OPERAÇÃO CAABA
Ato de vandalismo geopolítico lança a guerra no Oriente Médio
20 de Dezembro de 2012 às 21:11 – Riad - O primeiro sinal de perigo veio pelo perfil @amjadnassif.tec no Twitter às 19h:17 (na Arábia Saudita) do último dia 17: ا;ن;ف;ج;ا;ر;ا;ت; ف;ي; ش;ا;ر;ع; ا;ل;م;ل;ك; ع;ب;د; آ;ص;ف;،; ب;ا;ل;ق;ر;ب; م;ن; ا;ل;م;س;ج;د; ا;ل;ح;ر;ا;م; - “Explosões na rua Rei Abdul Asif, perto da Grande Mesquita.” Retuitada em progressão geométrica, a mensagem se alastrou pela internet. Logo outros perfis relatavam tumulto e tiroteio nas ruas de Meca. Um aparente surto de loucura se instalou na rede enquanto os governos, os jornais e os canais de televisão se faziam a mesma pergunta: “Mas o que afinal está havendo em Meca?” Desde que o primeiro relato oficial foi dado, no entanto, pouco se esclareceu acerca do que houve de fato. Ainda assim, a guerra foi declarada.
Às 22h, portanto menos de 3 horas depois do primeiro twitter de @amjadnassif.tec jogar gasolina na rede, o rei Abdallah Bin Abdul falava em nome da Arábia Saudita. O vídeo, veiculado pela TV estatal do país e retransmitido em poucos minutos pela Al Jazeera, caiu no Youtube. A “Declaração de Guerra do Rei Abdallah”, como ficou conhecido, teve um bilhão de acessos em questão de horas. Cientistas políticos acorreram em massa aos jornais para explicar o significado daquilo. O espaço aéreo da Arábia Saudita foi interditado pelo exercito no dia seguinte, e os vôos comercias suspensos às 15h (8h da manhã em NY, quando as redações se exasperavam para falar com os correspondentes). Às 13h, O FUTURISTA desembarcava em Riad, capital do país.
Enquanto países como Irã e Sudão (em plena guerra civil) declaravam apoio irrestrito ao vizinho e deslocavam suas frotas em direção à Jerusalém, os demais regimes do Oriente Médio se mantiveram neutros e/ou incrédulos perante a grandiloqüência do que estava se relatando. O mais importante era decifrar a fala do rei saudita, que vinha encolerizada e cheia de ruídos, falando de coisas absurdas como O Grande Saque Sionista e a Pedra Preta do Patriarca. A monarquia da Arábia Saudita, que há gerações se mostrara amistosa aos interesses do ocidente, de repente se alinhava incondicionalmente ao Irã radical dos aitolás islâmicos, aparentemente por motivos simbólicos, envolvendo uma pedra com poderes místicos que alguns alegam tratar-se de um meteoro.
O governo israelense entrou em pane e todos foram ao parlamento. Por horas nenhuma declaração foi dada, mas surgiram relatos de graves dissidências dentro do estado judeu, e a CNN mostrou ao vivo grupos de militantes se enfrentando armados nas ruas de Tel Aviv e Haifa. O deputado Tzipvi Stressler do partido radical Likud foi baleado a queima roupa por um judeu russo em frente ao Muro das Lamentações em Jerusalém, cena também retransmitida aos milhões pelo globo. Toda a boataria acerca da Terceira Guerra Mundial coincidiu com os temores escatológicos envolvendo um alinhamento do sol com os planetas da via láctea, além de profecias a respeito do fim do mundo no calendário maia, e agora cabe aos líderes religiosos consolar ou incendiar seus rebanhos.
Na declaração, o rei da Arábia Saudita tentava denunciar o ultraje, ainda que transtornado por um ódio sionista recém desperto e um sentimento de revolta até então insuspeito: “Os judeus corruptos... demônios ardilosos do deserto.... o símbolo mais sagrado do Islamismo, a Pedra Preta da Caaba de Meca, declaração de guerra santa.... guerra santa (jihad)....” Levantando as mãos para o céu, o monarca conclama: “Labbayaka, allahuma Labbayk – Aqui estou, Senhor, a seu serviço. Ó Senhor, aqui estou!” E por fim: “Só há um Deus, e Maomé é seu profeta! Allah! Allah!”
