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O TÉDIO
mmmourão · Belo Horizonte (MG) · 27/9/2008 18:14 · 111 votos · 10 comentários ·  
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overponto
O Palhaço.
O Palhaço.
O TÉDIO

- Mestre.
Uma doença me consome e me inferniza,
A mocidade e o espírito
Resulta de uma chaga que nunca cicatriza.

Sendo o mais sábio clínico do mundo,
És também filósofo notável,
Do peito humano auscultador profundo,
Curai-me desse mal inexorável

Que me devora o organismo fibra a fibra,
Que me enevoa o cérebro e o condensa.
Eu tenho um coração que já não vibra
Suporto uma cabeça que não pensa.

- O meu amigo tem razão e dessa chaga deveras padece.

Contudo, a enfermidade, esse mal que o devora,
É um produto fatal do século de agora
O tédio é uma terrível e mortal loucura
A treva interior, a grande noite escura.

No entanto um choque, um abalo violento
Pode curá-lo, creia, apenas num momento.

Diga-me: alguma vez amou?

Nunca seu peito sangrou por uma paixão ardente?
Como a água do mar que se agita e encapela
No soturno rumor do vento e da procela!

- Nunca.

- Pois bem, meu caro!

Procure uma agitação constante
Um prazer infindo
Um gozo triunfante.

Já visitou a Grécia, Oriente, Terra Santa?
Essas terras que evocam e encantam!
Apreciou as belezas da cidade eterna?
Que deslumbra e amesquinha a geração moderna!

- Em infinitas orgias passei a mocidade
E viajando pela Terra, vi a humanidade
Como andarilho errante, as mulheres todas
Seus lábios beijei em bacanais e bodas.

Mulher nenhuma eu vi sobre a Terra tamanha
Que para mim não fosse uma visão estranha
Como parti, voltei, sem encontrar alívio
Para esse mal que assim me faz cativo.

- Então, como último recurso te receito o circo.

O famoso palhaço que a cidade encanta
Palmas e aclamações da população arranca
Talvez lhe restitua a gargalhada franca.

- Um farsante assim, tão querido e aclamado
Tem um riso de morte, um riso mascarado
Que encobre a dor sem fim do tédio e do cansaço
Foi lá que percebi meu mestre, “Sou eu esse palhaço.”



tags: Belo Horizonte MG poesia
 
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Autoria   mmmourão
Ficha Técnica  


Ficha técnica:
Adaptação para poesia de um texto teatral lido através do microfone da Rádio Guarani, em Belo Horizonte, há exatos sessenta anos. Na ocasião, esse locutor era meu pai.


Data   27/9/2008
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Interessante seu poema.
O tédio é mais que ele próprio.
Um abraço
EdimoGinot · Curitiba (PR) · 26/9/2008 10:33 
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Muito bom esse poema pai... chega a ser ate comovente....
gostei muito... esse tal de Dr. Lúcio tinha um grande dom que passou pro filho né?...
Abraços
Brunoamviçosa · Viçosa (MG) · 26/9/2008 23:52 
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ótimo trabalho e linda foto.votado.
O NOVO POETA.(W.Marques). · Franca (SP) · 27/9/2008 17:28 
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MMMourao, parabens por nos mostrar esta belesa de poesia do grande poeta Lucio Mourao, votado por merecimento e vai para o banco, abracos
victorvapf · Belo Horizonte (MG) · 27/9/2008 18:14 
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MMMourão,

e não é assim a vida?
somos atores e palhaços ao mesmo
tempo e muitas vezes de nós mesmos.
gostei demais!
bjssss
Doroni Hilgenberg · Manaus (AM) · 27/9/2008 21:39 
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Um encanto ainda, não perdeu a nobreza. Parabens mesmo!!!!
Emociona...muito
Cintia Thome · São Paulo (SP) · 27/9/2008 21:45 
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tédio que tem prazer no esvaziamnero do fluxo do mundo.
mas, faz poesia, então, a vida ainda é boa.
Compulsão Diária · São Paulo (SP) · 28/9/2008 00:58 
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Apesar do tema, em nenhum momento fiquei entendiado ao ler tão belos versos.

Votado!

Abraços
Falcão S.R · Rio de Janeiro (RJ) · 28/9/2008 04:40 
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Maravilha seu poema...um clássico !
e o mote então, soberbo !
Viajei no tempo, ouvindo se Pai a narrar...
Emocionante !
abraço

joe_brazuca · São Paulo (SP) · 6/10/2008 22:22 
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Lindo poema, parabéns !
Juliana S. Valis · Brasília (DF) · 19/11/2008 22:24 
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