argumento de que têm cargo de confiança, como se os outros cargos fossem de desconfiança, regulando as relações no zoológico com suas dinâmicas de grupo e textos que reforçam a postura acrítica, embalando a escola no mar de neutralidade, navegando como se as ondas da consciência fossem uma calmaria total, e como se a escola estivesse acima das relações trabalhistas.
Quem não toma partido, já o fez sem saber, pois está do lado do poder. Em educação não tomar partido é negar-se como educador. Como se pode falar em formar o cidadão se a cidadania não é exercida na sua plenitude? Será que é possível formar para a cidadania sem formar pela cidadania? Ou será que os projetos com suas culminâncias mirabolantes, caracterizando a pedagogia da apoteose, conseguem formar seres críticos e participativos?
Como falar em participação e solidariedade se o discurso é negado no momento em que a consciência de classe é colocada à prova? São muitas perguntas que a história se incumbe de responder nas assembléias vazias e nas relações artificiais entre os diversos setores da escola.
Fala-se em educação integral enquanto a escola é fragmentada não só no seu conteúdo como também na corrida pelo salário e no tráfico de interesses entre pessoas que ocupam cargos de coordenadores e supervisores, que falam em educar, mas, muitas vezes, não se consideram professores, escondendo-se atrás do titulo de corpo técnico.
Há também os camaleões, aqueles criados sob a doutrina da função romântica do educador que coloca a vocação acima de tudo, assumindo um compromisso quase que familiar com os patrões por serem considerados sacerdotes do ensino, direcionando a pratica pedagógica apenas para o saber elaborado, outorgando à escola uma força capaz de, isoladamente, resolver os problemas sociais. Estes mimetizam instantaneamente em momentos de greve, buscando defender-se da predação e esconder-se nas mais variadas formas, incorporando-se ao ambiente que proteja a integridade do seu cargo.
Evidente que é grande o choque entre leões e camaleões, uma vez que aqueles se reconhecem como profissionais da educação e assumem o papel de trabalhadores com a plena consciência de que estão vendendo a sua força de trabalho e que precisam lutar por melhores condições não só no seu local de atuação como também em outros espaços, pois sabem que não pertencem ao estabelecimento que temporariamente os contrata, bem como que a melhoria da sua qualidade de vida irá influenciar diretamente na melhoria da qualidade do ensino. Estes, por sua vez, assumem um corpo amorfo, ora camurflado em corpo técnico, ora em companheiro de classe, buscando garantir a sua sobrevivência, em eterna crise de identidade.
Todo esse zoológico tende a evoluir para o bicho da goiaba, que penetra de maneira lenta e gradual e vai crescendo na medida em que amplia o seu espaço e forma consciências dentro e fora de sala de aula, contando a história com o seu próprio sacrifício, entrando na luta contra o inseticida patronal, que acaba com ele, mas não consegue derrubar suas idéias que agora já contaminam macacos, leões, micos-leões e até camaleões que, no dia-a-dia da educação política vão se transformando em bichos da goiaba e, cada um a seu modo, começam a atuar na perspectiva da transformação das relações de trabalho.
Nos últimos anos tenho visto o passeio incessante desses bichos pelos corredores da escola, e com muita alegria posso afirmar que existe um imenso ninho de bichos da goiaba espalhado pelas escolas de educação infantil e ensino fundamental, com um apetite que aumenta a cada dia e, através da tomada de consciência política, começa a transformar as relações nessa floresta de contradições que é a nossa categoria.
Esta é uma história de gente que sabe que “bicho vai dar amanhã” e está apostando nesta transformação.

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maramarina
 

Olá,

Gostei mui do texto, até pq, uma de minhas grandes vontades é ser educadora (principalmente de crianças) e, no dia em que conseguir isso, espero não ser dentro deste zoológico que vc cita.

Quanto a edição, encontrei alguns erros de digitação. Eis:


"escondendo-se atrás do titulo de corpo técnico. "

sacerdotes do ensino, direcionando a pratica pedagógica "

"Estes, por sua vez, assumem um corpo amorfo, ora camurflado em corpo técnico, "

É isso.

Abraço

maramarina · Aracaju, SE 9/5/2007 10:20
1 pessoa achou útil · sua opinião: subir
maramarina
 

Ah, e acho que poderia dar mais um espaço entre os parágrafos para ficra mais confortável de ler seu texto.

Só mais iss.

abs

maramarina · Aracaju, SE 9/5/2007 10:20
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Egeu Laus
 

Antonio,
Sugiro retirar o título e o teu nome do corpo do texto pois eles já vão aparecer nas primeiras linhas da matéria depois de postada.
E concordo com Mara: linha em branco em cada parágrafo torna mais "arejada" a matéria.
Abraço!

Egeu Laus · Rio de Janeiro, RJ 9/5/2007 11:52
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jair
 

Otimo texto. Espero que esses bichinhos nos ajudem a transformar este país em um lugar mais justo e humano.

jair · Manaus, AM 11/5/2007 16:43
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