O umbigo do mundo
O surto do rei Abdallah inspirou muita gente, e ao longo da última sexta feira (dia 18) ataques terroristas se espalharam pelo planeta. Mais de 30 horas se passaram entre a mensagem de @amjadnassif.tec e o pronunciamento do primeiro ministro israelense, Benjamin Netanyahu, que falou logo após uma chacina ocorrida em Hadera, onde um míssil iraniano trucidou 20 judeus extremistas. Quando indagado por um jornalista se temia a explosão de uma bomba atômica em seu país, o líder israelense saiu-se com uma ode ao fanatismo: “Nenhum judeu deve temer pela bomba atômica ou pelo fim do mundo, pois nossa raça vai perdurar por milênios, a despeito daqueles que nos acusam, a despeito dos erros dos judeus loucos, apesar de tudo o sangue de Abrãao há de perseverar no deserto....”
A Operação Caaba ocorre num momento delicado no Oriente Médio, que vive a ressaca do fenômeno conhecido como Primavera Árabe. A onda revolucionária que derrubou ditadores na Tunísia, Líbia e Egito deixou um vácuo de poder que pode ser exercido tanto por fundamentalistas islâmicos quanto por correntes mais liberais e ocidentalizadas. O futuro parece incerto também em países como Sudão e Jordânia. A Síria ocupava a pauta dos grandes jornais até a semana passada, quando tropas rebeldes estavam na iminência de derrubar o sanguinário presidente Bashir Al Assad. As precipitações surreais que se deram no “umbigo do mundo” voltaram todas as lentes para a Arábia Saudita unindo uma multiplicidade de correntes e etnias. Assim sunitas e xiitas subitamente se uniram contra o inimigo comum.
“Religião e política tornaram-se inseparáveis nos últimos dias” diz o exasperado historiador Asam Bahir Faruq, da Universidade Islâmica de Madinah, autor de Objetos Sagrados e Geopolítica dos Peregrinos. “A civilização islâmica está de tal forma revoltada que pode ocorrer nos próximos dias um ato extremo, como o lançamento de um artefato nuclear por um país como Índia ou Indonésia. Era a desculpa perfeita para o Irã lançar a bomba atômica, mas eles ainda não têm a tecnologia.” Perguntado sobre a magnitude do episódio ocorrido no último dia 17 – os distúrbios nas ruas de Meca, nas imediações da Grande Mesquita, e as consequências terríveis que se seguiram – Bahir Faruq não hesita: “Em termos simbólicos, o saque da Caaba faz o 11 de Setembro parecer uma brincadeira de criança. Digamos que o Mossad violou o que há de mais sagrado para os muçulmanos. Digamos que foi a pior ofensa de todos os tempos.”
Meca, capital do estado de Hijaz, em um vale a 70 quilômetros do mar vermelho, também conhecida como o umbigo do mundo, abriga uma Grande Mesquita em cujo epicentro se glorifica um objeto mágico, estrutura de granito conhecida como a Caaba, o cubo, “Portão do Céu.” Patriarca das três grandes religiões monoteístas – islamismo, cristianismo e judaísmo –, o profeta Abrãao a teria erigido há mais de seis mil anos, antes do dilúvio, e ali depositado uma pedra que veio dos céus, o suposto meteorito. Outros alegam que a Caaba é ainda mais antiga, e teria sido a morada do primeiro homem, Adão, expulso do paraíso. Quando Adão trouxe a pedra, ela ainda era branca, mas escureceu devido aos pecados do mundo. Diz-se também que há dentro do cubo um tesouro escondido num buraco e guardado por uma serpente.
A pedra, cordão umbilical com o paraíso, derradeiro objeto místico, tinha permanecido na Caaba ao longo dos séculos. Quando o profeta Maomé trouxe o monoteísmo há catorze séculos, teria entrado no cubo e destruído cada um dos antigos ídolos, banindo a idolatria, e pregando que só havia uma deidade possível - Allah. Já a pedra permaneceu intacta. Era o símbolo inatingível, a sacralidade manifesta, o ponto de convergência de uma civilização inteira. Quando um islamita reza, vira-se na direção da Caaba. O ideal é que vá uma vez na vida à Meca e participe dos rituais de adoração junto aos milhões de peregrinos que orbitam em transe o cubo mágico – sete vezes completas, em sentido anti horário. Mais de sete milhões de peregrinos vão à Meca todos os anos. Há muita especulação a respeito da real natureza da pedra, já que testes científicos não são permitidos no objeto sagrado.
