Entre O sonâmbulo amador e o filme Aquarius

editora Alfaguara
capa do romance O Sonâmbulo Amador, homenageado no filme Aquarius
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saulomdourado · Salvador, BA
7/9/2016 · 1 · 0
 

Em uma cena de passagem do novo filme "Aquarius", dirigido por Kleber Mendonça Filho, a cunhada da protagonista ajeita livros e exibe a capa do romance "O Sonâmbulo Amador", de José Luiz Passos. É uma homenagem de pernambucano para pernambucano, entre dois criadores que traduzem a Recife urbanizada e vertical a partir da ligação com as senzalas e os mocambos, com a Zona da Mata, com as agruras de uma cultura que é fundida com um mundo clean e homogêneo.

José Luiz Passos nasceu no interior de Pernambuco e saiu para fazer pós-graduação nos Estados Unidos, onde se fixou e hoje é professor de Literatura na Universidade da Califórnia. Publicou um livro de ensaios e dois romances. Dentre eles "O Sonâmbulo Amador", vencedor do prêmio Portugal Telecom em 2013, e leitura impactante para Kleber Mendonça Filho, recifense, também crítico de cinema e curador do espaço de cinema da Fundação Joaquim Nabuco, e laureado pelos longa-metragens O Som ao Redor (2012) e agora Aquarius. Conterrâneos, sem bairrismos, sem regionalismos, colegas de um olhar de geração.

O romance que estreita os dois autores, O Sonâmbulo Amador, traz os cadernos escritos por Jurandir, chefe de segurança em uma fábrica de tecelagem do interior de Pernambuco, nos quais narra memórias, os sonhos noturnos e a rotina, principalmente a que passa a viver em uma estranha clínica. Não sabemos a razão de um homem tão pacato e razoável estar lá e este é o fio que se puxa, tanto Jurandir, quanto o leitor.

Pode-se dizer que a questão deste homem quase aposentado, com um passado confuso e de fatos que não parecem conectar-se, é a constatação de que o vivido se compõe por um conjunto espalhado de acontecimentos e de faltas, de concessões pelo coletivo e de projetos pessoais, sem que haja em nenhum deles qualquer significado por si mesmo. É possível que venha daí a diluição do tempo no romance, pois tudo o que se passou não é coisa alguma fora de uma memória que, além de avolumar as experiências, torne-as ativas.

Narrar seria a atividade de encontro com o tempo por excelência. A sua amiga íntima Minie, uma das secretárias da fábrica, já lhe insistia: “Você está se perdendo na rotina e adia o que só você poderia contarâ€. E é frase que lhe conduz, somada à tentativa de entender a morte do filho e à dissolução de projetos e do casamento, a uma ruptura no foco deste “sóâ€. Na estranheza de não se sentir dentro do que é, Jurandir passar a viver uma experiência radical de solidão para descobrir aí a sua história. Um momento que não pode contar com ninguém. Isto seria o mesmo que a loucura?

Jurandir se espanta repetidas vezes com sua solidão. Quando Minie lhe mostra uma canção, por exemplo, ele a acha triste pela melodia, e ela, pelo contrário, considera hilário a partir de uma explicação que diz muito dela. Ao se falar sobre a mesma música, agora com Ramires e Madame Góes, dois funcionários da clínica em que se encontra desde a ruptura, ouve do primeiro, muito interessado em política, um componente geracional, e da segunda, uma senhora de princípios, uma questão ética. Muitos fios da vida destes personagens, inclusive, ficam esparsos ao longo do romance, porque o narrador não tem como concluí-los, apenas aceitá-los. Como conter por completo estas outras redes de significados?

No diálogo da peça sobre Lantânio que Jurandir encena na clínica, um coronel diz que duzentos soldados estão ao seu lado para matar o místico sertanejo. Ele responde: “São duzentos e dois os lados†(p. 181). Em uma passagem mais a frente, o narrador expressa: “Acontece que vivemos como sonhamos, sozinhos†(p. 228).

Para Jurandir, o que mais evidencia a distância do seu mundo com o dos outros é o riso. Em muitos momentos, os outros gargalham sobre o que ele diz, sem que entenda a razão. Uma de suas crises na clínica é descobrir que o seu apelido é, às escondidas, “língua de trapoâ€, pela quantidade de histórias que contava com seriedade e os outros a elas se referiam com graça. Precisa admitir: “ninguém conhece ninguém (...) em se tratando das pessoas, nada me surpreende†(p.111).

A vantagem é que nada surpreende justamente porque tudo pode surpreender. O que é estranheza e solidão aponta, na verdade, a possibilidade perpétua do diferente. No controle sobre o que cerca há sempre uma sobra incontrolável; no plano há o espaço para a contingência; na sensatez espreita a brecha da loucura, que não é uma patologia, a partir de “uma psicologia irresponsável e plenamente individual†(p. 153), e sim a senda aberta do abismo intrínseco a tudo e a todos. É nesta aceitação que Jurandir pode se levar aos poucos a uma história e ao perdão de si e daqueles que por ele passaram, como também o representante fiel de sua infância mais remota, Marco Moreno, e o garoto que deformou o rosto em um acidente na fábrica, causa final de sua perdição.


“Pois pode haver riso, de verdade, mesmo no estado mais supremo de uma absoluta má sorte. E é isto que espero provar a todos vocês (p. 164)â€. Terá Jurandir se redimido a partir da narrativa que encontrou para si e de algum modo compreendido a loucura, para assim curá-la, ou melhor, suavizá-la na relação com os outros e com as forças incontroláveis do mundo tal como é? Seus sonhos buscam um caminho de saída, seus cadernos se depositam na entrada.

Clara, protagonista de Aquarius, também se põe no dilema da loucura. Obstinada que está em ser a única a não vender o apartamento para uma construtora que quer derrubar todo o edifício Aquarius, ela é vista como a "louca", aquela a quem a lógica simples do dinheiro e da segurança não convencem. Está só em seu princípio e é este que quer preservar, não só para si, mas para um mundo compartilhado, ao não permitir a demolição do prédio.

Clara é jornalista, escritora e pesquisadora de música. Em uma entrevista que concede, mostra um vinil com o último álbum de John Lennon e conta que, ao adquiri-lo em um sebo, descobriu no encarte uma reportagem sobre o cantor, meses antes de ele ser assassinado. Assim mostra que naquele objeto não há só um conteúdo a ser consumido, há uma história. É a história que traz o valor transcendente de cada coisa, não as combinações simbólicas e quase aleatórias do mercado. Contudo, essa transcendência só se mostra se houver alguém para conta-la. O desafio de Clara é a permanência de um narrador.

Se para Jurandir a salvação só virá caso encontre uma narrativa dentro de suas histórias, se souber ligar os fatos em um sentido que o retire da absoluta solidão para uma convivência entre os tantos lados que são as pessoas, Clara batalha para que a história já feita não se perca e se esvazie no relativismo do progresso a todo custo. Nenhum dos dois pertencem a esta lógica. Jurandir a percebeu tarde, Clara, arguta, a compreende e a afasta, pois um indivíduo sem uma narrativa atrai a loucura.

Mesmo que em reportagem ao Jornal O Globo Kleber Mendonça Filho não imagine um grande esquema a partir da referência ao romance dentro do filme, não deixa de ser uma pista com a qual podemos percorrer uma história. Afinal, a graça (o valor) dos objetos, e também das películas e dos livros, é ser para além de seus limites e se ampliar neste mundo invisível onde não há espigões ou muralhas contra o vento marítimo, e sim paisagens inteiras a se expandirem sem demolições.

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