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PLIM! Ouvia a porta do elevador abrindo e fechando a cada andar que descia, porém sem nunca chegar ao térreo. Quanto mais descíamos, mais andares apareciam no mostrador acima da minha cabeça. Aborrecido, desferi um soco no painel da cabine, causando um curto circuito imediato, para espanto do mariachi, que se encolhia todo num canto. Após as fagulhas iniciais e a fumaça sinalizando que eu ferrara com os botões, o elevador deu alguns soluços como se quisesse centrifugar o que estava no seu interior, e depois iniciou uma queda livre, no início em baixa velocidade, mas em pouco tempo, todo o peso morto daquela máquina sem rumo fora concentrado na direção do fundo do poço.
Olhei o mariachi com o canto dos olhos e ele agora estava bravo, levantando-se com cara de poucos amigos, e olhos de quem acabou de ter uma idéia muito má. Deu dois passos, e achei por um momento que seria atingido por um dos seus punhos, mas segurou as portas fechadas com os dedos enfiados na fenda, e forçou a sua abertura. A porta se abria um pouco para depois fechar com barulho, como se estivesse reclamando com o mariachi, para que ele evitasse contrariá-la. O homem repetiu a ação e, desta feita, com a aplicação de toda a sua força bruta, o que ocasionou a sua abertura parcial. Consegui ver algumas nuvens que passavam rapidamente pela fenda aberta, enquanto os olhos do mariachi sinalizavam o que ele faria.
“Tchau, seu imbecil. Nos vemos no meu inferno” – Dito isso, o homem de longos bigodes negros saltou no vazio emitindo um grito que mais parecia ser de liberdade, do que propriamente de medo. A porta voltou a fechar, e o elevador deu um solavanco, diminuiu a velocidade, e parou completamente. A porta se abriu com o PLIM característico, o que era um convite para sair. Não se via coisa alguma lá fora. Quem sabe o mariachi havia descoberto um jeito de fazer aquela coisa parar. Olhei de esguelha para fora esticando o pescoço, mas uma espessa neblina impedia a progressão da visão. Pus um pé pra fora, tateando atrás de algo sólido no solo onde eu pudesse me apoiar. Nada. Quando estava com metade do corpo pra fora, a porta se fechou prendendo o meu corpo na altura da cintura. Enquanto lutava para abri-la, o elevador voltou a despencar, e agora em altíssima velocidade. Os meus cabelos voavam e os meus olhos ardiam com o vento, enquanto as minhas pernas se debatiam no interior da cabine. As minhas bochechas pareciam balões anômalos que se enchiam e murchavam, mudava de forma sem nunca estourar. Arrisquei abrir os olhos e vi o chão crescendo como um bolo com doses cavalares de fermento. SANTO DEUS, eu morreria esmagado com o impacto! Como nos filmes de ação em que o mocinho sempre têm uma idéia brilhante no último instante, fiquei na esperança de lembrar da parte do roteiro que tinha esquecido, mas nada me vinha à mente, então tentei permanecer calmo e sereno para enfrentar a minha hora. Tentaria permanecer de olhos abertos até o fim, apenas para ter uma opinião formada sobre o que os outros falavam a respeito da morte, que ela era feia, se vestia mal e tinha um hálito de cachorro leprento. Mas depois pensei que eu não teria ninguém com quem dividir a minha experiência, e fechei os olhos alguns momentos antes do choque. Agora tudo teria acabado. Ou eu achava que teria.
Abri os olhos e o sol ardia na minha nuca suada. Levantei a cabeça com dificuldade e me vi preso num emaranhado de galhos interligados em um longo tronco escuro e sinuoso que acompanhava os desníveis do paredão. Aquela árvore estava morta, mas havia salvado a minha vida na queda do precipício. Ainda sem me mexer muito, passei a mão na lateral das nádegas e senti um ferimento. Uma bala me atingira de raspão.
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