Cidinha da Silva e a crônica como ato de nomear

Correio Nagô
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saulomdourado · Salvador, BA
15/3/2017 · 1 · 0
 


Números sobre a mortalidade negra no Brasil estão à disposição para quem quiser buscar e se inteirar. Gráficos, porcentagens, tabelas comparativas, que mostram o homicídio como principal causa de morte do homem negro. Dos 30 mil jovens assassinados em 2012, 77% são pretos ou pardos, diz a Anistia Internacional. A CPI do Senado de 2016 conta que, a cada 23 minutos, um homicídio de mesma ordem acontece no país. Números. Nas chacinas dos presídios de Manaus e de Roraima, gera ainda discussão quantos foram os massacrados afinal, e houve deputado federal quem transformasse a aritmética em placar.

No livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de Cidinha da Silva, há dados e evidências quanto às mortes físicas e simbólicas de toda uma população, mas captura um ponto ainda mais alto: dá nome e forma a esses números. Com os valores absolutos se consegue convencer a razão daquilo que deve importar, contudo às vezes é difícil sentir a partir de termos gerais ou pelo hábito das repetições. Deve entrar então o particular e o miúdo para conectarem fatos às tripas e ao pranto. A crônica tem um papel fundamental, o de tornar especial uma pessoa e um acontecimento a ponto de formar o elo de sentimento entre o particular e o todo. Eis o gênero literário que é a pequena área, a área e o meio-de-campo de Cidinha da Silva, e o mote que ela alcança.

Tratam-se assim seus textos de Maria Julia Coutinho, de Taís Araújo, de Lázaro Ramos, de Mirian França, de Antônio Pompêo, de Luiza Bairros, de Aranha, de Claudia da Silva Ferreira, de Livia Nathália, de Liniker... Em uma crônica sobre a postagem de Fernanda Lima que elogia as empregadas domésticas como “batalhadorasâ€, há uma pergunta pontual da autora: “E por que não pôs os nomes dessas mulheres?†Esta reivindicação percorre o livro: a de tirar a mortalha do anonimato e da despersonificação, causas e efeitos da continuidade de um genocídio.

Ao contrário da Odisseia de Homero, em que o herói Ulisses se salva de Ciclopes ao se chamar Ninguém, na realidade brutal e de negligência institucionalizada as quais vivem o povo brasileiro, aquele que for Ninguém, pelo contrário, é o alvo fácil. Não se trata de cada um ascender e se tornar Alguém para salvar-se; trata-se de narrarmos e escutar as narrativas dos nomes como princípio. “É preciso ir mais fundoâ€, diz Cidinha em Desde dentro, “É preci1so ouvir a estas e a milhões de famílias desde dentro, desde antes das tragédias anunciadas (...) É preciso olhar com os olhos de ver e ouvir com ouvidos de escuta. Desde dentro.â€

Os assuntos de #Parem de nos matar! são tantas vezes críticas às mídias em geral. E pode-se questionar: se há tantos casos cruéis contra a juventude preta, guerra civil entre policiais e narcotráfico, por que dedicar três crônicas a Maju do Jornal Nacional, programa de uma emissora eminentemente chapa branca? Está diretamente ligado, pois é preciso assistir no palco dos afetos, em filmes, partidas de futebol, novelas, palestras, ministérios, àqueles com os quais haja comoção, admiração, desejos. Tudo aquilo que faz, de um modo geral, o francês ser mais sentido do que um nigeriano, e a morte do primeiro passar a ser prevenida, e a do segundo não. Se eu não sinto, eu não me importo, e se não me importo, eu não luto.

Sem o sentimento, é muito mais fácil esquecer-se e deixar acontecer. Eu mesmo fico contente por este livro ter-me feito passar irritações, náuseas, comoções, raivas e risos, ter-me deixado baqueado em uma tarde de domingo. Quer dizer que há energia de movimento pelas páginas e que passam por mim. Porque sentir é dar força, é vigor de natureza, e nessa dança não há sentimento ruim ou bom, há aquela que provoca o movimento de dentro para fora, a vontade de realizar. Há métodos de ação? Provoca-se a consciência como as crônicas à Carolina Dieckmann e à Patrícia Moreira, ou por marchas, rolezinhos e protestos, ou por dentro das estruturas para refazê-las, como a política em Luiza Bairros, ou a música de Ellen e o humor de Chris Rock na abertura do Oscar. Ou tudo junto, nisto como em tudo que envolvam coletividades e mudanças.

