Quando eu quero comprar uma roupa, o vendedor de roupas entende de tudo. Quando eu quero comprar um carro, o vendedor de carros também entende de tudo. Mas quando eu quero comprar um livro, o vendedor de livros nunca entende do produto que ele tem que vender.
Entrei numa livraria para pesquisar uns preços. Perguntei por A náusea, de Sartre. O rapaz consultou o sistema - coisa que eles adoram fazer - e encontrou uma cópia em uma prateleira lá no canto. Me disse o preço, eu li a contracapa e as orelhas. Ele perguntou se eu estudava Letras, eu respondi Jornalismo. Me indaguei o por quê da pergunta, se talvez estudantes de Letras têm desconto ou se são os únicos a lerem Sartre. Mas resolvi não esticar a conversa e segui para uma segunda livraria.
Lá, perguntei para outro rapaz pelo mesmo livro. Ele também foi consultar o sistema:
- Tem H?
Eu franzi a testa:
- Como assim?
Estiquei os olhos para ler o que ele estava digitando no computador que não "A náusea" e "Sartre". Estava escrito "Anáusea".
- Não, é "a" espaço "náusea" - informei, acabando com seu neologismo do absurdo.
Ele se corrigiu, murmurou Jean-Paul Sartre em um falso sotaque francês e me disse "só por encomenda". Suspirei e fui embora pensando que vendedores de livros têm muito a aprender com vendedores de carros ou roupas.
Eu não quero uma aula sobre Existencialismo francês quando eu consultar preços numa livraria, mas eu gostaria muito de ser orientado e informado sobre a obra, onde ela se encaixa no assunto, que outros títulos poderiam me ajudar na pesquisa. Eu gostaria que os vendedores de livros dialogassem comigo, assim como faz a mocinha da loja de roupas. As livrarias são formadas não por livreiros, mas por meros funcionários que consultam o sistema e buscam o livro na prateleira: operários de uma indústria em que pensar não é necessário e conhecer o produto que vende não é importante.
Isso me lembra o filme Tempos modernos, de Charles Chaplin. O sujeito se resigna a ser um mero apertador de porcas e parafusos e não tem idéia do resultado final que sua fábrica produz, até ser literalmente engolido por uma das máquinas. O mercado das livrarias não exige de seus vendedores entendimento do assunto ou predileção pela literatura. Para trabalhar numa livraria basta saber acessar o sistema e buscar o livro na prateleira, sem criar vínculo com o cliente e sem estimulá-lo a leituras semelhantes. O conhecimento é um subproduto que se compra no escuro, ao contrário de roupas e automóveis.
O mercado das "lojas de livros" seria mais esperto se percebesse que cliente bem orientado e bem atendido sempre volta e compra mais. As livrarias não passam de espaços bem iluminados, cheios de livros nas prateleiras, com vendedores desinteressados e computadores com acesso ao sistema. E isso é muito pior nas já comuns megastores, onde os vendedores foram trocados por terminais on-line em que você mesmo acessa o tal sistema numa tela sensível ao toque, sob um deslumbre tecnológico que não sacia carência alguma. Revolucionário mesmo é o livreiro que conhece os livros que vende, conversa com o cliente e participa de sua ânsia por conhecimento. Afinal, conhecimento não é sistema, é diálogo; não é máquina, é homem.
Mas tudo bem, não é o fim do mundo. Para mim, o mundo acaba mesmo toda vez que eu vou numa livraria e admiro a prateleira dos mais vendidos. Ali está, diante de mim, o retrato da falência do indivíduo, uma fatia da ansiedade do Homem contemporâneo e um testemunho do desespero existencial que nos faz baratas tontas num mundo de ofertas coloridas e respostas ilusórias. Curiosamente, dessas respostas os vendedores de livros sabem me informar.
Acho que o buraco é mais embaixo, mesmo.
Também sinto falta dessa falta de diáolgo, Vitor. Mas acho que o próprio mercado deu um jeito de assimilar essa deficiência e transformar em produto vendável. É só ver algumas (poucas) livrarias com vendedores com mais conhecimento do assunto e ambiente mais aconchegante. Esse 'conforto' é refletido em um preço mais elevado que nas livrarias mais populares.
Saulo Frauches · Rio de Janeiro, RJ 2/1/2007 16:55
Oi Vitor.
Se você estiver passeando por São Paulo, viviste o sebo Avalovara (especializado em literatura) na Pedroso de Morais próximo à Cardeal Arco-Verde (quase ao lado da FNAC). Não sou de fazer propaganda, mas se você quiser ser atendido por alguém capaz de conversar contigo sobre o conteúdo dos livros, sobre as diversas edições, sobre os autores, etc, lá é espaço.
Grande Vitor!
Sensacional seu "desabafo"!
Também me sinto assim!
Um abraço.
Chegua a ser frustrante, mesmo, Vitor. Tão frustrante que, por vezes, opto por comprar livros online só para não ter que ir a uma livraria e me lembrar da realidade que você tão bem descreveu.
Abs!
Quantos e quantos funcionarios de livraria que nunca leram um livro? Será que existe essa estatistica? (tem que olhar no sistema) Ou provavelmente, os leitores de Sartre trabalhem em outras áreas nas engrenagens do mundo moderno....
Marcelo Candido Madeira · Rio de Janeiro, RJ 10/1/2007 09:23
E em tempos hodiernos, Diel, se encontra do modo como nos revela A economia da cadeia produtiva do livro.
Uma prova de que mercado trata de mercadoria e mais valia e que valor intrínsico, imaterial e humano é coisa para gente, Literatura, Poesia, Cultura.
Bom teu texto, é um travo amargo que nos fica a roçar, digamos assim, a língua.
Se tu outros de aqui gostarem do texto de lá, sintam-se à vontade para votar.
A mais pura verdade! O pior é na Feira do Livro, você pergunta por Goethe e o vendedor faz uma cara de "?"
afonsojunior · São Paulo, SP 16/4/2007 13:56Comigo já aconteceu de perguntar o autor e a pessoa fazer uma cara de Interrogação e dizer que não tem, só pra não mostrar q não sabe quem é.... mas isto foi em sebo.
Luciana Maia · Rio de Janeiro, RJ 25/4/2007 23:25Penso que a ordem é empurrar mercadoria, seja livro roupa ou carro. Em todo caso, o melhor mesmo é entrar na loja com conceitos prontos e no caso dos livros então .... affff
Edão · Bela Vista do Paraíso, PR 28/4/2007 12:52
Muito bem Vitor, belo trabalho.
Carlos Magno.
Gostei do seu texto-desabafo, conterrâneo!
Nunca passei por isso, porque já estou acostumada a escolher os livros sozinha, mas conheci alguns vendedores que liam muito e concordo com você: quando eles são bem informados, o diálogo flui naturalmente! Em consequência disso, eles também vendem mais, não é?
Para comentar é preciso estar logado no site. Fa�a primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
Voc� conhece a Revista Overmundo? Baixe j� no seu iPad ou em formato PDF -- � gr�tis!
+conhe�a agora
No Overmixter voc� encontra samples, vocais e remixes em licen�as livres. Confira os mais votados, ou envie seu pr�prio remix!