“La América l’e lunga e l’e larga
L’e formata di monti e di piani...”
Domingo sim, domingo não, o Bar Elite, tradicional boteco do centro de Santa Teresa, abre suas portas para a Cantoria. E não é uma cantoria qualquer, não. É uma autêntica cantoria italiana, acompanhada de sanfona, concertina, violão e o que mais chegar. O bar está na cidade desde 1934. Mas a cantoria começou em 1940. E, embora tenha praticamente acabado na década de 80, foi retomada em 2003 e, desde então, não falha uma quinzena sequer.
O pessoal vai chegando lá pelas 10h da manhã e se acomodando nas mesas do bar. Quando lota, tem ainda a opção das mesas colocadas na rua, fechada especialmente para a cantoria. Mesmo com o vento frio de julho soprando, as mesas da rua ficam cheias. O horário estranho é uma tradição que o pessoal que comanda a cantoria faz questão de manter. Às dez horas da manhã a missa na matriz termina e o povo sai direto da igreja para o Bar Elite. É só descer a escada e pronto. O sagrado e o profano sempre andaram juntos!
No bar, gengibre a vinho pra espantar o frio, os cantores convidados do domingo já estão aquecidos: é o pessoal do Circolo Trentino de Colatina, que apareceu por lá para juntar suas vozes à cantoria. O coral afinado e uniformizado contrasta com os rostos já vermelho pelo frio e pelo vinho. Aos poucos o cheiro de polenta frita e lingüiça de porco se misturam ao ambiente e a alegria vai aumentando. Os locais esperam respeitosamente o fim da apresentação do coral do Circolo, sanfona e viola no saco. Os turistas tentam acompanhar as canções, transformando a língua italiana num "macarronês" bem brasileiro. Os mais entusiasmados procuram as letras das músicas nas pastas organizadas do pessoal do coral.
Chegam mais músicos e o coral de Colatina se mistura aos locais. Afinal, a cantoria é tradição do pessoal de Santa Teresa e do Bar Elite. “Seu” Augusto Meneghini, até então sentadinho num canto discreto do bar, tira a sanfona escondida debaixo da mesa e se prepara para assumir seu posto junto de uma das portas de entrada. Lalo Pasolini chega com seu violão e seu boné, outros cantores já estão por ali e se chegam, as senhoras da cidade finalmente aparecem: a missa deve ter terminado. As vozes vão timidamente surgindo e se juntando em torno dos músicos. E, aos poucos, além da alegria da cantoria, parece que todos ali estão firmemente dispostos a juntar forças (ou vozes) para manter de pé a tradição da imigração italiana na cidade.
Turistas, como eu, ficam ainda um tempo olhando de longe, bebericando algo quente pra espantar o frio ou procurando ângulos ideais para a fotografia no bar apertado. Mas aos poucos a cantoria vai penetrando na alma e a gente se pega balbuciando timidamente alguma canção mais alegre, mais conhecida. Não resisti ao balbucio por muito tempo: logo descobri uma pasta com as letras e quando dei por mim estava lá no meio dos cantores, a plenos pulmões, como se dominasse o italiano e cantasse aquelas músicas todas as manhãs dos meus domingos.
“Merica, Mérica, Merica
Cosa sarala sta Merica
Merica, Merica, Mérica
L’e um bel mazzolino di fior”
(Caetano)
Para ver mais fotos de Santa Teresa e da cantoria entre no site de Jo Name.
Claudia,
q delícia de Cantoria. Tô sentindo cheiro de polenta e lingüiça fritas até agora... e pensando em abrir meu vinho tinto que está bem ali, já que aqui em Muqui o friozinho não dá trégua.
Santa Tereza é mesmo um lugar onde não se pode deixar de ir. Entre outras coisas, há o museu Mello Leitão - já indicado aqui no Guia - com os beija-flores e orquídeas "do" Augusto Rusch.
Em tempo, adorei sua fala sobre o sagrado e o profano. Sim, eles são inseparáveis, graças aos deuses, rs.
Beijos
Olá, Ériton! A cantoria italiana do Bar Elite é mesmo uma delícia! Aliás, Santa Teresa é uma delícia. Mais ainda com o friozinho que fazia no fim de semana em que passei lá. Flores, beija-flores, comida boa, vinho pra esquentar e amigos pra prosear. Quem quer vida melhor?
Beijos
que dica legal! mto pouca gente sabe da colonização e tradição italiana nessa região! vale à pena sempre divulgar!!!
Guilherme Mattoso · Niterói, RJ 21/8/2007 08:33
Que bom deve ser almoçar com essa alegria italiana!
BJS
CRis
As fotos são bárbaras, parece uam locação...
Uma delicia de Elite.
eu vou a Santa, depois te conto.
um abraço
puget
Essa "Elite" é bem democratica.
Parabéns pela dica.
Claudia, conta mesmo! Santa Teresa tem muitas histórias bacanas. Antes de ir, ligue para o Elite pra confirmar se tem cantoria na semana (é quinzenal). Dica de alimentação: Risoto de pera e nozes do Café Haus (fica na rua do Museu Mello Leitão). É de comer rezando!
Andreia, o bar Elite não tem nada de elitista. O ambiente é pra lá de demcrático. abraços!
