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Você sabe escrever? Ou... É assim que se escreve?

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Reticências... · Salvador, BA
15/11/2007 · 42 · 5
 

Aqui estou eu escrevendo um texto público... em um site... Mas eu não sei escrever! Não! Não. Não? Não...

Mas quem disse que para escrever tem que saber? O que é saber escrever? Você, leitor-leitora, "sabe" escrever?

Como aprendemos? Escrevendo... Não me venha dizer que é lendo que se aprende a escrever que não é bem assim. A leitura é coadjuvante na escrita e não determinante como se pensa. Você aprendeu a escrever lendo? Aprendeu a ler escrevendo? O jogo dialético das palavras é proposital... Pensemos!

Nos primórdios de minha aprendizagem lembro-me que o maior prazer na escrita era fazer bilhetinhos de amor... EU TE AMO! Muito fácil de falar e de escrever na infância... Minha mãe, meu pai, minha pró! Quantos EU TE AMO com florzinhas e corações eu escrevia e como tinha prazer em escrever. Era gostoso, pedia preparo: idéia, planejamento, estética, zelo e por fim o desenho das letras no papel colorido. Além disto, após escrever eu recebia sempre um sorriso, um afago, um cheiro, um beijinho carinhoso.

Em outra etapa a escrita passou a ser um paradoxo. Na escola tinha que escrever: "Faça uma redação sobre seu fim de semana" (Imagine se eu não imaginasse?), e em casa ganhara meu primeiro diário. Escrever sobre mim para mim era muito prazeroso. Em dois momentos distintos me deparava com a escrita: na escola, "um saco", escrever sem critério para a professora botar na gaveta, muitas vezes sem ler. Já em casa escrever sobre meus sentimentos, medos, descobertas, paixonites, segredos, amizades... Delícia!

Até então não tinha opinião formada sobre a escrita... Fazia o que me pediam, ou escrevia por necessidade de expressão. Escrevia as redações sobre o que, sobre como, sobre onde ou no diário que migrou para um caderninho de poesias... depois para frases reflexivas... e desenhos, que também eram minha escrita do mundo no mundo!

Na faculdade me exigiam muita escrita. Ler e escrever, escrever e ler... ler, ler, ler... escrever... escrever...escrever... Era para narrar, teorizar, argumentar, articular, criticar... era para aprender a escrever! Do outro lado minha escrita íntima limitava-se aos cartões de natal para os amigos e as cartinhas de amor para a paixão do momento.

Uma nova fase... a escrita acadêmica exigia estudo e capacidade de interpretação... vinha acompanhada da crítica dos professores e dos colegas! Concordar e discordar tornou-se muito prazeroso... os cartões de natal tornaram-se obrigatórios e as obsoletas cartas de amor... bem, isso é uma outra história.

Na pós-graduação comecei a escrever a monografia e ao apresentar o primeiro rascunho para a orientadora, ouvi em alto e bom som:

- VOCÊ NÂO SABE ESCREVER! ESTÁ RUIM ISSO AQUI... VAMOS TER QUE MELHORAR MUITO.

Nunca ouvi uma ofensa mais cruel, até chorei... levei para várias pessoas amigas lerem, não me conformava. Foi então que resolvi mudar de orientadora por conta própria e sem avisar à anterior, pois se não desse certo, ia ter que escrever conforme ao que o “cacique” mandasse.

Essa minha ousadia foi muito ousada. Liguei para uma professora que dava aula em outra turma e joguei um "H" que tinha ficado sem orientador e que eu sabia que a turma B era mais vazia e blá, blá, se ela poderia me orientar... Ela aceitou e marcou comigo na Universidade para ler meus escritos iniciais. Quando entrei na sala lá estava minha ex-orientadora (sem ela saber que era ex) no computador trabalhando e a atual na mesa:

- Com licença, boa tarde! Professora xxxxxx eu sou Reticências que lhe falou no telefone sobre a monografia.

Dirigindo-me a minha ex-orientadora, muito sem graça, disse:

- Oi professora yyyyyyyyyyy como vai?

