Câncer.
Imagine se a classe médica especializada em oncologia se decidisse por usar um novo procedimento no tratamento contra o câncer, açoitando, calando, abafando, escondendo e matando seus portadores. O problema continuaria vigente na sociedade, mas por uma questão de estatÃstica, anunciariam a redução efetiva de mortes pela doença. Para completar, imagine também se a MÃdia tradicional bloqueasse as manifestações e a repercussão desse quadro caótico!
O pior é que esta lógica é realmente aplicada pela Prefeitura de Belo Horizonte, se não na medicina, nos movimentos sociais. O câncer - a situação de rua. Os portadores - a classe pobre belo horizontina. O tratamento - albergue. O tratamento alternativo - ocupação. Contrapartida do Estado - opressão.
Eliana Silva fica na região do Barreiro e é um veredicto de que este tipo de dinâmica se faz presente em nossa sociedade. O contexto não está ligado ao câncer, tampouco à estatÃstica, mas na luta pelo direito à moradia. O ponto chave é que aqui a estatÃstica é substituÃda pela estética de polÃticas higienistas, truculentas o suficiente para desalojar cerca de 300 famÃlias residentes.
Contemplação
“Oh Eliana, oh Eliana oh, a nossa luta aqui vale mais que ouro em pó, oh Eliana, oh Eliana oh, a nossa luta aqui vale mais que ouro em póâ€
Dos barracões da ocupação saltavam os moradores inquietos, profundamente estimulados pelo primeiro ano de Eliana Silva. Carregavam mesas, montavam barracas e improvisavam, a partir do precariado, tecnologias de sistematização para a festa. O clima é de colaboração, debaixo do sol todos botavam igualmente a mão na massa. Há sete meses a comunidade não é mais a mesma, está ocupando um terreno pela segunda vez.
A mudança tornou Eliana mais madura e mais rápido o processo de sua consolidação no local. Agora as casas são feitas de alvenaria e a organização intensificou o desenvolvimento da individualidade das famÃlias que residem lá. A festa acontece a partir das 16h, mas antes disso o grupo se reúne e caminha até o outro terreno da antiga ocupação, localizado há cerca de 300 metros. Será um ato simbólico que registra o primeiro ano de luta. Com bandeiras do MBL em punhos, eles chegam até lá.
“Aquele pedaço ali ficava a minha casinhaâ€, Elaine, 18 anos, mora no local com a filha e o marido. Olha para um ponto especÃfico do mato que cobre o solo. Emociona-se ao reviver na memória os momentos de terror de sete meses atrás. “Foi o primeiro lugar que senti que era meu. Eu senti que ia ser feliz. Só que a gente teve que cair na luta de novo, tivemos que lutar pra ter um tetoâ€, completa.
Diáspora de Eliana.
A polÃcia queimou suas lonas, destruÃram seus barracos e, inacreditavalmente, roubaram os poucos móveis e eletrodomésticos dos moradores do Eliana Silva. A justificativa da Prefeitura foi de que o terreno ocupado seria área de preservação ambiental e de que já havia um projeto em estado avançado para transformá-lo num parque.
Durante os 21 dias de ocupação, espaço serviu a vida, se resignificou e adquiriu verdadeira função social. Atualmente está tomado pelo mato, se tornou repositório para desova de cadáveres e lixo. É fétido, zona de segurança para o uso de drogas, não há qualquer sinal do tal parque por ali.
A retirada das pelo menos 1500 pessoas de Eliana Silva gerou marchas e levantou o debate sobre a abordagem violenta dos policiais responsáveis pela execução da ordem de despejo. Aconteceu que na madrugada do dia 11 de maio de 2012 a comunidade foi acometida pelo cerco da PolÃcia Militar, com 400 agentes munidos de armamento pesado, centenas de viaturas, helicóptero, cavalos e cachorros.
O interessante é que a tática de guerra utilizada nesta ação foi custeada pelo dinheiro público e usada justamente para ferir o direito a moradia ratificado pela própria Constituição Federal. Ninguém entrava, ninguém saÃa do território, a área havia sido fechada.
Na base da covardia, impediram até mesmo uma bêbe recém-nascido de ser amamentado, já que a mãe não pôde mais adentrar a ocupação quando voltou do trabalho por conta do “congelamento†do local. A sorte é que Eliana Silva vai para a luta com a ajuda de parceiros.
Frei Gilvander Moreira faz parte deste time. Ele acompanha e dedica seu ministério às lutas do povo, tendo sido o responsável por tomar a mãe da criança pelas mãos, passar com ela através do cerco policial e fazer com que desse de mamar para a filha. A saga durou por mais dois dias até que realmente tiveram que desocupar o terreno.
Por ironia da má gestão das polÃticas públicas, neste mesmo dia, enquanto esta multidão seguia para a rua, levando consigo o que conseguira carregar, a presidente Dilma Rousseff inaugurava casas feitas pelo programa Minha Casa Minha Vida em Contagem, região metropolitana de Belo Horizonte. Conseguiram entregar uma carta de socorro nas mãos da Senhora do Planalto, sem resposta. A saÃda da comunidade gerou até mesmo uma audiência pública justamente por conta da agressividade da polÃtica.
Casa nova.
A audiência pública serviu apenas para reafirmar a ausência do Estado ao lado daqueles que realmente precisam de serem assistidos. Então, Eliana se levantou outra vez, mapeou um novo território, trabalhou durante três meses em sua preparação. Quando tornaram a ocupar, fizeram-no mais precavidos, à luz do dia, com mais pessoas vendo, inibindo uma possÃvel truculência da PM. Claro, eles deram as caras, mais tranquilamente, digamos.
Hoje.
“Como foi o processo de retirada do pessoal da ocupação?â€, perguntou um correspondente do Overmundo ao Comandante Samuel Lucas, presente na ocasião do despejo.
“Foi pacÃficaâ€, desceu do carro e respondeu.
“Mas teve caveirão?â€
“Eu só vi umâ€
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