Achei engraçado ao ver o jovem tico-tico duelando contra sua própria imagem, no retrovisor do automóvel estacionado.
O motorista saiu com o veiculo e o pássaro imediatamente direcionou-se a outro carro estacionado, repetindo a mesma ação.
Pensei em Cefiso e Liríope, tentando equacionar o estigma de seu filho.
Imaginei o poeta heleno, a escrever os papiros em Oxyrhynchus, a observar alguns pássaros a duelarem contra suas próprias imagens, refletidos nas fontes de águas límpidas da antiguidade.
Entendi que a lenda de Narciso, não se refere exclusivamente ao egocêntrico ato de "admirar-se".
Narciso, não suporta outra imagem que não a sua própria, tentando assim, destruir qualquer imagem semelhante. Decorre deste ato a homofobia, o sexismo, o preconceito, a eugenia.
Também em sua loucura, Narciso não entende que a água que o reflete não é um espelho e sim, o corpo do próprio pai. Uma lamina d'água, um estado liquido, não se quebra.
Como conseqüência: A cada dia passado, multiplica-se os Narcisos. Numa progressão geométrica estimável.
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