Lá sentei e a orientadora atual teceu mil e um elogios ao tema, a escrita, aos capítulos, ao modo como procurava tratar o tema etc. e tal.

A ex-orientadora não agüentou ouvir aquilo e soltou de lá:

- Reticências você mudou aquilo que te sugeri?

Eu não havia mudado uma letra sequer, mas, me sentindo justiçada, disse:

-Mudei tudo professora.

Não ia adiantar comprar briga e, além disso, o que eu queria já estava dito. Eu sabia escrever SIM!

Fui criando minhas próprias estratégias de escrita e cada vez meus textos estavam mais fundamentados, fundos... fundos... fundos... e os elogios cada vez mais freqüentes...

O que eu não havia me dado conta é que estavam tão fundos que amassaram minha iniciativa de escrita inicial. Eu havia deixado de escrever livremente... sem objetivo específico, sem investigação acadêmica, sem ser para cumprir uma tarefa.

Só agora neste momento é que me questiono. Para que eu escrevo? Que prazer sinto na escrita? A narrativa literária afastou-se de mim, ou eu que me afastei dela?

O que é mais engraçado é que na escola (inclua-se aí a Universidade), onde eu teria que aprender a escrever, foi onde cada vez mais me afastei da escrita. De início, por não sentir prazer e não ver sentido na escrita escolar e depois pelo fechamento das possibilidades de escrita o que tornou meu texto cada vez mais acadêmico e restrito. Afinal o que é saber escrever?

Aqui estou eu escrevendo um texto público... em um site... Mas eu não sei escrever! Não?????? Não...

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Reticências...
 

Ufa!

Reticências... · Salvador, BA 13/11/2007 19:19
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Marcos Paulo Carlito
 

Olha, sua colaboração está magnífica. O conteúdo faz refletir profundamente sobre o que é escrever e, inclusive, sobre o que é escrever no Overmundo...

Por favor venha até aqui para participar de um debate autêntico entre alguns Overmanos: http://www.overmundo.com.br/overblog/que-o-overmundo-nunca-vire-orkut-amem

Grande abraço!

Marcos Paulo Carlito · , MS 16/11/2007 21:52
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TaYgUa's
 

Artigo aprovado!

Dá uma ollhadinha?
A Evolução da Ditadura no Brasil,

Abraços!
http://www.overmundo.com.br/overblog/editorial-a-evolucao-da-ditadura-no-brasil

TaYgUa's · Fortaleza, CE 18/11/2007 13:12
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Mah Caldeira
 

Não sei porque não consegui votar, mas adorei o seu texto! =)

Mah Caldeira · Belo Horizonte, MG 19/11/2007 22:50
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Francolino
 

Hahahahahaha!!! Aí Reticências...bom texto! Suave. Sabe escrever, sim. Fosse você, quando a professora yyyyyyy perguntou: "Você mudou aquilo que te sugeri?". Responderia: "Não mudei uma vírgula sequer". Ao contrário da maioria das pessoas que conheço, adoro um confronto, pois é nele que reside a liberdade de expressão e a auto-afirmação. O fato de ser professor, mestre ou doutor, não significa sensibilidade para determinados assuntos. Além do mais, aí entra a questão da subjetividade humana. Eu poderia, simplesmente, escrever um artigo ótimo, que abordasse um tema que não fosse dos preferidos pelo orientador. Sendo assim, seria reprovado! Ainda estou longe de chegar ao mestrado, se é que pretendo fazê-lo, mas receio encontrar esse tipo de barreira. Segundo relatos, de amigos, estes, ao começarem uma linha de pesquisa, perceberam que, ao final do trabalho pronto, tinham perdido totalmente a essência inicial. Qual será o objetivo da escrita? Agradar ao leitor / professor / orientador / redator ou ao escritor? Para mim, o texto tem que existir. Leia-o quem quiser. Mas o objetivo primordial é, sem dúvidas, causar reboliço.

Um abraço...

Francolino · Salvador, BA 22/11/2007 11:01
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