São vários os subtemas dentro de um grande tema, em circunstâncias diversas. O cronista também é um rebatedor: a realidade se lança plural e inverossímil, e a crônica a devolve menos bruta, talvez mais brutal, tangida por olhar e saliva. O cronista cria veículos de sensações e também organiza e interliga acontecimentos, dá linhas de pensamentos. #Parem de nos matar!, então, enquanto uma compilação de dezenas de textos, está sob o desafio de traçar algum caminho, de ligar uma ideia à outra, e ganhar unidade. Consegue. A princípio, pensei que fosse uma ordem cronológica dos acontecimentos, depois vi que era por temas, e talvez sejam os dois movimentos se costurando. Misturou-se a tal ponto que um texto mais denso, como “Tempo Novo!â€, que vai do racismo no futebol ao golpe parlamentar de 2016, seja coeso com o belo “Matias e o Boneco de Star Warsâ€. E mesmo neste, crônica supostamente mais leve, há um cuidado com os detalhes:

Sensibilizado, John Boyega postou o retrato do menino portando o boneco e escreveu no Instagram: “Tempo para ser grato. Do que você carrega nas mãos ao potencial de sua mente, você é um rei homem jovem (ou pequeno homem)â€. Sim , ele disse “Young Manâ€, não disse “little boyâ€. Os homens negros afirmados dos EUA se chamam de “manâ€, tenham a idade que tiverem. Desconstroem assim a expressão “boy†do tempo do escravismo e mesmo do período posterior de segregação legal.


Uma única expressão remete a toda uma história. Eu não conhecia o uso de boy para escravos de qualquer idade na América do Norte. É o mesmo que os gregos faziam, dois mil e tantos anos antes, que chamavam todos os escravizados de “criançasâ€. Por aprendizado também, conheci no livro a história das estatuetas de Oscar a atrizes negras e os papéis premiados: uma criada, uma trambiqueira, a esposa de um presidiário, uma empregada doméstica, uma escrava... E no tema da aprendizagem, destaca-se a análise da prova do ENEM e o ritual de sua realização para trabalhadoras, em “Aos que ficam nos portões do ENEMâ€, o que me fez lembrar de nunca ter lido uma análise tão cotidiana sobre a prova.

É para escolas também o livro, é claro. Não só porque inclui o tema educação, e sim porque algumas vezes um texto tem a forma de uma aula não-didática, uma aula que eu, enquanto professor, por exemplo, gostaria de realizar, estética e ética a um só passo. Ao ler uma crônica a respeito de um vídeo ou de um debate de comentários em uma foto de Facebook, eu, leitor, buscava a referência para assistir e dialogar com a autora. Não deixa de ser uma oportunidade nova para um livro de crônicas, o de ser um objeto cercado por aparelhos de multimídia, capazes de nos levar a uma situação analisada in loco. É uma oportunidade também que um professor não possuía no passado. Ter uma crônica que comenta um vídeo que pode ser exibido, com análises de favoráveis e de contrários, e questões para debate: eis uma aula completa.

A escrita por si independe daquilo que descreve. São análises autônomas. Cidinha da Silva faz textos de hiperlinks com a naturalidade de um texto impresso. É por isso também que estão e devem estar em livros, para além de portais web. Não descarto, porém, que uma obra como essa ou a reedição mesmo de #Parem de nos matar, lá para 2050, não seja em uma plataforma interativa, com mídias afins e incursões de ordem de leitura ao mergulho do leitor.

Mas não fujo do assunto, nem do primeiro apresentado, apenas sigo o livro e o que ele faz sentir. Este é o ponto, e particularmente é minha esperança em tempos cruéis: aliado ao pensamento atento, existir a capacidade de abrirem-se caminhos pelo choque ou sublime do afeto, na compaixão, na fúria ou no mínimo detalhe. O fascista, pois, é aquele que não quer se comover, o racista é aquele que enquadra seus limites de afeição, e com isso amputa sua própria capacidade de afeição. Sentir o que é próximo e enxergar a grandeza desde o minúsculo se faz onde a literatura nos educa. Assim, me deixo levar totalmente por uma crônica como Obtuário de uma lembrança, com a qual me reconheço nas palavras de conselho feitas da autora ao amigo anos antes, e aqui a recorto:

És a primeira pessoa de meu círculo próximo de convivência assassinada e quero que seja a última. Não sei lidar com isso e não quero aprender. Sou fraca e insignificante. Não tenho a força da poeta que declara firme: Dos nove homens de minha família assassinados, sete foram mortos pela polícia...

Se uma pessoa nunca teve um dos seus desfeito assim e de cá alcança tais palavras escritas para aquele que acabou de ser informado como morto no telejornal, entre os muitos que sejam, o que não sente?

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