Meu avô nasceu no interior da ParaÃba e desceu ainda menino para o sertão da Bahia. A famÃlia ali se instalou e, mesmo ao precisar bater-se com a famÃlia fundadora e oficial de Irecê e à s vezes duelar com ciganos no Mercado Municipal, já está na quarta geração. São os Matias, conhecidos pelo Ãmpeto fora do comum. Meu bisavô, Pedro Matias, dirigia um carro e recusava-se a trocar marchas – sim, recusava-se com cenho franzido -, e sua direção pela cidade era conhecida no barulho.
Faço a introdução familiar para dizer de minha simpatia por tudo o que vem da ParaÃba. Maria Valéria Rezende, mesmo nascida no interior de São Paulo, é hoje ao menos uma boa fatia paraibana. A literatura que ela produz, pelo que eu posso acompanhar em seus dois últimos romances editados pela Alfaguara, “Quarenta Dias (2014)†e “Outros Cantos (2016)â€, tem mais a ver com meu avô do que com os meus amigos do Sudeste.
Não sei o quanto tem do lugar onde vive, da formação religiosa, da própria personalidade, ou de todos esses elementos juntos, mas a vida tecida nos textos de Rezende tem uma alegria de ser. Mesmo em tragédias, em realidades emporcalhadas pelo desprezo do homem pelo homem, seja no subúrbio de Porto Alegre ou nas tramas de Olho d’Ãgua, sua voz narrativa jamais deixa de escolher a vida.
Afirmo assim também por contraste com algumas outras literaturas. Há muita produzida atualmente que parte de uma angústia fora de lugar, um desencanto meio flâneur e um esvaziamento do sentido e da empatia. Ecos deturpados de Salomão: “Por isso desgostei-me com a minha vida, pois vejo que é mal para mim o que se faz debaixo do sol: tudo é vaidade e aflição de espÃritoâ€. A alegria de ser, ao contrário, seria uma compreensão de que entre todos os males e conflitos a vida sempre e de novo encontra seu caminho.
Ambos os romances de Maria Valéria Rezende tratam de derrotas e do reconhecimento dos limites de quem tentou ajudar. O vigor pela luta, contudo, não cessa e não desbanca o sentido de ter feito o que se fez. Não há arrependimentos em morar nas ruas do Sul para encontrar uma pessoa, somente por compaixão a alguém que nunca viu e tem relações com sua terra; não se voltaria tampouco atrás em “Outros Cantosâ€, mesmo que a trama seja a volta pela memória, para se fazer outra coisa do que se fez. Fazer foi o caminho, e as derrotas continuam.
Em cada um dos livros também tive um estranhamento. Em “Quarenta Diasâ€, cheguei a sentir brusquidão nos atos de Alice, uma falta de costura nos motivos que a levaram à s ruas. Daà veio de novo a famÃlia de meu avô: não é algo que minha tia bem faria? Ela que, ao ver uma carona demorar de leva-la, saiu a pé por onze quilômetros na estrada de chão? Sim, Alice é possÃvel demais, seja no universo de Lewis Carroll, claro, seja em temperamentos que eu mesmo presenciei, capaz de docilidades e resignação, como também de Ãmpetos totais. Ficar “encutidoâ€, como se diz em Irecê, e “encutido é pior do que doidoâ€.
Quanto a “Outros Cantosâ€, lido em sequência, senti um ritmo mais cadenciado e, em dado momento, eu me perguntei: “onde se quer chegar?†Indo e vindo ao livro entendi que a busca não era nem pela saÃda nem pela chegada, mas pela travessia. O caminho é o acontecimento, não a rodoviária final da viagem. Eu insistia em questionar: “e tudo está apenas enevoado pela subjetividade da contadora, mesmo o mundo externo da janelaâ€? Sim, mas um caminho interno que não deixa um instante só o contato com tudo o que vê e viu – é pura participação e afeto.
Sinto em qual tom o canto está afinado o canto na seguinte passagem: “Não quero mais correria, pressa, velocidade... Ultimamente ando irritadiça e exausta, resisto, mas sou sempre arrastada pela pressa dos outros desde que a gente passou a viver, se mover, se informar, pensar e se comunicar com o máximo de velocidade possÃvel segundo os diários e ruidosos lançamentos de novas geringonças eletrônicas (...). Não é só o fast-food no estômago, é o fast-food no cérebro: fast-news, fast-thinking, fast-talking, fast-answering, fast-reading (...) Ave! E quem pode, assim, continuar a ser gente, ter juÃzo e saúde? (pág. 72)â€
Remete também ao ponto social dos cenários representados tanto no Sul quanto no sertão. O poder de consumo aumentou nas camadas populares, o alcance a bens, muito mais do que a serviços, também. A miséria não é mais uma calamidade – e em minha região, ainda que estejamos na pior seca de décadas, não há uma legião de famintos, como à época em que um tataravô matou um bode para alimentar o povoado inteiro. Há uma melhoria na qualidade de vida.
Contudo, essa “eletricidade†– tema da palestra da narradora de Outros Cantos na associação o dos agricultores encomendado por eles mesmos – substitui com “velocidade†as trocas simbólicas do lugar, as particularidades da cultura, que dão o elo de pessoas para pessoas, e de pessoas com a terra. Não se trata apenas da nostalgia em ver um folguedo sumir com as telas da televisão ou as mini-telas dos jovens nas praças. A cultura era a camada de proteção e de vigor dos interioranos à época das calamidades. Se voltam tempos difÃceis, já não se pode ter a mesma raiz para enfrentar, e o desastre ser muito maior entre quem não possui mais um celular e tampouco tenha histórias para contar.
É o problema também da migração em “Quarenta Diasâ€, nordestinos desenraizados, que vivem seus pequenos desertos por não encontrarem mais chão para se fincar. Assim se faz de fato a violência urbana. Não é só da pobreza que se alimenta a taxa de homicÃdios em grandes cidades, fato este que Alice presenciará com a luz trêmula de seu celular, é a pobreza sem vÃnculo com lugar algum e com narrativa nenhuma. Os romances de Maria Valéria Rezende chegam como mostra que, por princÃpio, nunca desistiriam do que é mostrado: a narrativa por si é elo, ligação, o contrário da desistência.
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Saulo Dourado é escritor e mestre em Filosofia pela UFBA. Autor dos livros de contos "O Autor do Leão" e "O Mar e Seus Descontentes", além de livros infanto-juvenis. É colunista de ficções para crianças no Jornal A Tarde.
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