40 minutos
Na manhã do dia 18, um editorial incompreensível segundo os mais elementares métodos do bom jornalismo é publicado no New York Times. Poucas horas depois o jornal se retrata e tira do ar o panfleto, mas a guerra cultural está lançada. Com os porta-aviões e as bases militares norte-americanas na Ásia e no Oriente Médio desnorteados, a espera de alguma ordem concreta, articulistas desinformam os leitores e confundem os militares. Em Paris imigrantes africanos revoltados vão às ruas apedrejar os carros da classe média francesa. Os bairros judeus de quase todas as capitais européias são atacados.
O editorial incendiário do “jornal mais influente do mundo”, e que tão precocemente foi despublicado e desmentido, se valia da mais vil pseudociência para justificar uma guerra total contra civilização islâmica. Intitulado Alquimia e Magnetismo na iminência do alinhamento astrológico: a pedra preta como detonador dos pólos magnéticos e gatilho da bomba atômica, o texto não passava de uma barafunda conspiratória jurando uma nova cruzada contra os infiéis do oriente. Numa sessão urgente e extraordinária na sede da ONU em Nova York, o embaixador da Arábia Saudita brande o tal artigo como prova cabal da grande conspiração dos templários e sionistas, que durante séculos vêm violando a pureza da terra santa e saqueando os tesouros mais caros à humanidade. Num gesto teatral, declara guerra aos Estados Unidos e ao exército britânico. Delegações de mais de cinqüenta países aplaudem o gesto. Diplomatas sauditas, sudaneses e iranianos saem da sessão escoltados, gerando imensa pressão internacional e piorando o delicado equilíbrio geopolítico no Oriente Médio.
Em menos de 50 horas, a Arábia Saudita declara guerra duas vezes. Tanto o rei Abdallah pela televisão quanto o embaixador nas deliberações da ONU são assertivos: o país está em guerra devido ao insulto inominável ocorrido em Meca, o saque maquiavélico perpetrado pelo serviço de inteligência israelense e apoiado pelo maior jornal americano. Com a credibilidade abalada, o site do NYTimes sofre constantes ataques. As agências de notícias ficam congestionadas e surgem aos borbotões teorias a respeito dos distúrbios em Meca e das movimentações militares no mar vermelho e ao longo do mar mediterrâneo. Os membros do G5 – EUA, Rússia, China, França e Alemanha – sentam-se à mesa de deliberações da ONU no exato momento em que a junta militar do Egito, que governa o país desde a queda do ditador Hosni Mubarak na Primavera Árabe, declara em nota oficial apoio à Arábia Saudita, cioso do seu dever manifesto de “proteger as coisas sagradas”, sendo o país tributário de umas das mais ricas civilizações do mundo e guardião das lendárias pirâmides do vale de Gizé.
Em Riad cada um tem sua versão a respeito do saque ocorrido na Grande Mesquita. Comprometido apenas com a verdade, O FUTURISTA apurou a notícia nas últimas horas por meio de autoridades, consultores, intelectuais e jornalistas. Há uma sensação de perplexidade: a Arábia Saudita, maior exportador de petróleo do mundo, exercia uma influência cirúrgica no Oriente Médio. Seu alinhamento com as potências ocidentais garantia a frágil estabilidade da região há séculos, e de repente surge o pior cenário possível: um ato deliberado de vandalismo, um estupro cultural sem precedentes. Fontes seguras afirmam que mais de 20 pessoas morreram nas explosões ocorridas na Grande Mesquita e os corpos desses mártires foram carregados pela multidão ensandecida.
“Toda a operação não deve ter durado mais do que 40 minutos” diz o perito em segurança e pesquisador da Universidade de Riad, Galih Hanib Khatlib, autor de Contra-espionagem e Criptografia no serviço secreto israelense. Segundo Khatlib, quando @amjadnassif.tec dava a primeira tuitada bombástica, aviões supersônicos e helicópteros fantasmas já haviam violado a espaço aéreo saudita há mais de 15 minutos e a tropa de elite baleado o Guardador das Chaves (aquele que guarda o Cubo, junto com seus asseclas). Explosões simultâneas nas imediações da Grande Mesquita atordoaram a polícia de Meca, que demorou muito mais do que seria razoável para tomar qualquer providência. De acordo com Khatlib, quando o alto comissariado saudita começou a receber telefonemas urgentes e estupefatos, a tropa de elite do Mossad já havia descido dentro da Mesquita, roubado a pedra e desaparecido há no mínimo 25 minutos. Nesse intervalo um caça supersônico poderia estar qualquer lugar do oceano pacífico ou ter se perdido na Ásia ou na Europa, depois de ter desaparecido do Oriente Médio, a esquina do planeta.
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