Dizem que ela “não tem memória, se muito uma vaga lembrançaâ€, porquanto esquece, com razoável frequencia, dos fatos mais imediatos. Não fixa os detalhes fÃsicos das pessoas, bem como as nuances do ambiente que a cerca; e, conforme ela própria confessa, olhar para cima e tentar lembrar-se da roupa em que está vestida, pode redundar em tormentosa angústia. A verdade é que se abstrai do mundo circundante com extrema facilidade, daà por que muitas de suas ações, realizadas no “piloto automáticoâ€, deságuam em formidáveis asneiras. Não à -toa obtivera, desde pequena, a insÃgnia de “voadoraâ€.
Conta-se que, certa feita, estava num expediente de trabalho turbulento, quando recebera uma chamada em seu celular de alguém que precisava falar com uma funcionária de outro setor. Anunciou-lhe, educadamente, que passaria a ligação do seu celular para o ramal respectivo, conquanto houvesse protesto daquele que estava do outro lado da linha: “mulher, acorda! Eu estou ligando para o seu celular, ele não há de possuir qualquer vÃnculo com um ramalâ€. Espera, rapaz, eu consigo! – respondera com certa aspereza. Frustração para ela e motivo para muita algazarra dos que se encontravam no recinto: foi, então, flagrada com o telefone convencional numa mão e o celular outra, restringindo-se a dizer: “eita, pooosso não!!!!â€
Noutra situação, tomara de seu veÃculo e foi à academia na primeira hora após o raiar do sol, quase sem deixar o lençol cair. Primeira aluna a chegar, como de costume; devido ao estado de sonolência e receosa pela onda de violência urbana que assola a cidade, conjecturou ser um eventual ladrão aquele que era o jardineiro da academia - ele jamais havia sido visto no local. Na pressa de deixar a rua, esqueceu de acionar o freio de mão: lá ia seu celtinha, já negociado numa concessionária, rampa abaixo; quando ele já estava fazendo a curva, num despertar forçado, conseguiu deter-lhe a marcha antes de uma colisão com um automóvel que dobrasse a esquina da rua principal. Todavia, não se sabe o como da façanha, seu pé, calçado num tênis, ficou preso embaixo da roda traseira. A quem pediu socorro? A ele, ao talvez meliante, que, solidariamente, requereu auxÃlio do vendedor de mungunzá a trafegar numa bicicleta. As funcionárias da academia foram à porta tentar entender a confusão. Transposto o susto, ninguém, nem mesmo a aparvalhada vÃtima, conseguiu moderar os risos.
Há uma vastidão de histórias de semelhante quilate a seu respeito. Ela, preocupação à parte, considerando ter conhecimento de que dois membros de sua famÃlia estão com Alzheimer, lida com suas sandices à base de peculiar bom-humor – fazer o quê?! Todavia, o ponto culminante de seus absurdos ocorreu num meio-dia de quarta-feira de cinza. De cara limpa, para que não se pense que podia estar sob o efeito de alguma substância de caráter alucinógeno, chegou, na companhia do esposo, à casa de uns amigos dos filhos, onde estes haviam passado o carnaval. No intento de cumprimentar o pai dos meninos, apertara sua mão, mas os dois beijinhos costumeiros foram desferidos no marido, que estava contÃguo. Todos, então, se entreolharam estupefatos até que, sem encontrarem explicação plausÃvel, desabaram numa fartura de gargalhadas. Ela, sequer teve fôlego para cumprimentar os demais familiares, também, anfitriões. Uma coisa é fato: induvidosamente, é apaixonada pelo marido!
Anos decorreram e essa história vem ganhando cada vez mais ouvidos. Algumas pessoas têm o fato por inverossÃmil, outras, a par da realidade de sua protagonista, apenas, contabilizam-na como mais uma atrapalhada da “menina do mundo da luaâ€.
Será esse curto-circuito nos neurônios imanente aos poetas? Se sim, quem sabe ela não teria essa vocação enrustida? É o mais auspicioso dos prognósticos.
Simone Moura e Mendes
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