Guilherme, o Espírito Santo tem como uma característica marcante o fato de ter recebido imigrantes europeus de várias partes e de eles terem mantido suas tradições quase intactas por muito tempo, devido, principalmente, à falta de estradas e de comunicação no estado. Somente na década de 70 começou a haver um intercâmbio maior entre essas culturas diferentes.
Pra vc ter uma idéia, numa cidade chamada Santa Maria, também nas montanhas do estado, até hoje a gente ouve o pessoal falando o dialeto pomerano pelas ruas. Estar lá é quase estar em outro país, não fossem os anúncios de cerveja da Juliana Paes e o Banco do Brasil na cidade.
O fato é que a cultura dos imigrantes, junto com a forte presença de negros e caboclos (os índios foram literalmente trucidados e hoje só temos uma aldeia Guarani, que não é uma etnia originária daqui, pelo que sei), forma o nosso povo capixaba. Acho que talvez por isso não temos uma característica marcante como povo, como têm nossos vizinhos mineiros, baianos e cariocas. Somos um pouco de todo o mundo.
Olá Ilha,
Santa Teresa é um prazer sempre!
O que mais me faz lembrar de lá, são aquelas vendas onde se vendia de quase tudo um pouco. E o mais curioso: esse "tudo" sempre, ou ficava pendurado pelas paredes e pelo teto, ou em imensos sacos na porta das vendas, junto a uma pilha de fumo de rolo... o cheiro sempre forte de cigarro de palha...
Quanto à cançoneta, ela de fato foi gravada pelo Caetano, mas pertence à tradição popular.
Aquele abraço!
Maravilhoso, Ilha. Como essa cantoria deve fazer bem pra cidade...
Helena Aragão · Rio de Janeiro, RJ 22/8/2007 13:19
Cíntia, Não vi mais nenhuma dessas vendas em Santa eresa. Acho que definitivamente elas sumiram do mapa (menos na minha rua, aqui mesmo em Vitória, onde o armazem do seu Antonio continua firme, inclusive com o método de cadernetas para anotar as dívidas!).
Quanto à música, vc está certa. É tradicional, relida por Caetano e Jacques Morelenbaum para o filme O Quatrilho.
Helena, acho que Santa Teresa é que faz bem pra gente. É uma delícia.
Ilhandarilha · Vitória, ES 22/8/2007 13:37
Ilha,
Sou suspeito- você sabe - para opinar sobre a pergunta que você me fez (sobre se música italiana é cultura nacional). Mãe capixaba, sabe como é...Claro que a música italiana daí de Santa Teresa é brasileiríssima. Pelo menos para mim e para tantos outros como você, por exemplo. Ou não seria o Adoniran Barbosa um autêntico Sambista do Brasil? Este negócio de definir o que é cultura brasileira é fácil e difícil porque a definição mora na ambigüidade absoluta do nosso coração. Música angolana, pra mim, tanto quanto a italiana, é cultura nacional. Se misturar as duas então...
Grande abraço,
Grande abraço
E o que dizer do Germano Mathias, autêntico sambista do Brás e italiano de avós? A cultura do Brasil é muito mais que plural e múltipla.
Fala ai do que seria uma mistura de música angolana (que é quase música brasileira, inclusive no funk) com italiana, heim?
Dica de prima!
Deve ser muito bom molhar a palavra, entre amigos,
num lugar assim.
...e puxa a concertina!
abraços!
Sou neto por parte de mãe de italianos. Em reuniões de família minha avó me dizia: quando nasce uma criança em família italiana você joga ela na parede, se cair é músico, se grudar é mafioso.
Parece que essa turma toda tomou um tombo quando nasceu, assim como eu.
Beijos
Heheheh! ainda bem que vc não ficou grudado na parede, Mansur!
Ilhandarilha · Vitória, ES 23/8/2007 08:51
Sou carioca, morei em Goiânia por 25 anos e escolhi morar em Santa Teresa por uma questão de qualidade de vida.
As colocações feitas pela Ilha são corretíssimas... e tudo funciona exatamente como ela conta.
Alguns comentários a respeito das fotos:
1 - Na foto número 6 é possível ver ao fundo um antigo baleiro da Garoto (Chocolates Garoto), original e que está lá a mais de 40 anos (segundo dizem os mais velhos);
Nas fotos 4 e 5 ao fundo aparece um senhor de camisa azul tocando violão. É o "Seo" Atílio Bringhenti, comerciante teresense falecido a poucos meses. Sua loja ainda vende de linha de costura a televisão de tela plana. Quem cuida dela hoje é seu filho Marcos Bringhenti, meu amigo e cumpadre. Fiquei feliz em ver Seo Atílio na foto, fazendo o que adorava fazer.
Ontem aconteceu a primeira Cantoria Italiana de 2010... Foi um sucesso!!! Cada vez melhora mais!!!
Marcos F. Leão · Santa Teresa, ES 12/4/2010 13:48Que bacana, Marcos. Posta aqui algo sobre o evento. Eu amo Santa Teresa.
Ilhandarilha · Vitória, ES 27/2/2011 16:46Não sabia que seu Atílio havia falecido. Que notícia triste.
Ilhandarilha · Vitória, ES 27/2/2011 16:51Para comentar é preciso estar logado no site. Fa�a primeiro seu login ou registre-se no Overmundo, e adicione seus comentários em seguida.
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